ESPAÇO ABERTO
Em defesa da crise?
Carlos Eduardo Bobroff da Rocha
As mesmas cenas se repetem: um colega é flagrado em um ato antiético, e os outros o defendem. A fidelidade move esta atitude de união, apesar de a finalidade ser, na maioria das vezes, ocultar as falhas do envolvido e, conseqüentemente, da própria corporação (política, social, judiciária, trabalhista, agrária, empresarial, policial).
Para que uma corporação sobreviva é necessário que suas bases sejam sólidas. No caso, elas são os próprios membros que a compõem. No entanto, é difícil compreender como é possível a existência de mecanismos que, geralmente, concedem privilégios aos colegas envolvidos em escândalos (privilégios como a liberdade provisória e o foro privilegiado).
Talvez, a crença de que a sobrevivência da corporação é fundamental para evitar o caos político-social seja um dos motivos que expliquem a perpetuação da impunidade no país, em decorrência desta prática. Afinal, uma instituição em crise poderia permitir a ascensão de instituições paralelas que procurariam substituir a que fora desmascarada. Por fim, esta nova corporação poderia corrigir as falhas vigentes ou acabar sendo conivente com a corrupção já instalada. De qualquer modo, para quem já se encontra no poder é um risco permitir o fortalecimento de novas lideranças cujos atos poderiam resultar em conseqüências imprevisíveis, e até mesmo, incontroláveis.
Outro motivo que poderia explicar essa necessidade de sobrevivência das organizações seria o embate entre as fidelidades ideológica e corporativista. A fidelidade ideológica é uma característica que parte do próprio indivíduo, após este ter tido contato com sua realidade, com suas experiências, e com outras ideologias. Deste contato, a pessoa molda sua própria ideologia, sendo que ela acaba tendo uma certa identidade com alguma visão de mundo que determinado autor ou grupo difundira anteriormente. Entretanto, a ideologia de cada um possui diferenças em relação ao que rege os objetivos da corporação da qual o membro faz parte. Uma coisa é já crer em algo (a ideologia), e a outra é procurar crer em algo, esta segundo as necessidades e a realidade corporativista. Assim, em alguns casos, o indivíduo precisa adaptar suas crenças, ou mesmo radicalmente, abandoná-las. Seria uma falta de fidelidade consigo mesmo? Poderia ser, ou seria na realidade a idéia de que a corporação é o instrumento possível para agir em um meio cujas características podem não ser exatamente propícias à prática ideológica preconizada teoricamente.
Estes poderiam ser os motivos, mas há um fato fundamental: a instituição sobreviverá após vários escândalos, cassações, renúncias, privilégios, aposentadorias, afastamentos, favorecimentos? Sua imagem não terá sido arranhada (o que se poderia traduzir em morte moral da corporação)? Sua credibilidade e sua autoridade já não deixarão de ser as mesmas? Percebe-se que tudo isso é o reflexo da própria crise das instituições, e a falta de autocrítica por parte de alguns de seus membros (principalmente dos mais influentes) é a responsável por negar o caos político-social que pode surgir futuramente.
CARLOS EDUARDO BOBROFF DA ROCHA é estudante de Medicina na Universidade Estadual de Londrina
Educação política
Françoise Sartor Flores
A descrença da população brasileira com a política tem afastado muito a efetiva prática da cidadania, ou seja, a participação do povo no governo. É necessário que seja erguida a voz de uma sociedade democrática e lutar contra políticos corruptos que estão no poder para nos representar. É onde muitos se esquecem.
A base da frágil participação política do povo está na precariedade da educação brasileira, contribuindo para que cidadãos desinformados, e até mesmo ignorantes, elejam candidatos demagogos. Em geral, a credibilidade nos políticos acaba assim que eles são eleitos. Portanto, além de nossa educação precária nos falta um mínimo de educação política.
Com a implantação de uma educação política desde cedo, o cidadão poderá expressar legitimamente sua vontade através do voto consciente, sendo que este é arma poderosa para cortar o liame entre a crise política e outras crises que a seguem. Caso contrário, o ciclo se perpetua: falta de conhecimento sobre o funcionamento do sistema político, candidatos demagogos e corruptos, dilapidação do dinheiro público, etc., exemplificam as causas pelas quais as garantias constitucionais não são atendidas.
A opção pelo voto facultativo não irá apagar a crise e, tampouco, afastar os políticos desonestos de ocuparem cargos eletivos no Estado. O problema maior reside no cidadão, ou melhor, na ausência de cidadania política. O indivíduo com escassa cultura política tende afastar-se das urnas ou - em nome de promessas de campanha - exercer apenas o direito de votar. Assim, assina um cheque em branco ao político inescrupuloso que fez promessas absurdas durante a campanha eleitoral. Faltará aquele que está desiludido com os governantes, mas sua barriga não está vazia.
Com a educação política pluralista o cidadão fará jus ao seu status, pois terá acesso a informações e questionamentos, conhecerá os direitos constitucionais que permitem sua participação na sociedade, como por exemplo a iniciativa popular (na elaboração de leis) e a ação popular (para evitar abusos dos parlamentares eleitos).
Uma educação cidadã que possibilita entender como funciona a máquina do Estado e as ações políticas do governo contribui para aprimorar o processo eleitoral e elevar a consciência política e moral do povo.
FRANÇOISE SARTOR FLORES é estudante de Direito na Pontifícia Universidade Católica (PUC), campus Londrina
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