Reflexos da modernidade na religião

Dom Orlando Brandes
  A modernidade é feita de: crença na razão, democracia, tecnologia, subjetividade, felicidade, lucro, consumo. A religião sofre o impacto da modernidade antes de tudo pela privatização, isto é, a religião passa para o âmbito do privado, do subjetivo, do intimismo. O mundo moderno caracterizou-se pelo ateísmo, secularismo e indiferentismo, gerando um ‘‘subjetivismo religioso’’. As pessoas buscam na religião a saúde, a paz, as consolações pessoais. Fazem da religião uma terapia. Isso prejudica a dimensão comunitária e social da fé. Buscando a própria satisfação, as pessoas não se envolvem com os compromissos libertadores da fé e resistem ao ‘‘cristianismo social’’ que une fé e política, oração e libertação, mística e pastoral. Desvaloriza-se a dimensão comunitária da religião. O amor ao próximo fica prejudicado. Na Igreja batemos no peito, na rua batemos nos outros.
  Outro reflexo da modernidade na religião é a perda do ‘‘universo simbólico cristão’’, isto é, as pessoas não sabem mais os dez mandamentos, às vezes nem o sinal da cruz, o credo, o Pai-nosso. Nossas crianças não aprendem o alfabeto religioso e são doutrinadas pela babá da família, a televisão, que ensina a idolatria do mercado. Nossas crianças deviam ser religiosas, mas na verdade são consumistas. Perdendo o ‘‘universo simbólico cristão’’, o homem moderno encontra-se perplexo e debilitado, verdadeira vítima do mercado consumista e refém do neoliberalismo.
  A modernidade dificulta aos católicos viver o que ensina o Magistério da Igreja. Há um desafeto pelo magistério e hierarquia. Além da dificuldade da linguagem eclesial, há a dificuldade da ética especialmente no campo da sexualidade. Confunde-se Igreja com democracia ou com monarquia. Esquece-se que a Igreja é antes de tudo comunhão. Apela-se para a tolerância e o direito de discordância na Igreja. O católico está impregnado pelo pluralismo cultural que o envolve e, muitas vezes, desconhece os avanços da teologia e do magistério, fatores estes que dificultam a compreensão e o seguimento da doutrina da Igreja.
  Por fim, a modernidade facilita uma ‘‘religiosidade não eclesial’’. A Igreja é vista como instituição, como empresa que batiza, faz casamentos, enterros e cobra dízimos. São poucos os que descobrem a dimensão comunitária e eclesial da religião, que vibram pela comunidade. As pessoas querem Jesus, mas não querem a Igreja. Na verdade não existe Jesus sem Igreja. O subjetivismo, o pluralismo e o sincretismo religioso de nossos dias prejudicam a vivência comunitária e eclesial da fé. Esquecemos que somos adoradores da Trindade, de Deus-comunidade. O católico sem a comunidade é mais muçulmano que cristão. Amar Cristo e desvalorizar a Igreja é uma patologia.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina


Unidade na diversidade

Edson de Oliveira Filho
  O Século XXI chega para desmistificar as utopias da infância de muitos de nós, revelando o apogeu das diversas conquistas tecnológicas, aparentando trazer, na já denominada ‘‘pós-modernidade’’, uma melhor qualidade de vida repleta de paz. Em meio a uma eleição tumultuada, no dia 20 de janeiro de 2001, toma posse o novo presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, sonhando com a tão almejada paz. Entretanto, na manhã de 11 de setembro do mesmo ano, o mundo amanhece estarrecido com a queda do World Trade Center, fato considerado como um divisor de águas na história atual, seguido de guerras e guerras.
  Líderes mundiais externam suas preocupações, sendo endossados pelos diversos segmentos religiosos mais ponderados. Dentre estes, o Papa João Paulo lI, líder maior dos católicos, como expressivo estadista, dá sua importante contribuição em sua busca pela paz, coerente com sua trajetória.
  Na manhã da última terça-feira, os jornais do mundo inteiro trazem na íntegra a declaração, para muitos, no mínimo desconfortante, por parte do atual líder dos católicos, Bento XVI, afirmando que a Igreja de Cristo é ‘‘realmente e unicamente na Igreja Católica’’ e que apenas a Igreja Católica dispõe de todos os meios de salvação, classificando, especialmente as Igrejas Evangélicas, como simples ‘‘comunidades eclesiásticas ou eclesiais’’ pela ‘‘Dominus lesus’’ (‘‘A luz das nações’’), do Concílio Vaticano 2º (1962-1965).
  Tais afirmativas são, no mínimo, infelizes. Num momento em que a busca pelo diálogo entre diversos segmentos religiosos se intensificam no intuito de contribuir pela paz, tais declarações tendem a dificultar esse esforço. A liberdade de pensamento se depara com um estarrecedor retrocesso.
  A Igreja Católica, como qualquer segmento religioso, tem toda a liberdade de afirmar e reafirmar suas convicções no seu âmbito. Ao extrapolá-lo, assume uma postura soberba e indigesta. A única fonte concreta e palpável da verdade do cristianismo é a Bíblia Sagrada. Na Igreja Católica, em sua cadeia de autoridade, ocupa o primeiro lugar, considerada por eles, a ‘‘infalibilidade papal’’, em segundo lugar vem a ‘‘tradição católica’’ e somente em terceiro lugar aparece a ‘‘Bíblia Sagrada’’.
  Em momento algum a Bíblia nos ensina que Jesus teria instituído uma organização eclesiástica. Ele criou sim, a partir de sua obra vicária no Calvário, a Igreja, Corpo vivo de Cristo, mística e invisível, sendo Ele mesmo, ressuscitado e, portanto vivo, o Cabeça da verdadeira Igreja, estando a mesma acima de qualquer instituição humana e, portanto, inabraçável, impossível de ser contida. A salvação acontece tão-somente pela aplicação e obediência aos princípios ensinados pelo próprio Jesus e seus Apóstolos, encontrados unicamente nas Sagradas Escrituras.
  Como cristão aprendemos com o Cristo vivo, a sermos promotores da paz, e, portanto, precisamos reafirmar sempre o respeito por todos e a unidade na diversidade, como expressou tão sabiamente Agostinho de Hipona: ‘‘Unidade no essencial, liberdade no secundário e em tudo caridade’’.
EDSON DE OLIVEIRA FILHO é pastor da Igreja Missionária Peniel e ex-presidente do Conselho de Pastores de Londrina


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