ESPAÇO ABERTO
Congonhas: de herói a vilão
Neusa Maria Paschoal Lopes
Eu era uma entre muitas crianças e outras centenas de adultos que adoravam ir ao aeroporto de Congonhas. Diziam que era coisa de gente do interior. Pode ser. A verdade é que ficávamos horas a fio apoiados no peitoril daquela ampla varanda descoberta, onde o vento teimava em revirar nossos cabelos, observando o movimento dos aviões. Meu pai, fanático por eles, nos informava sobre o modelo, fabricante e especificações de um e de outro à medida em que pousavam ou decolavam.
O barulho das hélices e turbinas misturado ao cheiro de querosene davam àquele cenário um ar de contemporaneidade. Era o futuro, o progresso, que mesmo sem saber, já antevíamos.
Congonhas era glamouroso e em seu hall principal até festas de formatura se realizavam. Eu era uma criança e já faz algum tempo...
No final da década de 50, São Paulo não era esta metrópole desvairada. Acordávamos com um suave perfume que em meio à neblina das frias manhãs paulistanas nos chegava das vizinhanças. Abríamos as janelas dos quartos e nos encantávamos com centenas de metros de canteiros de flores dos chacareiros lá residentes. Sim, esta era São Paulo! O obelisco do Ibirapuera ficava a poucas dezenas de metros do sobrado que pertencia a meu avô.
O aeroporto de Congonhas foi inaugurado em 1936 e idealizado como substituto ao Campo de Marte, constantemente prejudicado pelas enchentes do Rio Tietê. Nesta época, a cidade estava longe de lá. Ninguém se sentiu ameaçado, ninguém protestou.
Estigmatizado por acidentes recorrentes e reduzido definitivamente a vilão após a recente tragédia do vôo da TAM, Congonhas parece agonizar.
Muito se fala, se critica, se acusa, se culpa. Nessa miscelânea condenatória ainda não surgiu a pergunta crucial: quem, como, quando, por que permitiram que a cidade chegasse até os limites extremos das pistas do aeroporto?!
Aviões, grandes ou pequenos, são incômodos, barulhentos e, eventualmente dependendo da irresponsabilidade humana, perigosos. Esbravejar contra eles ou contra os aeroportos que os recebem parece incongruente enquanto não formos capazes de responder aos verdadeiros motivos subjacentes.
Qualquer semelhança com a situação de Londrina é mera coincidência.
NEUSA MARIA PASCHOAL LOPES é psicóloga e professora em Londrina
Carga tributária continua vilã nº 1
Darci Piana
Não é de hoje que criticamos o peso da carga tributária sobre as costas do brasileiro, seja ele pessoa física ou jurídica. O Estado arrecada demais, aplica de maneira errada, e submete o contribuinte a um sufoco que, muitas vezes, acaba se refletindo na sua própria produtividade. Leio agora, nos jornais, a constatação de algo que estamos criticando há muito tempo, antes mesmo de assumir os cargos que temos hoje, na Federação do Comércio do Paraná, no Sesc, no Senac ou no Sebrae.
O crescimento maior da economia em conjunto com o processo de redução da taxa Selic (o juro de baliza os negócios interbancários) estão tornando cada vez mais visíveis as distorções da economia brasileira. O resultado recorde de arrecadação anunciado há poucos dias (R$ 282 bilhões no primeiro semestre, crescimento de 10% reais), mostra de forma clara e inequívoca que as chamadas desonerações feitas pelo governo até agora, não têm sido suficientes para amenizar o sufoco que passamos todos os finais de mês.
Não tem sido suficiente retirar parcela do peso dos impostos em alguns setores. Defendemos uma descompressão linear das alíquotas das principais contribuições cobradas pela Receita Federal, como a CPMF, Cofins, CSLL e PIS. A CPMF - que o governo luta no Congresso para prorrogar até 2010 - deveria se transformar numa cobrança simbólica, apenas com o sentido de controlar a sonegação, mas não, é uma das arrecadações mais perversas porque é feita com efeito cascata. Se o contribuinte sacar um dinheiro hoje paga o tributo. Se depositar amanhã o mesmo dinheiro e sacá-lo de novo, paga novamente. E se depositar na conta de outra pessoa, o mesmo dinheiro é fonte, de novo, de nova cobrança.
Leio, em jornal de circulação nacional, que o Ministério da Fazenda não está aproveitando o crescimento da arrecadação, puxado pela expansão da atividade econômica, para dar o pontapé inicial num processo efetivo de corte das alíquotas. Pelo contrário, o aumento das receitas provocado pela alta do Produto Interno Bruto (PIB) e da eficiência da máquina arrecadadora, tem sido usado pelo governo para gastar mais.
É hora de o governo começar a se preocupar com esse sufoco dos empreendedores brasileiros e reduzir a carga que nos pesa sobre os ombros. Já demos demonstrações de que se atendidos em nossas reivindicações, devolvemos em forma de emprego, que crescimento e desenvolvimento, tudo aquilo que recebemos. Com pequenas benesses, como redução (ou isenção, no caso do Paraná) de ICMS entre outros tributos, os setores de comércio e de serviços têm sido, nos últimos meses, os que mais têm gerado oportunidades de trabalho.
Sem tributação excessiva, poderemos, como empreendedores, investir mais e devolver à sociedade o que recebemos. E a sociedade, em contrapartida, vai comprar mais, exigir mais qualidade e produtividade. A engrenagem do desenvolvimento será azeitada e vai girar com mais vigor, tenho certeza.
DARCI PIANA é presidente do Sistema Fecomércio/Sesc em Curitiba
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