Crise aérea e irresponsabilidade

Luiz Carlos Ferraz Manini
  Dessa vez não vou criticar o governo. Mas só dessa vez. Não acredito que possamos culpar o governo brasileiro pela tragédia que ocorreu no vôo JJ 3054 da TAM. Gostaria aqui de corroborar as palavras do brigadeiro Jorge Kersul Filho, um dos responsáveis pela investigação do acidente, ao dizer que não devemos procurar culpados, mas sim compreender a conjunção de fatores que levaram a este trágico acidente.
  Conforme disse Arnaldo Jabor, procurar culpados é paranóia. Não concordo. Procurar culpados é negação, é um instrumento básico de defesa do ser humano, que pretende fugir da responsabilidade e se esconder sob sua menoridade.
  Procuramos culpados quando não somos capazes de assumir que o que está feito está ruim. No caso que temos presente, estava ruim a pista, liberada sob pressão; estava ruim o avião, com defeito no reversor, que o impediu de frear e provocou a derrapagem; estava ruim o povo, que não se preocupou em se informar se o que estava feito em Congonhas cumpria as determinações de segurança.
  Acostumamo-nos com nossa síndrome de Peter Pan, o menino que não queria crescer: preferimos atribuir a culpa ao governo, tornando-o o único responsável pelos problemas que se desenrolam no nosso país. Não aprendemos que o governo emana do povo, e nele encontra sua legitimidade, sua razão de existir.
  Herdamos uma visão colonial, na qual o governo é algo externo e distante, tal qual a Coroa portuguesa o era nos trezentos anos de dominação, assim como os governos monárquicos e boa parte do governo republicano, interessado apenas em servir à elite e seus limitados interesses.
  Temos uma participação ampla, podemos reivindicar nossos direitos, mas antes disso, precisamos cumprir nossos deveres também. No entanto, somos os filhos pródigos e continuamos atribuindo toda responsabilidade e dever às altas esferas, assim como a faltas e omissões.
  Se o governo pode ser responsabilizado pelo acidente em setembro passado, com o avião da Gol, pensemos na verdade desta ocasião. Não sejamos irresponsáveis, pelo menos dessa vez.
LUIZ CARLOS FERRAZ MANINI é professor de História em Londrina


Educação: mobilizar para melhorar

Jacir Venturi
  Poucos assuntos são tão recorrentes na mídia quanto o esporte. Até mesmo numa sala de professores, o tema que prevalece é o futebol. Este – para a imensa maioria dos brasileiros – desperta debates, paixões, frenesis. Fico a imaginar a comoção nacional, caso a seleção canarinho não passasse da primeira fase na Copa do Mundo. O técnico e os jogadores seriam empalados em praça pública.
  No entanto, o que está acontecendo com o nosso sistema educacional? Em qualquer ranking comparativo com outros países, sempre estamos entre os últimos. E o mais trágico: perdemos a capacidade de nos indignarmos! Dizia-me um amigo que na Finlândia são comuns os protestos em prol da melhoria no Ensino. Mas como, se os finlandeses detêm o primeiro lugar em desempenho no Pisa (sigla inglesa que significa Programa Internacional de Avaliação Estudantil)? – pergunto surpreso.
  O Pisa mede o desempenho de alunos em 40 países e é patrocinado pela Ocde, órgão da Unesco. E o Brasil? Pesarosamente, ocupamos o último lugar em Matemática e o 37º em Compreensão Textual.
  Sim, o resultado é fruto dessa cobrança – se faz lacônico o amigo. É um círculo virtuoso: a população é crítica, bem instruída e cobra dos governantes uma boa educação para os seus filhos. O raciocínio é elementar: se deixarem de combater as falhas, perdem a excelência do ensino.
  Há poucos dias, foi a vez do Deutsche Bank fazer cenários para o Brasil nos próximos 15 anos. Até nos posicionamos bem, mas o relatório cita uma grande fragilidade: educação deficiente.
  É provável que o Chile possua o melhor sistema educacional da América Latina. A escolaridade média da população é de 9,2 anos (6,1 anos no Brasil). Desde 2003, uma reforma constitucional determinou que a criança e o adolescente tenham um mínimo obrigatório de 12 anos de estudo. No Brasil, esse mínimo é de 8 anos.
  Aproximadamente 80% dos jovens chilenos freqüentam o Ensino Médio, enquanto no Brasil esse percentual não chega a 40%. Naquele país andino, em todos os níveis da Educação Básica, avança-se para a implantação do período integral (manhã e tarde).
  E os gastos com a educação em relação ao PIB? Quem responde é o MEC: percentualmente, o Brasil investe um pouco mais que o Chile. Aqui: 4,4%. Lá: 4,2%.
JACIR VENTURI é diretor do Sindicato das Escolas Particulares do Paraná em Curitiba


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