ESPAÇO ABERTO
Deboche versus hipocrisia coletiva
Tiago Brene
Como uma espécie de desdobramento da crise aérea, os gestos dos assessores presidenciais Marco Aurélio Garcia e Bruno Gaspar geraram indignação e revolta. A oposição logo pediu a demissão dos assessores e a sociedade e jornais manifestaram sua reprovação através de cartas e editoriais. De fato, num momento de tanta comoção, tais imagens são repugnantes e refletem bem o perfil do atual governo. Quero me deter, porém, em dois pontos: direito à intimidade e a hipocrisia coletiva.
Que a intimidade, prevista no artigo 5º, inciso X da Constituição Federal, não constitui um direito absoluto é praticamente de conhecimento comum. No Estado Democrático a intimidade pode ser sacrificada, quando necessário, em detrimento do interesse público. É razoável e desejável que imagens, escutas telefônicas e qualquer informação privada se torne pública, quando a situação assim exigir. Contudo, é questionável o sacrifício da privacidade, mesmo que se trate de pessoas públicas, para que, tão-somente, se realize um tripúdio moralista. Diferentemente do relaxa e goza, dito em público pela ministra do Turismo, Marta Suplicy, o deboche em questão foi uma expressão realizada em particular, cuja publicidade em nada contribuiu para coletividade.
Subtrair a intimidade para o fim de obter um furo de reportagem, a qual não oferece nenhum resultado prático para a coletividade, é mais imoral do que expressar, reservadamente, um sentimento (por mais reprovável que seja tal sentimento). O gesto condenado é tão obsceno quanto cutucar o nariz ou falar com a boca cheia, ou seja, é impossível de se atribuir juízo moral. Moral, em nada tem a ver com bons modos. Vale dizer, ainda, que até a moralidade administrativa (princípio constitucional disposto no artigo 37, caput, da CF/88) possui contornos bem mais objetivos do que imagens de banheiro, quarto de motel e top-tops podem revelar. Estas hipóteses são, inclusive, incapazes de subsumir ao princípio da moralidade administrativa.
Acredito que todos são suscetíveis ao erro, sendo que isso, não implica impedimento para que as pessoas emitam juízos e apontem os erros uma das outras. Isto não é, necessariamente, hipocrisia. Se escandalizar com gestos da intimidade, aí sim, tem-se hipocrisia.
A revolta e a impaciência com o atual governo, em que pese compreensível, deu ensejo a um cinismo coletivo. Todos se horrorizaram com o deboche, mas não houve perplexidade com a ridicularização da intimidade. Ora, o atual governo é, por si só, desastroso e incompetente, sem que seja necessário desvirtuar o sentido da liberdade, que, é inerente à democracia. Mais do que gestos corpóreos realizados em privado, é a inanição administrativa que deve ser valorada como imoral. O que vai além disso, não passa de uma hipocrisia generalizada, sem sentido e sem efeito prático.
TIAGO BRENE é bacharel em Direito e estudante de Filosofia na Universidade Estadual de Londrina
Jogo de pião no caos aéreo
Mariana Guerin
Quem se diz cidadão de verdade quer participar efetivamente dos momentos mais importantes de um país. Seja nos Jogos Panamericanos ou até mesmo numa grande tragédia. A relação do povo com sua pátria é quase como um casamento: na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, até que a morte os separe.
E foi preciso centenas de mortes para nos darmos conta do quanto estamos abandonados. A crise aérea é o retrato atual do abandono, assim como o gesto obsceno do assessor político e os infindáveis atos de corrupção. Atingindo os mais ricos diga-se empresários que precisam do avião para levar seus negócios (e o País) adiante , a poeira foi varrida para fora do tapete.
Viajar de avião não é só mais seguro e mais rápido. É também muito mais caro, trabalhoso e hoje, impossível. Enquanto os grandões fazem as trapalhadas em seus cargos de poder, são aqueles que dependem do emprego para sobreviver, que pagam o pato.
É com os atendentes de balcão das companhias aéreas que os viajantes gritam. E até xingam. Esta semana, uma funcionária chegou a ser chamada de vadia no aeroporto Afonso Pena, em Curitiba. Deixou o posto indignada. E com razão.
Ela seguia ordens, tentava realocar passageiros em outros vôos, em ônibus e até hotéis, quando foi interrompida por um suposto cidadão brasileiro. Alguém que se acha tão importante a ponto de criticar a profissional que só tentava cumprir seu dever. Por que não gritou com o deputado, com o senador que ajudou a eleger? Não, aí ele prefere se omitir.
Em meio ao caos, a solidariedade do verdadeiro brasileiro impera. Gente comum, de férias, gente importante, tentando chegar ao compromisso o mais rápido possível, passageiros ocasionais, que ainda não tinham experimentado a sensação de abandono. Se vê de tudo nos aeroportos. E todos unidos.
E não só em São Paulo, Rio, Brasília. Londrina não está tão longe da realidade nacional. Sem tecnologia fica impossível decolar em dias chuvosos. Atrasos já são constantes e até o cancelamento de alguns vôos refletem a falta de atenção também aqui. Mas isso já sabíamos.
Com a experiência de quem enfrentou viagens em tempos de apagão aéreo, afirmo, sem medo de errar, que os peões das companhias aéreas estão de parabéns. Pelo jogo de cintura com que têm enfrentado os reclamões valentões.
Há de se ter paciência ao pensar em viajar nos próximos meses. Distâncias que já eram longas, tornaram-se inatingíveis. E as vantagens, que também não eram tantas assim, agora são nulas.
Primeiro foi o serviço de bordo para diminuir o preço das passagens. Agora os vôos também estão sendo cortados. No futuro próximo, rotas de aeroportos cruciais para o País. E o presidente quer aumentar o preço das passagens para diminuir o número de passageiros como era no início. De qualquer jeito, os grandões, todo-poderosos das empresas que detêm o monopólio do espaço aéreo, saem ganhando. Só podia ser no Brasil.
MARIANA GUERIN é jornalista na FOLHA DE LONDRINA
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