ESPAÇO ABERTO
Pacto social de combate à violência
Francisca Vergínio Soares
O protesto Chega de luto, ocorrido em Londrina no último dia 5 mobilizando membros de 40 entidades e centenas de participantes, não clamou por um basta somente nas mortes e homicídios. Protestou também contra os roubos, furtos, arrombamentos, seqüestros-relâmpago, agressões, ameaças e outros crimes cometidos por motivos torpes que se tornaram parte do cotidiano dos moradores da cidade e região. O Fórum de Educação para Cultura de Paz, ocorrido segunda-feira na Câmara Municipal de Londrina, teve o mesmo intuito: mobilizar a população contra a cultura da violência que nos últimos tempos tem normatizado as relações sociais e banalizado a vida e a morte em todas as classes, grupos étnicos, idades, sexo e raça.
O objetivo do evento foi apresentar experiências locais envolvendo o novo conceito de educação e apresentação de um projeto de lei propondo a criação do Conselho Municipal de Cultura de Paz, a exemplo de cidades como Curitiba e Diadema (SP). Segundo os organizadores, é preciso falarmos não apenas em combate à violência, mas falarmos de paz como forma de alcançar a paz. Não é apenas pedindo polícia e armas que vamos ter paz, mas sim uma mudança de comportamento. Mais de 40 entidades, entre elas igrejas, universidades, associações e serviços públicos já aderiram ao movimento em Londrina.
Essa iniciativa londrinense é de suma importância porque é a sociedade civil sendo chamada para reelaborar um novo pacto social de combate à violência e de disseminação de valores como solidariedade, fraternidade, generosidade, respeito ao próximo e justiça social. No rastro da exacerbação da violência há unanimidade: É preciso fazer alguma coisa para freá-la. A solução é coletiva, considerando que segurança pública não é apenas um problema técnico, mas também político, não há uma solução pronta, testada e já consensual.
Enfim, no II Congresso Brasileiro de Direitos Humanos, Sociedade e Estado, realizado em Natal (RN), no último mês, o antropólogo e ex-secretário de segurança pública do Rio de Janeiro Luiz Eduardo Soares, falando sobre a construção da ética para o enfrentamento da violência, lembrou que precisamos de um pacto republicano em defesa da vida. As vítimas da violência, afirmou, são na grande maioria os jovens, negros, pobres e de faixa etária entre 15 e 24 anos. Digo isso com vergonha, mas há um genocídio que mata nossos jovens. Esse perfil demográfico só é encontrado em países em guerra, concluiu. Ele responsabilizou ainda o Estado pela violência, considerado-o cúmplice nos crimes, atropelando os Direitos Humanos e a própria legalidade.
Esse novo pacto, passa essencialmente pela organização da sociedade civil e Londrina através de várias entidades tem se esforçado, mas é preciso que haja mais envolvimento da população nas manifestações.
FRANCISCA VERGÍNIO SOARES é socióloga, docente e pesquisadora e coordenadora do Observatório Social Londrinense de Estudos da Violência, Conflito e Segurança Pública (www.obsocil.com.br)
O poder da voz invisível
Cristina Côrtes
Na última vinda do educador Rubem Alves a Londrina para palestra e lançamento de livro, o escritor deu entrevista na Rádio Universidade FM que foi veiculada dias depois. Uma ouvinte comentou que se emocionou muito mais com a entrevista do que na palestra. Talvez a música da edição, as pausas, o silêncio, o ambiente e momento da escuta, ou tudo isso junto.
Este é apenas um exemplo da capacidade que o rádio tem de se dirigir a cada ouvinte em particular e levar experiências diferentes de percepção da informação sonora. Para alguns teóricos da comunicação, a ausência da imagem na linguagem radiofônica possibilita que cada ouvinte construa sua própria percepção, atingindo níveis de abstração como aqueles alcançados pela música. Do ponto de vista da educação, esta característica se revela um valioso instrumento.
O rádio surgiu com vocação para a educação, entrou numa fase de entretenimento, mas pode agora na era da internet voltar a explorar novas possibilidades como um poderoso aliado na educação. A Rádio Universidade FM, emissora pública e educativa da Universidade Estadual de Londrina está num processo de construção de metodologia para interagir com estudantes das escolas públicas e particulares. Nossa vontade é explorar o potencial de abstração das linguagens sonoras e encontrar formas de expressão adequadas às características deste veículo para traduzir a realidade exterior. Temos realizado algumas experiências em escolas onde mais aprendemos do que ensinamos.
As características do rádio facilitam o contato. O tom coloquial e a simplicidade do texto radiofônico são bem recebidos no trabalho com estudantes. Fazer rádio pode parecer uma brincadeira que ajuda a expressar pensamentos e situações complexas de uma forma simples que exigirá um esforço extraordinário de abstração. Os resultados destas experiências mostram que a comunicação pelo rádio é uma das formas mais ágeis e eficientes de partilhar e expressar que a gente vive.
Num mundo globalizado e com um enorme volume de informação como o nosso, as pessoas se vêem jogadas ao exercício da singularidade e o rádio é um meio fantástico para captá-la. A voz invisível tem o poder de nos levar a criar e recriar através da imaginação visual do ouvinte e esta é uma grande possibilidade a serviço da educação. Dias atrás ouvi numa entrevista uma definição do educador que gostei muito: são profissionais da incompletude, já que no processo educativo há sempre algo que resta, algo impossível de substituir, algo que escapa. Como emissora educativa podemos colaborar neste processo, que nos instiga e desafia.
CRISTINA CÔRTES é jornalista em Londrina e diretora da Rádio Universidade FM
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