Língua e a linguagem

Dom Orlando Brandes
  A Bíblia dedica um capítulo inteiro sobre a língua (Tg 3,1-10). Nesta passagem bíblica somos conscientizados a respeito do mal que a língua pode causar. Pela língua a pessoa é capaz de gloriar-se de grandes coisas. Esta exaltação de si, uma espécie de mania de grandeza, de louvor próprio, de auto-exaltação é muito comum. As pessoas com este defeito são quase insuportáveis. Devemos sim ter auto-estima, mas a elevação de si é egoísmo, infantilidade, falta de auto-crítica e de bom senso.
  Em seguida, Tiago afirma que a ‘‘língua é como o fogo, uma chama que incendeia’’. Realmente a fofoca, a maledicência, a difamação é como um fogo destruidor da dignidade humana e da convivência pacífica. Quanta destruição e fracasso por falta de silêncio, recato, discrição. Muitas vezes ficar quieto é sinal de sabedoria e maturidade. A língua é verdadeiramente homicida, mata os outros, tem poder destrutivo. Nada melhor que saber escutar e, a exemplo de Maria, guardar muitas coisas no coração.
  Diz o texto acima referido que ‘‘a língua é um universo de malícia’’, ou seja, um mundo de maldades, de injustiça que contamina o corpo e o curso da existência, isto é, envenena a vida e a história humana. Somos capazes de dominar as feras, mas incapazes de dominar a língua. Os cavalos e os navios obedecem ao toque das rédeas e do leme, mas a língua é indomável, diz a Bíblia.
  São Tiago afirma ainda que a língua é irriquieta e cheia de veneno mortal. Pela língua matamos pessoas e grupos, o que é pior, a língua é um mal incansável, um mal infernal. Basta lembrar as calúnias, difamações, maldições, impropérios, palavrões, maledicências, mentiras para perceber o mal que a língua espalha. Quem freia a língua, freia o corpo inteiro.
  A língua é fonte de maldição embora tenha sido criada para louvar a Deus, elevar os outros, elogiar as qualidades, promover o bem. A língua é tão pequena, mas se gaba de grandes coisas, é cheia de jactância. Mesmo pequena, ela é como uma faísca que provoca grandes incêndios. É um fogo devorador, um poder destrutivo, um verdadeiro flagelo.
  A Palavra de Deus nos alerta a respeito do mau uso da língua, da palavra, da voz, da fala. Se usássemos a língua para o bem, faríamos milagres na comunicação, na cura, na reconciliação, na elevação das pessoas e no louvor a Deus. Um dos maiores poderes que temos a nosso favor é a palavra. Ela tem força criadora, terapêutica, educativa, construtiva, regeneradora. Há profetas que se tornam cães mudos, há tagarelas que nada dizem e cansam os ouvintes, há demagogos que enganam o povo pela lábia, há rezadores que têm o louvor nos lábios, mas o coração está longe do Senhor. Precisamos discernimento para o bom uso da língua e da palavra.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina


Eventos traumáticos

Julieta Arsênio
  Viver realmente é maravilhoso. Afinal, criamos nossas rotinas diárias e ainda encontramos tempo para adicionar a essa rotina algo prazeroso como assistir ao Pan torcendo para a equipe brasileira. Esse envolvimento nos leva a extravasar alegrias, muitas vezes intocáveis dentro de nós, porém vive-se porque viver é maravilhoso.
  Diariamente, somos informados das violências que abatem nossa comunidade. Nos inteiramos, refletimos, nos indignamos e nos conformamos como se o incidente jamais nos atingirá, pois só acontece com os outros. Temos notícias de perdas incontestáveis, sofremos e voltamos à nossa rotina. No entanto, essa rotina é passível de outras instigações que acabam gerando uma comoção coletiva. E mais uma vez uma tragédia aérea nos atinge num momento em que muitos se alegravam com as vitórias conquistadas pelos nossos esportistas.
  Infelizmente, essa tragédia, além de arrebatar a alegria de muitas famílias, causou muita dor, ofuscando a torcida brasileira e a legião de competidores. No meio dessa tragédia surgem os aproveitadores que, sedentos pelas dores alheias, começam a circular pela internet um e-mail falso sobre o acidente do vôo 3054 da TAM, que instala um cavalo de tróia na máquina do usuário.
  Os meios de comunicação tentam explicar o que para a família das vítimas é inexplicável. Sabe-se que um acidente aéreo tem sempre múltiplas causas e algumas notícias falam sobre as ‘‘causas estruturais da tragédia’’: incompetência, desídia, leviandade, ganância e corrupção estariam no sistema de transporte aéreo brasileiro. Perto desses fatores estruturais, eventuais falhas técnicas ou do piloto na origem da catástrofe são dados acessórios.
  Todavia, a vivência direta ou indireta de eventos traumáticos como esse acabam repercutindo na saúde mental das pessoas, desenvolvendo um estresse (dor) pós-traumático. Esse mal ocorre quando uma pessoa passa por situações traumatizantes intensas, muitas vezes pondo em risco sua vida, quando experimentam, testemunham ou ficam sabendo de ameaças de morte ou lesão grave com relação a si mesmo ou pessoa conhecida, resultando-se assim em medo, desespero ou horror.
  Algumas pessoas podem ter passado por um trauma, porém não significa necessariamente que elas terão dor pós-traumática. Num evento como esse sinistro acometido com o vôo da TAM, com certeza os familiares envolvidos, em sua maioria, se sentirão abalados em sua estrutura psíquica requerendo aconselhamento psicoterápico para lidar com suas perdas. Este tratamento requer muito do paciente para aceitar o que para si é inaceitável.
  Acredita-se que pelo menos 60% dos homens e 50% das mulheres experimentam pelo menos um evento traumático durante a vida. Seja lá como for, não deixemos que o nosso direito de cidadania seja outra causa estrutural de uma tragédia. Unamo-nos nas alegrias e nas dores, sejamos solidários com aqueles que sofrem e busquemos a necessária credibilidade vivencial para que reforcemos a idéia de que viver realmente é uma maravilha. Vamos viver felizes e fortes para podermos encarar as tragédias que a vida nos impõe.
JULIETA ARSÊNIO é psicóloga em Londrina


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