ESPAÇO ABERTO
Espiritualidade sadia
Gourasundar Dasa
Recentemente foram publicadas neste jornal duas opiniões diferentes (uma do lado católico, outra do lado evangélico) acerca da recente declaração polêmica do Papa Bento XVI. A tal declaração, defendida pelo lado católico, é de que Jesus estaria na Igreja Católica apenas e que essa seria a única igreja verdadeira. Já o lado evangélico, sentindo-se ofendido e até agredido com tais declarações, lembra que na verdade Jesus nunca formou uma igreja nem há tal declaração na Bíblia, no entanto, os evangélicos também têm sua igreja, na qual pregam serem os únicos donos da verdade.
Nessa ''briga cristã'', lembramos que são muitas as declarações polêmicas do papa, e alguns acreditam que esse papado terá grandes consequências negativas na história de Igreja Católica no mundo. Também aqui na FOLHA foi publicada uma matéria na segunda-feira, dia 16 de julho, com a notícia de que nos Estados Unidos, a Igreja Católica pagará cerca de 660 milhões de dólares para vítimas de abusos sexuais cometidos por padres, algo absurdo no que se refere a uma entidade que prega que somente ela detém Jesus. No lado evangélico também há polêmicas, como o desvirtuamento do objetivo cristão e o cultivo do mito do demônio em seus ''cultos-shows'' nas igrejas, além dos inúmeros processos de lavagem de dinheiro e enriquecimento ilícito que envolvem certas igrejas.
Diante dessas polêmicas e questionamentos sem respostas, muitas pessoas partem para uma busca espiritual longe dessas igrejas. Na busca por uma espiritualidade sadia para a alma e para a mente, vão aos poucos mudando de religião, ou de linha cristã, como o espiritismo (em suas diversas vertentes), chegando até ao holístico (que não segue nenhuma linha em especial), inclusive algumas vezes optando até por religiões fora do cristianismo, como islamismo e outras linhas orientais mais antigas, por exemplo, o budismo (em suas diversas vertentes), que tem mostrado grande crescimento no Brasil e o hinduísmo (especialmente na sua vertente mais importante, a Vaishnava ou Hare Krishna), além da Igreja Messiânica e Seicho-No-Ie, para citar apenas algumas.
Assim, com certeza a igreja e o papa deveriam se preocupar mais com o lado espiritual ''sadio'', com as questões filosóficas, muito questionadas ultimamente, e deixar de lado declarações que só causam mais desgosto nas pessoas, que em muitos casos se afastam de Deus devido às decepções com a instituição, ou no melhor dos casos, as levam para outras religiões que dêem aquilo que um buscador sincero quer. Afinal, a espiritualidade mora onde há paz e bom senso.
GOURASUNDAR DASA é palestrante especialista em Filosofia Védica, membro da Sociedade Internacional para Consciência de Krishna (ISKCON) e estudante de Ciências Sociais em Londrina
A Igreja de Jesus
André Eduardo Pullin Lazzarini
A polêmica que se cria sobre todos os enunciados do Vaticano ganhou mais munição semana passada. A falta de vontade de conhecer a verdadeira informação, aliada a vontade em criticar a Igreja Católica, persiste. E os cristãos católicos que se preparem para os comentários desinformados que já se apresentam. Jesus não disse que seria fácil, ao contrário, Ele deixou bem claro que a luta do cristão pela pregação da Sua Palavra será sempre um trabalho árduo, longo e conflituoso. Não podemos desistir: ''A messe é grande, mas os operários são poucos'' (Mateus 9,37).
O conflito, desta vez, recai sobre o documento que o Vaticano publicou, repetindo aquilo que sempre se soube: a Igreja de Jesus subsiste na Igreja Católica. Cristo constituiu sobre a terra uma única Igreja que existirá eternamente, permanecendo com todos os elementos por Ele instituídos. Esta Igreja subsiste na Igreja Católica, já que esta é a única que permanece ao longo da história fiel aos ensinamentos e aos sacramentos instituídos por Ele. Embora a Igreja Católica permaneça fiel a Jesus através da sucessão apostólica iniciada com São Pedro, o Vaticano insiste que todos os cristãos podem e devem procurar uma unidade verdadeira em Seus ensinamentos. Ele mostra ainda que essa união é necessária e possível, já que, nas igrejas e comunidades eclesiais cristãs surgidas por cismas ou pós-reforma (mas que ainda mantém alguns sacramentos verdadeiramente cristãos), a Igreja de Cristo é presente através da verdade e dos elementos de santificação que existem nelas. Essas comunidades, apesar de não estarem em comunhão com a Igreja Católica, são passíveis de qualidades salvíficas, ou seja, não são vazias de peso e de significado, no sentido que o Espírito de Cristo não se recusa a servir-se delas como instrumentos de salvação.
A afirmação ''subsiste'' é real, pois a doutrina que se transmite ao longo da história não se modifica minimamente. Essa expressão mostra a plena identidade da Igreja de Cristo com a Igreja Católica.
O Concílio Vaticano II insiste em afirmar também que existem numerosos elementos de santificação e de verdade fora da Igreja Católica, ou seja, nas Comunidades Eclesiais. Jesus deixou na Igreja Católica, através de seu Espírito Santo, os meios de salvação, mas as divisões entre os cristãos impedem que ela atue de forma plena sobre todos Seus filhos. Este documento promulgado pela Congregação para a Doutrina da Fé constitui uma clara chamada de atenção para a doutrina católica sobre a Igreja. E mostra o caminho certo para o diálogo ecumênico, dando-lhe prioridade.
ANDRÉ EDUARDO PULLIN LAZZARINI é médico veterinário em Londrina
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