Pura encenação

Como otimista incorrigível ainda tenho esperança de acreditar em pelo menos uma das instituições encarregadas de praticar justiça neste país, só que não sei até quando. Pois tenho visto que duas instituições, a Polícia Federal e o Ministério Público, estão tendo um trabalho enorme para descobrir, provar e indiciar os criminosos das mais diversas esferas sociais e, no entanto, após tremenda movimentação, mesmo com todas as confirmações possíveis, os mais perigosos saem ilesos.
Parece-me coisa orquestrada. O governo precisa dar demonstração de que está agindo contra a corrupção para fazer uma cortina de fumaça que não permita ver a nascente deste imenso rio de lama. Daí toda esta pouca vergonha girando em torno do nariz do nosso primeiro mandatário que ''jura de pé junto'' que é apenas ''o marido traído'', isto é, o último a saber.
A mudança tem de ser radical no que diz respeito à verdadeira aplicação da lei pois, como disse Cesare Boniseana Becária, criminologista italiano que morreu em 1784 : ''Um dos maiores freios dos delitos não é a crueldade da pena, mas a sua infalibilidade''.
Como esta verdade não é aplicada na nossa terra, soou como um fio de esperança o desabafo de um juiz de Direito que se dizia ''envergonhado de ser magistrado num país onde as leis não são cumpridas''. Garanto que ele está sendo motivo de severas críticas pelos seus pares por tornar público aquilo que todos estamos cansados de saber.
O grande festival de Teatro de Londrina, que tanto bem faz à cidade e à região se encerrou no mês passado, mas as encenações em Brasília e em quase todos os pontos do país nunca param, só que com uma diferença: os atores riem da platéia.
Por isto que Charles Secondat Montesquieu, escritor francês (1689-1755) afirmou: ''Quando vou a um país, não examino se há boas leis, mas se as leis que lá existem são executadas, pois boas leis há por toda parte''.
Até quando, Senhor? Um outro otimista diria: vamos aguardar, o amanhã pode nos trazer boas notícias. Ocorre que ''Quem empilha um monte de amanhãs, depois só encontra um monte de ontens vazios'', decretou Meredith Wilson.

GERSON ARAÚJO é capelão do Hospital Evangélico e pastor da 3 Igreja Presbiteriana Independente de Londrina


Cultura e valor em negócios

A cultura de um povo exerce enorme influência sobre os negócios. Esta pode ser a porta de acesso para grandes oportunidades. Para entendermos isso, talvez devêssemos começar verificando o conceito de duas palavras bastante usadas em nosso dia-a-dia. São elas: antigo e velho. O dicionário Houaiss tem coisas importantes a revelar sobre elas. Apesar do uso como sinônimas elas não são. ‘‘Velho’’ significa: que se deteriorou ou gastou pelo uso, desatualizado, obsoleto. ‘‘Antigo’’ significa: algo que vem de longa data e que se conserva. Se um relógio é velho, ele perdeu o seu valor. Se ele for antigo, foi conservado e, hoje, está próximo de ser uma jóia.
  Em linguagem de negócios, ‘‘antigo’’ e ‘‘velho’’ só têm em comum o tempo decorrido. No entanto, o velho perdeu valor, enquanto o antigo ganhou . É o que ocorre com imóveis no Brasil e na Europa, por exemplo. Expostos ao mesmo número de anos, lá as obras se tornam antigas. Aqui, se tornam velhas. O que causa isso? A diferença cultural.
  Os europeus valorizam a arquitetura, a decoração, os detalhes e todos os fatos relacionados. Eles transformam o tempo em história e, partindo disso, usam todas as ferramentas possíveis - as mais modernas, inclusive - para divulgar sua veneração à arte. A administração pública é aliada, pois busca seus proventos. Por isso, produz materiais didáticos e informativos, aumentando o envolvimento da população. Com o tempo, a edificação é incluída em um plano de turismo e, assim, mais pessoas de outras áreas são envolvidas.
  Enquanto isso, quantas obras importantes, bem conceituadas e posicionadas viram ruínas imprestáveis no Brasil? Pois se nem nome de rua se faz questão de esclarecer a razão ou a identidade do homenageado! Será que esta mesma análise não se aplica a pessoas? Estou certo que sim. Especialmente se o foco estiver sobre carreira profissional. Como consultor, em cada empresa com que firmo parceria exige que eu esteja ‘‘em dia’’ com o mais aperfeiçoado conhecimento de gestão empresarial, vendas, recursos humanos e outras áreas.
  Quando me defronto com um jovem recém-saído de um MBA ou de uma pós-graduação, percebo que tudo o que vivi e aprendi, somado ao que estou aprendendo agora, se transforma em uma vantagem competitiva a meu favor. Seria bem diferente se eu me sentasse tranqüilo sobre uma especialidade profissional e buscasse apenas ser reconhecido como o ‘‘papa’’ do assunto, mantendo meus conhecimentos estáticos ao longo do tempo. Isso me tornaria um velho e, portanto, ultrapassado, sem valor.
  Conheci um médico que, na ocasião, tinha realizado um grande feito em sua área. Passaram 15 anos e ele é citado apenas por aquela façanha. Há um valor fantástico naquilo, ninguém nega. Mas ele se estagnou. Ele nunca mais fez nada que acrescentasse novas qualificações à carreira. O desafio de todo profissional está em se superar. Por isso, continuar estudando, se reciclando e se expondo ao novo para mudar a visão é o mínimo a ser feito.

ABRAHAM SHAPIRO é consultor em Londrina

Os artigos devem ter, no máximo, 30 linhas. Os artigos publicados não refletem, necessariamente, a opinião do jornal. [email protected].

mockup