ESPAÇO ABERTO
Quero me escandalizar
Alessandro Henriques
Tenho percebido como nós perdemos a capacidade de nos indignarmos com algumas coisas. A injustiça, a malícia, a omissão, o roubo, a mentira parecem não nos escandalizar mais. Acostumamo-nos com tanta coisa errada e, infelizmente, nos acomodamos em meio a elas.
Quero me escandalizar com um presidente que lutou tanto para entrar e, agora, esqueceu do povo. A corrupção nunca foi tão grande. Acho que nenhum de nós consegue imaginar quanto do nosso dinheiro é desviado para o bolso de poucos. Impunidade com os grandes e políticos, enquanto os pequenos são esquecidos. Estes últimos são apenas lembrados na época de eleição e quando podem ser instrumentos políticos.
Preciso me escandalizar com um líder religioso afirmando que a sua igreja é a única correta. Nem mesmo dentro desta igreja, com muitos teólogos e sacerdotes inteligentes, houve uma palavra discordando do erro do seu líder. Medo de serem descartados? E a fé, não conta? Jesus afirmou ser ele o único caminho e verdade, e não instituições. Ninguém diz nada? Pilatos lavou as mãos, mas os que crêem pagam o preço pela verdade, e vão para cruz.
Tenho que me escandalizar quando igrejas evangélicas tiram dinheiro do povo com promessas de prosperidade e milagres. Igrejas cheias? Programas em vários canais? Nada disso me impressiona, pois meu Senhor morreu abandonado numa cruz. Ninguém vê o povo sendo enganado? Escolhemos o silêncio e o não envolvimento, mas é o certo? Não, não é.
Estou escandalizado com a televisão no Brasil. Duvido você encontrar um programa de humor sem piadas fundamentadas numa sexualidade doentia. Em outros programas, mulheres que deveriam mostrar seu valor através de obras sociais, sua capacidade intelectual, mostram algo deveras diferente: seus traseiros. Pior ainda, ficam orgulhosas de serem reconhecidas como as gostosas. Isso, principalmente, parece não escandalizar mais o brasileiro. Dizemos: É nossa cultura. É nada! A mulher não deve ser valorizada pelo seu traseiro, mas pela sua humanidade.
Precisamos nos escandalizar e, juntos, fazer diferença em nossa cidade e país. Será que não temos sido omissos? Parece que os problemas só se tornam nossos quando nos afetam de forma direta e intensa. Precisamos olhar à nossa volta, querendo ver a realidade, com disposição para ser agentes de transformação. Utopia, você pode pensar, mas o mundo está assim por pensamentos como este. As coisas podem mudar, se eu e você decidirmos fazer o pouco que nos cabe pelo fraco, pela justiça, pela cidade, pelo país, pelo que é certo. Não sou político, sou apenas um cidadão indignado, escandalizado, e disposto a fazer alguma diferença.
ALESSANDRO HENRIQUES é teólogo, biólogo, escritor e pastor da Oitava Igreja Presbiteriana de Londrina
Atraso na aviação: atraso ao Brasil
Beatriz Farah
Vivemos um tempo em que nunca se prestou tanta atenção às instruções dadas pelos comissários de bordo no início das decolagens. Concordemos: ninguém é assim muito interessado no vídeo repetitivo ou mal olha para o instrutor, mas isso mudou. Aliás, desastres áereos parecem iminentes.
O que antes era diversão, férias para relaxar e gozar, negócios e desenvolvimento continua o sendo, porém sempre atento a qualquer barulho diferente nos motores do avião. A sensação antes definida como isso só acontece com os outros é ameaçada pelo descaso dos responsáveis que não tomam posição condizente como tal.
O que dizer desta ironia do destino? A nação do inventor do avião conviver com o caos aéreo é uma vergonha! Teria Santos Dumont, desolado no céu, uma solução para os homens mundanos? Que falta faz uma pessoa sensata nos dias de hoje.
Não podemos nos acostumar a ir ao aeroporto pensando que se o vôo atrasar duas horas estaremos no lucro. Chegar ao destino no horário previsto já não é mais uma exigência, é apenas suficiente em um país onde quase 300 pessoas morreram em menos de um ano em desastres aéreos.
Chegar vivo onde se voa sem manutenção correta, pousos feitos em pistas construídas em desacordo com o bom senso, inquéritos para descobrir causas de acidentes com 99 pessoas vitimadas são arquivados, comandantes de aeronaves pilotam desgastados pelos atrasos, pois eles também são vítimas, é sinal de que a sorte foi lançada. Não bastasse a violência de bandidos nas ruas, somos obrigados a agüentar a violência psicológica causada pelo descaso.
Aeroportos novos são bem-vindos e necessários, porém levarão anos para saírem do papel. Essa solução é na verdade notícia fresca para afastar as manchetes da tragédia. Espero que não pegue.
A não-resolução do problema não atrasa apenas vôos. Atrasa o crescimento do país, a geração de empregos, circulação de dinheiro; antecipa a ida de quem tinha tanto o que fazer entre nós; adia sonhos, estudos, reuniões.
BEATRIZ FARAH é estudante de Direito em Londrina





