O dia do padre

Dom Orlando Brandes
  O padre vem do coração de Deus para o coração do mundo. Deus ama e salva seu povo servindo-se do ministério sacerdotal. Mesmo consagrado, o padre não deixa de ser humano e falível. Carrega o mistério em vaso de barro. Isso tudo é muito fascinante e providencial. Tirado do meio dos homens, o padre é ungido para tudo o que diz relação a Deus. É um consagrado para servir mesmo sendo ‘‘médico ferido’’.
  Jesus, ao escolher seus apóstolos, rezou uma noite inteira e, ao despedir-se deste mundo, rezou ao Pai, pelos seus padres: ‘‘Pai, guarda-os do mal; santifica-os pela verdade, pois neles sou glorificado’’ (Jo 17,15.17.10). A vocação sacerdotal é para a vida, a salvação, a santificação do mundo. ‘‘O Sacerdócio só será compreendido no Céu’’ (S. João Vianney). O mundo desceria a níveis infra-humanos se não tivéssemos lideranças espirituais. O padre é homem do povo para Deus e homem de Deus para o povo’’. Cabe-lhe unir, ligar a humanidade e Deus, fazer ponte, ser pontífice. Sim, o padre é convocado a destruir muros e construir pontes.
  Nossos padres precisam de nossa oração, nossa compreensão e colaboração. Deus deu ao padre o poder de destruir o mal pela absolvição dos pecados. Assim, o padre é médico e um grande benfeitor da humanidade. Ele vence o mal pelo perdão e pela misericórdia. É um parteiro da graça, um obstetra da nova sociedade. Foi-lhe confiada a Eucaristia. Deste modo, o calvário e a ressurreição chegam até nós. Pelo ministério do padre, Jesus crucificado e ressuscitado é nosso contemporâneo. Grande é este mistério! Padre quer dizer pai e paróquia quer dizer casa. Nossas comunidades devem ter um espírito de família e serem comunidades misericordiosas e samaritanas. O padre coordena, lidera, anima estas comunidades. Ele desposa a comunidade e gera novos cristãos que devem ser como ‘‘alma do mundo’’. O sacerdócio contém em si grandeza e fraqueza, nobreza e simplicidade. Nele Deus e a humanidade se abraçam. São Francisco dizia: ‘‘Se eu encontrasse um anjo e um padre, primeiro beijaria a mão do padre, porque nele está o Filho de Deus’’. Dizia ainda: ‘‘Não levo em conta os pecados do padre, porque nele está o Filho de Deus’’. Precisamos ter olhos de garimpeiro para ver o tesouro, a beleza e a profundidade do amor de Deus escondido na pessoa do padre. O perigo é termos olhos de urubus que só enxergam defeitos. O padre não é anjo, nem demônio, é um ser humano, amado e consagrado para servir. Deus opera maravilhas na vida de cada padre.
  Aos padres, nossos parabéns, gratidão e oração. Estamos precisando de mais vocações. Nossa prece seja aquela de Jesus: ‘‘Pai, santifica-os!’’. Com sacerdotes santos, teremos uma Igreja santa que será uma Igreja entusiasmada, atraente, resplandecente. Cada um de nós pode ser um animador de vocações. Os primeiros promotores das vocações são os pais e os párocos. Para um mundo melhor, dai-nos sacerdotes, Senhor.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina


Um mundo sem paz, um mundo sem Deus

Roberta Cardoso Queiroz
  Falamos tanto de violência nas escolas, nas ruas, clamamos pela paz, mas não observamos que ainda andamos de acordo com o curso do mundo. Não nos preocupamos em viver de acordo com o Evangelho de Cristo. O grande desafio da humanidade é este: no meio de uma geração perversa, sermos justos, promovermos a paz, divulgarmos a Palavra de Deus. Mas qual será o real significado da palavra paz que tanto divulgamos? A paz não é simplesmente uma situação de não violência ou de guerra; nem tampouco o aumento das forças armadas.
  Nos textos sagrados do Cristianismo o termo que traduzimos por ‘‘paz’’ é a palavra Irene. O termo não tem nada a ver com o sentido da palavra romana ‘‘Pax’’, que é o incorporado a nossa cultura. Irene tem o sentido do termo hebraico Shalom, usado nas escrituras judaicas. O significado da palavra Shalom não é paz como acredita a maioria das pessoas. Em hebraico, a palavra Shalom vem da palavra Shalem que significa inteiro, completo. Isso nos traz uma importante lição de vida: para alcançarmos a paz precisamos estar inteiros, completos!
  Essa paz provém de Deus e não do homem. É sobrenatural! Precisamos rever nossos conceitos e entender o que realmente é viver de acordo com a vontade de Deus. É necessário buscarmos o verdadeiro sentido para as nossas vidas para depois nos empenharmos em promover a paz. Um exemplo prático e recente é o que aconteceu com os vendedores ambulantes em Londrina. Foi violência? Sim, de fato foi. Mas a maioria desses ambulantes está vivendo na legalidade. Como podemos reclamar senão vivemos ‘‘inteiros’’, ou seja, de acordo com o verdadeiro sentido da paz?
  A paz que Deus quer anda no sentido contrário da paz que o mundo quer. Deus deve estar acima de todas as nossas decisões, Ele é soberano e só através Dele podemos ter a verdadeira paz, nos sentirmos íntegros, completos e cheios do Espírito Santo. Nada adianta colocarmos mais policiamento nas ruas, nas escolas, trancarmos nossas casas, criarmos ONGs, fazermos passeatas, campanhas se, não aliarmos a essas buscas Deus. A paz contém a idéia de perfeição e completude. É difícil? Pode ser, mas é necessário!
  O caminho é único, ímpar, estreito, porém reto, sem imperfeições e, acima de tudo, o único que nos levará à paz. Às vezes buscamos soluções nas outras pessoas, na sociedade, no governo, esquecemo-nos que o mundo é reflexo de nós mesmos. Estamos constantemente interagindo uns com os outros e todos os nossos atos têm influência maior ou menor naqueles que nos cercam.
  É tempo de nos mirarmos em Cristo, como uma bússola, nosso norte, nosso exemplo para conseguirmos a vitória em nós mesmos, sobre a tendência do homem velho. Viver de acordo com a Palavra de Deus é viver na contramão do mundo. Deus espere que façamos isso, que busquemos a essência. Caso contrário, não atingiremos a humanidade, nada será modificado e tampouco veremos a glória de Deus!
ROBERTA CARDOSO QUEIROZ é professora de Língua Portuguesa da rede particular e pública em Londrina


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