Intolerância contra a humanidade

José Miguel Arias Neto
  Desde o século XVIII, ou seja, com a emergência da noção que os direitos são inerentes a cada ser humano, vem-se compreendendo o sentido do termo humanidade como sinônimo de pluralidade. De um lado, com o surgimento do Estado burguês consolidou-se a idéia de que a ordem social entre os homens é por eles próprios estabelecida, e não por uma entidade que transcenderia a existência secular. Por outro lado, as ciências físicas e naturais, bem como as morais e políticas, dentre as quais podemos situar a sociologia, a antropologia e a história têm mostrado que existem diferentes racionalidades e diferentes formas de existência, isto é, diferentes culturas e identidades as quais não se pode impor um conjunto de valores sem que isto gere a sua destruição.
  A colonização dos territórios que posteriormente foram denominados ‘‘América’’ demonstra bem esta destruição. Estimativas confiáveis revelam que no período de cem anos após a conquista, foram mortos noventa milhões de habitantes das Américas devido ao contato com os europeus.
  A carta dos Direitos Humanos que se seguiu à Segunda Guerra Mundial é baseada exatamente na idéia de que a diversidade e não a unicidade constitui a riqueza cultural do gênero humano. Fundamenta-se também na idéia de que a civilização se caracteriza pela educação, pelo cuidado e pela consideração em relação ao outro, ao diferente, àquele que não compartilha conosco a nossa idéia de Deus, de ciência, de organização social. A ordem política, segundo aquela carta, deve se organizar em torno da pluralidade e do multiculturalismo.
  No entanto, como na idade média, a Igreja Católica insiste nos princípios intolerantes que levaram milhares às fogueiras da inquisição. As proclamações de Bento XVI, sobre o papel da igreja e do Estado que chefia, sobre o Islamismo, as demais Igrejas Cristãs e sobre outros modos de pensar e de viver diferentes do católico, isto é, sobre a maioria da humanidade, configuram o chamado para uma nova cruzada, para a intolerância e para a desagregação da República e da Democracia. Ao invés de contribuir para a consolidação de uma sociedade tolerante o atual chefe do Vaticano se alia às forças obscurantistas destes tempos sombrios.
JOSÉ MIGUEL ARIAS NETO é professor do departamento de História da Universidade Estadual de Londrina


Lei seca em Londrina

Aldo Pedalino
  O artigo ‘‘Lei seca engana bem, mas não resolve’’ (Espaço Aberto, 29/07) de autoria de Marcos Mesquita Coelho, superintendente Nacional da Indústria da Cerveja (Sindicerv), deve levar todos nós a uma profunda reflexão.
  O representante da Indústria da Cerveja relata vários exemplos em que a restrição a bebidas alcoólicas não modificou a situação de violência. Indica como paradigma os EUA, alegando que a restrição naquele país motivou o tráfico de bebidas que, por sua vez, retroalimentava a indústria do crime e a máfia americana. Cita Diadema (SP) em que os índices de violência foram reduzidos em virtude de diversas ações da polícia.
  Dois sentimentos afloram da narrativa acima. Um deles é: não funcionou. O outro é: já que não funcionou nos EUA, vamos ficar quietinhos e fingir que as ruas não estão lotadas de motoristas alcoolizados, de pessoas jogadas nas calçadas em situação extrema, de crimes ocorridos em decorrência do teor alcoólico dos envolvidos. Não vamos fazer nada! Vamos ficar olhando! Parece que só ouvimos e vemos o que nos interessa (audição seletiva).
  Não vou entrar no mérito de se estabelecer ou não restrições ao horário de venda de bebidas alcoólicas, apesar de já ter minha posição a respeito. O que questiono é se as indústrias de bebidas alcoólicas, sindicatos e entidades afins estão exercendo a sua responsabilidade social em relação à população.
  As indústrias de bebidas alcoólicas divulgam slogans para ‘‘alertar’’ o consumidor dos riscos da bebida: ‘‘beba com moderação’’, ‘‘não dirija após beber’’. Mas, sejamos sinceros, isso é muito pouco perto do contingente de ações preventivas possíveis. O que é feito de concreto para mudar o quadro caótico de acidentes de trânsito por excesso de bebidas? Qual o investimento realizado pelo setor junto à população de baixa renda para diminuir o número de bêbados jogados na sarjeta nos finais de semana por falta de atividades recreativas, culturais e desportivas?
  Com relação à colocação de que ‘‘quando o Estado é ineficiente em cumprir seu papel fiscalizador e mantenedor da ordem pública, adotam-se medidas paliativas’’, a resposta é bastante simples: a sociedade tem que assumir seu papel. Nós ouvimos e vemos somente o que queremos.
  O prefeito de Nova York disse, na última semana, que não existe capitalismo com população pobre. Ele investiu grande parte de sua fortuna para melhorar a qualidade de vida dos seus compatriotas. Novamente, não se trata aqui de questionar se a ingestão de bebida alcoólica é certa ou errada, se deve ser restringida ou não, trata-se de indagar o que as indústrias de bebidas alcoólicas estão fazendo para Londrina ser mais saudável, segura, bonita, arborizada, limpa, culta e atlética. Qual é o envolvimento dessas indústrias no processo de formação educacional, moral e cívica de uma criança e um adolescente? Essa é a questão.
ALDO PEDALINO é dentista em Londrina e presidente da Associação Mãos Estendidas


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