Tragédia anunciada

Manuel Joaquim R. dos Santos
  Quantas vítimas mais teremos que ‘‘oferecer’’ ao senhor deus da insensatez, do descaso, da corrupção e da omissão? Desde o trágico acidente da GOL que, infelizmente, esperávamos algo semelhante ao de terça-feira. O apagao aéreo, a precipitação política de inaugurar algo incompleto e o ‘‘faz-de-conta’’ de que tudo está bem causou mais uma tragédia nitidamente anunciada. Este é o país dos paradoxos que gera mortes que Deus não quer. Um país que teima em crescer, um país que ‘‘se mata’’ para ganhar medalhas (à custa muitas vezes de esforços individuais) e que por outro lado continua matando de muitíssimas maneiras originando cortejos fúnebres de seus filhos que dele deveriam ter proteção.
  Num momento de completa desclassificação do Congresso Nacional, de frases infelizes e ultrajantes de ministra que manda ‘‘relaxar’’, somos abalroados com mais uma dor de tamanha proporção. Uma realidade é tão proporcional à outra que chega a nos impressionar pelo ‘‘rigor matemático’’ com que acontece. Enquanto uns conclamam ‘‘entidades secretas do além’’ para ‘‘purificar’’ o Senado, dezenas de brasileiros morrem em locais esperados e circunstâncias previstas. O Brasil não pode ser um país sério, na verdade. E digo isto com todo o amor que tenho a esta nação e que escolhi para viver. ‘‘Nossa terra não é onde nascemos, mas a que escolhemos para morrer’’ diria o poeta.
  A tolerância é uma virtude. Nós somos tolerantes - até demais! O somos com o erro dos que elegemos (porque a culpa também recai em parte sobre nós, eleitores) e acabamos nos conformando com tudo que vai acontecendo. Outras vezes me perguntam por que ‘‘Deus permite isto ou aquilo’’. Ora, o Deus da Bíblia, que eu conheço e amo é o Deus da vida e não da morte. Os responsáveis por este país estão longe de ter esse compromisso com a vida dos cidadãos. Triste da nação que só lhe resta orar! Orar não deve nem pode ser o último recurso. Bom fazê-lo inclusive para louvar e agradecer. Mas neste lado do mundo, nestes últimos meses (quando ficamos sabendo o que acontece nos céus brasileiros) parece que só nos restava rezar. O previsível, o que nos amedrontava, aconteceu. E muitos insensatos devem estar agora falando de acaso ou atribuindo a tragédia a outros entes.
  É impossível continuarmos pacatamente a nossa vida esperando que a dor ‘‘aguardada’’ nos fira e nos revolte sobremaneira. Um povo omisso, alienado, origina governantes cínicos que se escondem na parca memória dos eleitores e na certeza da impunidade. Em alguns países dois dias depois do acidente metade dos responsáveis da área, estaria demitida ou algo pior. Por aqui, lamento informar que pouca coisa poderemos esperar de fato e, pelo passado próximo, ficaremos esperando os relatórios sobre as causas do acidente e a compensação aos familiares, se é que isso ajuda em alguma coisa. Que Deus console os que choram seus entes queridos. A única certeza que temos.
MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS é padre na arquidiocese de Londrina


De ser religioso e ser cristão

Walmor Macarini
  Religião deveria ter o real sentido de religação, que é a consciência da reconexão com a origem primeira do ser. Em outras palavras, a volta a Deus, se assim entendemos a plenitude da luz de onde somos originários. Mas o termo religião passou a ter o significado de corporação. Porque as pessoas dizem pertencer a esta ou aquela religião. Ser religioso não é propriamente um estado de espiritualidade. E cristão é o nominativo de quem segue uma religião que tem Jesus como patrono, mas isto nem sempre significa um estado de plena comunhão com o poder crístico que jaz em cada ser.
  Há que distingüir entre Jesus, seu Espírito e o Cristo. O corpo físico de Jesus se extingüiu com a morte; seu Espírito, está nas elevadas esferas e ainda servindo à causa de sua missão com a Terra; e o Cristo é preexistente, e assim como estava em Jesus e estivera em avatares anteriores, entre eles Moisés e o primeiro Buda, está e sempre esteve em cada um de nós. (Avatares são seres de grande luz que de tempos em tempos descem à Terra, para elevadas missões. Jesus, nessa escala, era o 49º avatar).
  Cristo é o Santo Espírito, a que Jesus se referia quando dizia ‘‘não eu mas o Pai em mim’’. Pai é uma forma hebraica de tratar algo superior – como exemplo o pai carnal, o patriarca Abraão, Deus. Pai, para Jesus, era o poder divino, presente nele e em todos os seres. (‘‘O Reino está dentro de vós’’, ele dizia). De qualquer modo, cristãos ou não, todos somos ungidos da chama crística. Em Jesus o Cristo se manifestava de forma intensa. Jesus o reconhecia muito presente em si, até porque era um ser que já procedia das elevadas esferas. Sua jornada terrena havia sido preparada nas mais altas hieraquias e não foi um acontecimento aleatório.
  Também há que entender-se o uso generalizado de criador e criatura. Porque em verdade essa dualidade e essa separação não existem. Quando Deus (ou outra forma e denominação que cada qual queira dar-lhe) ‘‘gerou-se’’ (falta uma palavra adequada para definir esse mistério), estava gerando tudo em si mesmo. Deus, sem todas as coisas, não seria. Imaginemos por comparação: uma árvore não cria suas folhas, suas flores e frutos, porque esses componentes já se encontram nela desde a semente. É só aguardar que desabrochem, porque preexistentes. Assim Deus. Ao criar-se, tudo já estava nele. Aí incluídos os seres do Universo.
  Dizemos de nós que somos centelhas de Deus e isto é a realidade, não significando separação mas ao contrário, a unicidade. Uma centelha não emana de um campo de força que não lhe seja inerente. A condição crística (diferente do simples qualificativo de ser cristão) é cada um saber-se dotado desse dom divino que é o de ter, no santuário individual, a presença do Cristo interno, que é o sopro da vida e a conexão e o estado de comunhão permanente com Deus.
WALMOR MACARINI é jornalista na FOLHA DE LONDRINA

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