ESPAÇO ABERTO
Religiões em alta
Dom Orlando Brandes
Vivemos uma época de explosão religiosa. O que era tido por ópio do povo (Marx) ou neurose universal (Freud) passou por todo tipo de repressão e agora, voltou com força vertiginosa. A sedução do sagrado continua atraindo as pessoas. Os estudiosos do assunto opinam que a atual irrupção do sagrado se explica por um conjunto de causas.
Em primeiro lugar, a religião é fruto da abertura natural do homem à transcendência. Mesmo que para os racionalistas a religião pertença à área do mito, do infantilismo, da superstição, do atraso, da coisa miúda, a racionalidade não conseguiu exilar o sagrado. Por outro lado, a religião é resposta às grandes perguntas sobre a morte, o sofrimento, o além, o sentido da vida. Tais respostas o racionalismo não conseguiu decifrar, pelo contrário, contribuiu para a queda das utopias sociais, provocou a crise ecológica, o desemprego, o avanço das drogas, a violência. Assim, o materialismo preparou a explosão do sagrado.
Outra causa da alta das religiões está na pós-modernidade que se caracteriza pelo desejo da experiência, das emoções, do mistério, dos sentimentos. O medo impele à busca de segurança, de afeto e as religiões oferecem estes remédios. A pós-modernidade reabilitou o reencantamento do mundo. Este fato colabora com o reaparecimento da religiosidade. Outros ainda, encontram na religião, o alívio para suas penúrias econômicas, ou seja, os pobres, os excluídos, os descartados que são os pequeninos de Jesus, Deus os escolheu para serem ricos na fé (Tiago 2,5). Os pobres sustentam as religiões.
Desponta uma nova religiosidade e novas espiritualidades, como por exemplo, o subjetivismo religioso onde a pessoa procura a religião para seus interesses e necessidades, mas não se engaja na comunidade. Daí vem o subjetivismo espiritual, no qual a pessoa busca suas consolações, curas, prosperidade. O subjetivismo religioso tem por lema: Deus sim, Igreja não. Bem entendido, a pessoa vai à Igreja para seus interesses, mas não se envolve, não participa, não trabalha pela comunidade.
Outra característica da nova religiosidade é o relativismo ético. As pessoas querem receber graças, querem curas, pedem consolações e sucesso, mas não abandonam o pecado, não mudam de vida, não se convertem. Deus deve fazer a vontade delas e preencher seus desejos, mas elas continuam não observando os mandamentos divinos. Por isso, as pessoas escolhem aquelas religiões que lhes dão consolo, mas que não exigem a prática da moralidade, nem a crítica às desmazelas sociais. Busca-se no mercado religioso a Igreja que mais convém aos interesses e necessidades pessoais. Estas Igrejas abençoam e mistificam situações injustas e desumanas. Falta-lhes o profetismo.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina
Contribuições da universidade no Mercosul
Lygia Lumina Pupatto
O processo de construção do Mercosul teve como ênfase inicial a integração comercial, com diversos acordos assinados pelos países membros que permitiram um contínuo - embora nem sempre uniforme - avanço neste campo. Porém, aprofundar esta integração implica em buscar sua intensificação no âmbito cultural e educacional. Observando o processo de integração decorrente da formação dos diversos blocos nas últimas décadas, nota-se que a construção de uma identidade comum foi essencial na constituição de grande parte deles. Neste aspecto, o desenvolvimento de iniciativas de integração das instituições ligadas à educação e à cultura mostra-se como a mais efetiva forma de construção de uma identidade comum.
Colocar o Mercosul neste caminho implica em identificar alguns fatores que facilitam e outros tantos que emperram a busca do objetivo da integração e da constituição de uma identidade comum entre os seus países membros. Assim, cabe superar o fato de que os países do Mercosul têm hoje uma relação de integração muito maior no sentido das relações norte-sul do que entre seus vizinhos. Esta é uma constatação que remonta ao próprio colonialismo e às suas continuidades, colocando-se hoje no contexto das relações desiguais, estabelecidas entre os países ricos e o restante do mundo. Em outras palavras, viabilizar o Mercosul constitui parte da tarefa maior de resistência à dominação nas formas por ela assumida contemporaneamente.
Como fatores positivos, temos a constatação de que é crescente a cooperação e integração cultural e acadêmica entre os componentes do Mercosul. Como exemplo, ficando apenas no campo acadêmico, podemos apontar a organização de eventos comuns, o desenvolvimento de projetos integrados de pesquisas, a organização de grupos e núcleos de pesquisa que têm a integração latino-americana como tema, o estabelecimento de acordos entre universidades prevendo a cooperação entre cursos de graduação e de pós-graduação, além de uma mobilidade de professores e estudantes cada vez maior. A intensificação destas iniciativas é o caminho mais eficaz de fazer avançar o processo de integração almejado.
A Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti) desenvolverá nos próximos meses um expressivo programa voltado ao Mercosul. O programa apoiará financeiramente projetos que tenham como objetivo o desenvolvimento de ações, pelas nossas universidades e faculdades públicas, que se enquadrem neste escopo. O programa abrangerá também a concessão de bolsas para professores estrangeiros visitantes e de incentivo à mobilidade de estudantes.
LYGIA LUMINA PUPATTO é secretária de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Paraná
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