Deixar-se amar

Dom Orlando Brandes
  A experiência mais intensa e profunda que podemos fazer é saber que somos amados. A pessoa amada é centrada, alegre, criativa e devolve o amor aos outros. Por outro lado, a experiência mais terrível e até diabólica é a rejeição, portanto, não ser amado. As pessoas não amadas são agressivas, depressivas, desconfiadas, possessivas, inseguras, doentias. São vítimas do desamor.
  O amor de Deus é uma realidade, uma solução e um remédio que está à disposição de todos. O amor pertence à nossa natureza. Por isso, o amor dá sentido e plenitude à vida. Tudo é pesado onde não há amor, até um grão de areia. É o amor que suporta os defeitos alheios, responde às grosserias com a gentileza, faz trabalhos voluntários, compreende as limitações alheias, etc., pois o amor tende à união. Onde há amor, o relacionamento humano é feito de respeito e reverência.
  O mundo precisa ser sensibilizado e curado pela beleza e a riqueza do amor de Deus. As criaturas são carícias do amor do Pai e o sofrimento é visita amorosa de Deus pois é uma escola de amadurecimento. Deus ama primeiro, ama gratuitamente, seu amor é sem limites, é incondicional. Transborda em toda a terra seu amor. Ele nos cerca de carinho e proteção.
  É preciso deixar-se amar, crer no amor. Não podemos viver num ‘‘ateísmo afetivo’’ resistindo ao amor de Deus. Quem se deixa amar, torna-se amável, recupera a capacidade de amar e percebe a necessidade de perdoar os outros e agradecer a Deus. Começamos a olhar com os olhos de Deus e descobrimos que somos a alegria de Deus. Porque o amor de Deus sempre dá chance para quem erra, espera com paciência a decisão humana, conduz providencialmente a história de nossas vidas. Deus vive pensando em nós, dizendo nosso nome e sofrendo conosco. Ele é nosso Cirineu, o carregador de nossos fardos. O amor é nossa identidade. As coisas são sacramentos do amor, pois são criaturas de Deus que é amor. Ele sempre nos recria, refaz, restaura, recupera, regenera. Deus é uteríssimo, não aborta ninguém. Nossa verdade fundante é: somos amados por Deus e nada muda seu amor por nós. A fé nos faz descobrir a amabilidade de Deus. ‘‘Tenho pena de quem não conhece ou não aceita o amor de Deus’’ (S. Tereza). Quem se descobre amado, muda, torna-se fiel. Só os amados mudam.
  O amor de Deus transforma erros em bênçãos, desgraças em graças, desencontros em encontros, feridas e fraquezas em ciência e santidade. O mais bonito é que Deus nos ama como somos para que sejamos melhores. Ele nos ama mesmo quando o rejeitamos. Sua misericórdia desce a um nível mais profundo que a miséria humana. Só há uma saída: deixar-se amar.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina


Impostos e juros

Antonio Delfim Netto
  A redução mais rápida da taxa Selic, que já devia ter começado há muito tempo, e o aumento da arrecadação tributária, oferecem ao governo uma excelente oportunidade para a alavancagem dos investimentos públicos. Não é mais o momento de se discutir com a oposição se a carga tributária brasileira é ou não a maior do mundo, porque ela cresceu mesmo e é a mais elevada dentre os países de renda semelhante à nossa, algo em torno de 10 mil dólares per capita. É fato que a alta mais violenta se deu durante os dois mandatos do governo FHC, quando a carga dos impostos passou de 24% do PIB em 1994 para algo como 34% no início do atual governo e continuou subindo até os 37% atuais. Como o Produto está melhorando um pouco mais este ano, devendo alcançar 5% de crescimento, a probabilidade é que a carga tributária ainda cresça, mesmo que não haja um aumento de alíquotas. Existe uma relação entre os impostos e o PIB, de modo que quando este cresce 1% em termos reais, a arrecadação tende a aumentar 1.1% ou algo mais em condições normais.
  O que importa é que o governo tem condições de aproveitar as duas circunstâncias: a taxa de juros está caindo (até por efeito da gravidade) o que melhora a relação dívida/PIB e a arrecadação de impostos sobe em função do crescimento da economia, de modo que é o melhor momento para começar a conter as despesas de custeio (sem maiores sacrifícios), e acelerar os investimentos públicos. Como o investimento público tem uma externalidade muito forte com relação aos investimentos privados, aumenta a rapidez do crescimento de toda a economia, aumentando a arrecadação. Há, portanto, condições muito interessantes para reduzir simultaneamente a relação dívida/PIB e a carga tributária bruta. A combinação dessas duas coisas possibilitará reduzir dramaticamente a taxa de juro real .
  Essa redução das taxas de juros já podia ter começado há mais tempo se o Banco Central não tivesse sido seduzido pelo sistema financeiro com a idéia que o Brasil não podia crescer mais do que 3,5% sem o disparo da inflação. Com isso a Selic foi mantida nas alturas e se retardou o crescimento econômico. Agora a economia está crescendo praticamente 5%, o que fez desaparecer as hipóteses levantadas pelo Copom. Estão calculando que a taxa Selic chegue ao final do ano em 10.75% , estimando um juro real entre 6% e 7%, mas se a inflação ficar entre 3% ou 3,5%, como parece, a taxa de juro real estará acima de 7%.
  O que se discute nesse momento, porém, é um tanto irrelevante, diante do fato que o juro real para os papéis brasileiros de mais longo prazo é de 6%, o que é uma taxa extremamente alta. É esse juro que dá o horizonte para os investimentos que, em última análise, responderão pelo ritmo do crescimento brasileiro para os próximos anos. É fundamental, portanto, reduzi-la e isso só pode ser feito na medida em que se comece a conter a elevação da carga tributária e se reduza mais rapidamente a relação dívida/PIB. As condições para melhorar os investimentos públicos existem e com sua expansão aumentar a velocidade dos projetos do PAC. Sua implementação só depende da compreensão do governo para o fato que é preciso liberar para o setor produtivo os recursos que hoje são consumidos no custeio da máquina estatal.
ANTONIO DELFIM NETTO é professor emérito da FEA/USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e ex-deputado federal por São Paulo


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