ESPAÇO ABERTO
Por um teatro do tamanho de Londrina
Célia Musilli
Londrina viveu esta semana um bom momento cultural com a apresentação de O Lago dos Cisnes, pelo Ballet Imperial da Rússia, no Teatro Ouro Verde. O espetáculo atraiu uma platéia heterogênea: havia muitos jovens e um grande número de idosos, como quase não se vê nos teatros, levados pela emoção de assistir a um balé que suscita as melhores lembranças em várias gerações.
A iniciativa bem-sucedida de colocar a cidade no roteiro das boas companhias que percorrem o país, levou a produção a abrir uma sessão extra do espetáculo, devido à grande procura por ingressos. Assim, em plena terça-feira fria, um público de quase duas mil pessoas compareceu ao Ouro Verde, nas duas sessões, para aplaudir os bailarinos, muitas vezes de pé. Mas a passagem da talentosa trupe russa também evidencia alguns problemas e abre espaço para uma reflexão: Londrina tem estrutura para receber espetáculos de qualquer natureza? Ou nosso melhor teatro é a prova viva de que a cidade cresceu, a cultura se alimentou, o público amadureceu e as novas demandas requerem outro tipo de infra-estrutura para as artes?
Profissionais da dança observaram, ao fim do espetáculo, que os bailarinos da companhia russa tiveram que limitar alguns movimentos, apresentando uma coreografia mais comedida. O motivo? As dimensões do palco do Ouro Verde, consideradas pequenas, não comportam a exuberância de um balé encenado por mais de 40 intérpretes. A beleza impactante das cenas dilui esses detalhes aos olhos do público. Mas os profissionais da área conhecem as potencialidades de uma das coreografias mais famosas do balé clássico e sabem que ela, a exemplo de outras, exige espaço adequado. Grupos de dança consagrados já deixaram de se apresentar em Londrina devido à estrutura precária de nossos espaços culturais e isto também vale para os grandes shows.
Nosso melhor teatro ainda apresenta problemas nos camarins, desconfortáveis e em eterna situação de improviso, assim como alguns lugares da platéia não oferecem visibilidade satisfatória para quem paga para assistir a um bom espetáculo. Diante de problemas concretos, que aparecem a cada evento mais elaborado, e do imenso potencial de Londrina como centro produtor e consumidor de cultura, cabe aprofundar a discussão sobre a necessidade de se viabilizar, com o empenho das autoridades e da comunidade, a construção do Teatro Municipal. O público e os artistas decerto agradecerão aos esforços para que o sonho se transforme de vez em realidade. E junte-se a este sonho a expectativa de que o velho Ouro Verde, onde a vida cultural da cidade é embalada há mais de cinco décadas, receba também cuidados e manutenção para que seja sempre o símbolo vivo de uma cidade artística. Porque Londrina, como se sabe, à revelia de quem sabota seus festivais e eventos, não abre mão da cultura e continua lotando os teatros.
CÉLIA MUSILLI é escritora e jornalista da área cultural em Londrina
Luz do entendimento expandindo-se
Walmor Macarini
A briga entre religiões é milenar, com entrechoques ainda existentes. Por conta disso, no passado milhões qualificados de herejes foram torturados, decapitados ou queimados vivos. As vítimas chegaram a quase 10 milhões, no correr de quase seis séculos. Nem o Brasil escapou, porque por volta de 1700 pelo menos uma centena foi para o cadafalso. A igreja com poder de Estado porque associada às monarquias fez horrores. Poder e religião sempre caminharam juntos, no passado, com um apoiando o outro e vice-versa. Por conta disso a barbárie triunfou soberana.
Mesmo dissidências de ordem eclesial, dentro do mesmo credo, acabaram seguindo uma linha radical de intolerância e fanatismo como ainda hoje sem abertura para avanços de espiritualidade. Enquanto a luz do entendimento não se instalou nos corações de tantos fiéis, religiões continuaram como grandes corporações. O culto aos valores maiores do suprafísico não se desenvolveu, dando lugar à adoração ao invés do aprendizado, e ao hábito da súplica e da menção constante a pecados, a forças demoníacas e a castigos divinos.
Impera uma constante disputa entre facções do mesmo sistema para amealhar seguidores nos púlpitos, nas televisões e no rádio cada qual proclamando-se mais virtuosa que a outra. E se tal acontece é porque ali a luz ainda não chegou. Enquanto as divindades, patronas de religiões diversas por escolha de cada crença, estão unidas nas elevadas esferas e mandam suas bençãos para a paz dos homens, aqui embaixo eles se engalfinham. Devem imaginar que também elas estão cruzando lanças.
Já aqueles que transpuseram portais e alcançaram visão mais ampla, abandonando questiúnculas irrelevantes, não vivem em estado de beligerância e a tudo compreendem. E se prostram em silêncio criando imagens de paz para a humanidade, aí incluídos esses sistemas de crenças ainda remoendo processos cármicos entre si e não desejando a libertação de seus fiéis para que descubram pela própria busca. Tudo o que acontece traz reflexos de coisas já acontecidas outrora. Portanto, muitos são inimigos íntimos desde remotas vivências.
O desconhecimento das grandes verdades é ainda um componente do obscurantismo. Revelações novas estão chegando, partidas dos mesmos profetas do passado e de tantos outros e vão encontrando ouvidores. Essa luz nova que chega vai se expandindo e já há uma grande legião banhando-se dela. Devagar mas continuamente, e sem retrocesso, ela irá inundar toda a Terra, até que a escuridão seja dissipada. Está havendo uma aceleração do tempo, e queiram ou não as forças contrárias, a expansão da consciência da humanidade começa a dar seus passos. A transformação acontecerá inevitavelmente, não de fora para dentro, por conta de algum fenômeno externo, mas a partir de dentro de cada um, e despertará os corações também daqueles hoje resistentes.
WALMOR MACARINI é jornalista na FOLHA DE LONDRINA
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