ESPAÇO ABERTO
Por uma espiritualidade ecológica
Frei Ildo Perondi
Diante da grave crise ecológica que estamos vivendo, surgem soluções de todos os tipos. Já existem até aqueles que querem lucrar ou promover-se com a crise. Produtos e prestação de serviços ecológicos certamente serão bem-vindos e necessários, porém não é isso que vai nos ajudar a superar a crise.
A mentalidade consumista nos ensinou a ver tudo como mercadoria, como objeto de consumo e como fonte de lucro. O ser humano vê tudo o que a natureza nos dá com o olhar predador. Quer tornar-se dono, possuir e tirar benefícios e vantagens individuais, como se fosse o dono do mundo e fazer o que bem quer com as demais espécies.
Se quisermos salvar a Mãe Terra, que está doente, muitas ações em todos os níveis devem ser feitas. Porém, torna-se necessária também uma espiritualidade da ecologia, do cuidado e do bem-querer com a natureza. E para isso as religiões têm uma contribuição fundamental a ser dada, pois a função das religiões é justamente re-ligar, fazer a ponte, estabelecer a relação.
Diante de uma criatura é preciso antes de tudo ver a gratuidade, a beleza e a generosidade. Há um Criador que fez tudo e não cobrou nada por isso, não lucrou nada. Fez por amor e de graça. Diante da criatura devemos olhar e ver a beleza, a bondade. Foi assim que o Senhor fez quando criou o mundo e viu que tudo era muito bom (Gn 1,31).
Se nós, seres humanos, conseguimos desenvolver melhor a nossa inteligência é justamente maior a nossa responsabilidade. Descobrir que a Criação é um todo e que tudo está interligado. Perceber que quando destruímos uma espécie viva estamos destruindo a nossa relação com a criatura e com toda a criação, porque somos parte de um todo. Do contrário, a própria Mãe Terra nos expulsará daqui e as espécies sobreviventes viverão muito melhor sem nós.
Os seres humanos se tornaram tão agressores da natureza a tal ponto que os demais seres vivos têm medo de nós. Perdemos também o respeito pela vida e por isso matamos tudo o que nos atrapalha ou contraria. Basta ver a insanidade no uso dos agrotóxicos na agricultura! Mas também a nossa relação com o semelhante é assim. Matamos nossos irmãos que são diferentes e que passam a se tornar um ameaça. Perdemos o respeito pelo dom e pelo mistério da vida.
É necessária sim uma espiritualidade da ecologia. Uma espiritualidade integradora que a tradição judaica qualifica como Shalom, isto é, a visão da integridade, da plenitude e da harmonia. Ou como São Francisco de Assis que via em tudo a fraternidade universal. Perceber a beleza e a bondade de cada espécie criada; sentir que devemos cuidar, criar harmonia, dar e receber.
Há muito o que fazer se quisermos salvar a vida na terra e o próprio planeta. Mas de nada adiantará se antes não mudarmos a nós mesmos e a nossa relação com a natureza. A criação que é cheia de vida, de bondade e de beleza, espera de nós seres humanos um novo coração, um novo olhar, uma nova atitude. Quem não consegue esta relação com as criaturas, como poderá tê-la com o seu Criador?
ILDO PERONDI é frei Capuchinho e professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC-PR), campus Londrina
Por uma discussão mais ampla sobre anorexia
Daniel Polimeni Maireno
Li a entrevista com a psicanalista Cybelle Weinberg, de São Paulo, publicada na edição da última sexta-feira da FOLHA (Anoréxica busca ideal valorizado pela sociedade, diz especialista, Folha da Sexta, pág. 7). A psicanalista teve o mérito de fazer avançar a reflexão para além do debate sobre o mundo da moda e o papel da mídia. Comento aqui dois pontos importantes da entrevista por entendê-los fundamentais para uma discussão mais ampla sobre o tema.
Ao apontar a relação da anorexia com a sexualidade, a negação do feminino e dificuldade de ingressar no mundo adulto, Weinberg deixou subentendido que o mundo da moda é apenas parte do problema, sua face sociocultural. Nossa cultura, que de fato valoriza corpos magros, cumpre mais o papel de mascarar a doença que propriamente desenvolvê-la. Desta forma, Weinberg indica a necessidade de se contabilizar, além disso, a face subjetiva - que a meu ver vem sendo tratada como secundária nos debates sobre a anorexia. Entendo que a subjetividade, mais que o mundo da moda, tem um papel primordial no desenvolvimento da anorexia.
O tratamento foi outro ponto discutido na entrevista. Weinberg chamou a atenção para a dificuldade das garotas em reconhecer ou assumir que há nelas algo que não vai bem, que estão doentes. Concordo que este é um problema grave, mas questiono-me o quanto isso não se deve também ao fato dos debates sobre a anorexia privilegiarem a moda e a mídia, muitas vezes de forma assaz agressiva, em vez de sublinharem o papel determinante da subjetividade: ao pontuar em demasia o mundo da moda, o mais importante vem sendo deixado de lado. Não atentar para este algo subjetivo inerente à anorexia é dificultar seu diagnóstico e, conseqüentemente, um tratamento adequado.
O debate sobre o mundo da moda e os ideais sociais tem sim seu valor e deve, portanto, ser mantido. No entanto, a mídia deveria proporcionar à sociedade não apenas a reflexão sobre os problemas advindos daí, mas também o esclarecimento de que existem tratamentos para este e outros distúrbios alimentares que encontram suas raízes fundamentalmente no mundo subjetivo. É o que foi feito em relação ao alcoolismo, por exemplo - tanto que já se tornou comum a noção de que existe cura para o alcoólatra e que ela começa pela assunção de que há algo subjetivamente que não vai bem. Um grande passo será dado quando um movimento análogo ao que ocorreu no campo do alcoolismo ocorrer também em relação à anorexia.
DANIEL POLIMENI MAIRENO é psicólogo em Cambé
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