ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de julho de 2007
Francisca Vergínio Soares 
Trabalhadores informais e a globalização
Francisca Vergínio Soares
A operação Capitão Gancho 2, realizada em conjunto pela Polícia Federal (PF) e a Receita Federal (RF) no último dia 12 no Camelódromo Central, teve como alvo desarticular a pirataria em Londrina. De posse de 316 mandados de busca e apreensão, agentes da RF e PF entraram em todos os boxes do camelódromo e apreenderam praticamente todas as mercadorias. Conforme balanço divulgado, cerca de 2,5 mil caixas com produtos lotaram 10 caminhões. A estimativa inicial é que o valor atinja R$ 3 milhões. Segundo o delegado da Polícia Federal (PF), Kandi Takahashi, a ação vinha sendo planejada há duas semanas.
Esta situação, onde vendedores ambulantes de produtos pirateados resistiram à operação dessas duas instituições, confirma a dificuldade de se criar e fazer prevalecer normas para o setor informal. O trabalho informal tem sido um problema em diversas partes do mundo, tendo em vista que cada vez mais tem diminuído os postos de trabalho formal e isso tem levado as pessoas a criarem formas de sobrevivência. O modelo de Estado que se orquestrou no primeiro mundo soprou por estes lados e fez feliz o capital porque viu se abrirem fronteiras nacionais e setoriais para seus investimentos. Passou a circular pelo mundo, valendo-se dos países em que a mão-de-obra é mais barata, onde as matérias-primas são mais acessíveis, onde os impostos são insignificantes, mais financiamentos, melhor infra-estrutura, além de se transferir do setor produtivo para o especulativo. Para os trabalhadores, a globalização neoliberal representou a perda generalizada de direitos, a imigração na busca de trabalho diante da elevada taxa de desemprego que passaram a sofrer. Criou-se um proletariado ziguezagueante, sem direitos, submetendo-se a condições cruéis de exploração.
Voltando aos ambulantes de Londrina, eles são um produto de uma economia cruel. Ou não? De onde vêm os produtos que eles vendem? São de países onde a economia passou a ser muito mais uma economia de serviços, valendo-se da exploração de mão-de-obra na China, no México, na Indonésia, na Índia, no Brasil. Então, observe que se a intenção é boa em combater produtos pirateados, se deveria também combater ou proibir as economias dos países centrais do capitalismo de importar mão-de-obra barata de países periféricos para setores de baixa qualificação.
Enfim, não se trata aqui de referendar o trabalho ilegal e informal dos ambulantes. Mas mostrar um outro ponto de vista: essa situação é antiga e tem o aval do setor público, caso contrário, a Prefeitura não teria autorizado a efetivação do camelódromo. A forma fundamental de reverter esse processo cruel é o de limitar as formas de livre circulação do capital, condicionando-as a investir no setor produtivo, na esfera nacional e com criação de empregos. Isso tem que ser responsabilidade dos estados nacionais e de seus governos, mas também da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Como a Organização Mundial do Comércio (OMC), o único organismo multilateral do sistema da ONU cujas decisões têm poder de lei, a OIT deve ter o mesmo poder para administrar os interesses dos trabalhadores do mundo. Se fossem criadas e efetivadas políticas de emprego, provavelmente sobrariam poucas oportunidades para a repressão à economia informal e os trabalhadores ambulantes, produto da globalização, poderiam usufruir o mais ilustre dos direitos: o direito ao trabalho e ao emprego formal.
FRANCISCA VERGÍNIO SOARES é socióloga, doutora em Ciências Sociais e docente de Sociologia e Política em Londrina
A desgraça da pergunta é a resposta
Nélio Roberto dos Reis
Frase título do psicanalista inglês W. R. Bion, define bem a afirmação do Vaticano, onde o Papa Bento XVI divulga um documento intitulado Respostas a Questões Relativas aos Aspectos Centrais da Doutrina Católica, cujo texto reafirma que a Igreja Católica é a única Igreja de Cristo. Acredito que o Pontífice tenha perdido a aula de catecismo onde se ensina que Deus fez o homem, e não o católico, à sua Imagem e Semelhança. Às vezes, três doutorados não significam muita coisa.
Temos que considerar que católicos já tiveram papas como Leão XIII que lutou contra a triste situação das classes operárias de todos os credos. Bento XV que acabou com as perseguições aos religiosos de outras crenças e chamou a primeira guerra de carnificina inútil entre povos diferentes que deveriam ser irmãos. João XXIII visitava pessoalmente bairros carentes e atendia os pobrezinhos sem querer saber seu credo. Pregou, aberta e corajosamente, o ecumenismo isto é, o diálogo aberto com outras religiões e abriu o diálogo com o mundo comunista. Muito mais longe foi Paulo VI que estabeleceu relações diplomáticas com os países mulçumanos.
Isto quer dizer que numa terra onde existem seis bilhões de seres humanos e só 25% são cristãos, os outros 4,5 bilhões estão condenados junto aos seus antepassados e seus descendentes? O diabo não daria conta.
O filho de Deus igualou todos os homens quando impediu o apedrejamento de Maria Madalena, perguntando: atire a primeira pedra quem for diferente, quem não tiver pecado.
É à custa desta arrogância e prepotência do catolicismo que ateus fazem sua propaganda em livros que provocam os fiéis e afirmam que pode existir sentido em uma vida sem crença. Crescem igrejas onde pastores pregam que é dando ($) que se recebe ou outras que pelo que tudo indica usam a Bíblia para contrabandear dólares. Não vejo muita santidade em uma igreja que paga 600 milhões de dólares a vítimas de padres pedófilos na Califórnia somente em 2007. Toda a igreja é feita por homens e os homens são imperfeitos.
Como um modesto católico acredito que os outros credos, dentro da grandeza de sua fé, perdoem o papa. Podem ter certeza que, se Cristo estivesse aqui, não separaria os homens em filhos de Deus uns e criaturas de Deus outros, pois ele viveu para pregar exatamente ao contrário. Se o catolicismo perdoou Paulo que participou do apedrejamento de Estevão, por que não perdoar o papa? Já foi dito que quem não ajunta, espalha.
NELIO ROBERTO DOS REIS é doutor em Ciências pelo INPA e professor da Universidade Estadual de Londrina
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