ESPAÇO ABERTO
Desmonte ambiental
Antonio Delfim Netto
Quando as mega-usinas de Itaipu, no rio Paraná e de Tucuruí, no rio Tocantins estavam em fase de projeto nos escritórios de engenharia e nos departamentos competentes do Ministério de Minas e Energia, nos anos 60 e 70 do século passado, outras 25 hidrelétricas eram construídas no Brasil, simultaneamente. Algumas sob supervisão do governo federal, outras pelos governos estaduais, nem todas entregues nos prazos inicialmente previstos mas todas concluídas e produzindo a energia que manteve o Brasil aceso até o final do século.
Da segunda metade da década de oitenta em diante, pouco se investiu no setor hidrelétrico. Nenhum projeto importante foi iniciado. As equipes de planejamento estratégico dos departamentos dos governos foram sendo desmontadas e se dispersavam os quadros técnicos no setor privado de construção pesada. No Brasil, esta era a área de atividade onde se reuniram ao longo dos anos as melhores equipes de engenharia e especialistas de alto nível na construção de barragens, reconhecidas universalmente. Nas grandes obras que financiava em todos os continentes, o Banco Mundial habitualmente contratava os nossos barrageiros como consultores.
Essas questões são hoje pouco discutidas, parecem perdidas no tempo, enquanto a grande discussão se trava em torno de problemas ambientais, a maioria dos quais apresentada de forma enganosa e até pueril, como se viu na argumentação que ajudou a retardar o início das obras das duas usinas no rio Madeira. Um atraso absolutamente injustificável que acabou produzindo a pior solução em termos de preservação ambiental, pois está obrigando o governo a convergir para a expansão do uso das termoelétricas alimentadas com os ultrapoluentes derivados do petróleo e em seguida o combustível nuclear.
Decorre desta ação desastrada dos pseudoecologistas a decisão de priorizar a construção de Angra III: mesmo sendo menos poluente do que as termoelétricas a óleo ou gás, a usina nuclear tem dois inconvenientes graves que são o problema não resolvido do destino do resíduo radioativo e o próprio custo muito superior da energia fornecida. Nossos desastrados ambientalistas estão contribuindo, portanto, não apenas para a degradação do meio ambiente mas para dificultar o crescimento econômico e com isso piorar as condições de vida daqueles que eles pensam estar protegendo.
O fato é que, independente da pressão dos ecochatos de todos os matizes, os governos assistiram passivamente nos últimos 20 anos a destruição de uma das maiores vantagens comparativas que impulsionava o crescimento brasileiro, representada pela oferta da energia limpa e barata de nossas hidroelétricas. Abandonamos uma matriz energética que a maioria dos demais países invejava e permitimos a degradação de um material humano da melhor qualidade e competência. É um patrimônio que nos vai custar o tempo de uma geração para repor.
ANTONIO DELFIM NETTO é professor emérito da FEA/USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e ex-deputado federal por São Paulo
As vestes do brasileiro
Servio Borges da Silva
Nos meios jurídicos de todo o País se comenta que um juiz suspendeu uma audiência porque um trabalhador (que iria ser interrogado) estava de chinelo, ou seja, não se encontrava devidamente trajado para adentrar no sacrossanto recinto da justa Justiça brasileira. Advogados, juízes e promotores de Justiça comentam vários casos ocorridos em audiências por todo o país.
Eu mesmo vi um trabalhador ser advertido, severamente, por um juiz ao entrar de chapéu na cabeça dentro da sala de audiência; outro simplesmente por cruzar a perna diante do juiz; outro por entrar com macacão de frentista; outros ainda que, não sabendo sequer como se dirigir ao juiz, o chamaram de senhor. Nesse caso ouve-se, às vezes, um imenso grito: Me chame de Excelência, o senhor não sabe se comportar diante de uma autoridade?.
São tantas as aberrações que temos o dever de pensar seriamente sobre o preparo, a educação e a orientação desses homens colocados atrás de uma mesa para julgar seu semelhante. É conhecida a máxima popular que afirma: Alguns juízes pensam que são deuses, outros têm certeza que são. É muito útil que a sociedade tenha conhecimento desses acontecimentos para compreender a situação de privilégio indevido e arbitrário que algumas classes de funcionários públicos vivem no Brasil.
É preciso compreender que juízes e promotores de Justiça são pessoas comuns, iguais a nós, e não têm o direito de pensar e agir como se fossem superiores. Não se esqueçam que quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado. Todos somos iguais, todos temos os mesmos direitos e os mesmos deveres sociais, dentre eles exercer com dignidade e respeito humano qualquer função dentro do contexto social. Ressalte-se que aquela pessoa que tem capacidade de impedir a realização de uma audiência somente porque o pobrezinho não tinha sapatos, também pode ter a capacidade de julgar sempre a favor dos poderosos, tenham ou não razão. Algumas pessoas temem entrar com processos na Justiça com medo de perdê-los ou porque não têm dinheiro. Por quê? Falta de dinheiro para as custas processuais ou para dar às personagens bem situadas que vão julgar o caso? No Brasil, a Justiça está carecendo de humildade para julgar, para compreender as dificuldades do povo e para analisar os processos.
Por isso é que mensaleiros, sanguessugas, os que carregam dinheiro na cueca, os bois voadores de senadores e muitos deputados fazem o que bem entendem porque quando os escândalos vão parar na Justiça já sabem: estará formada a grande pizza dos poderosos. Comenta-se que o pobre não consegue nada em juízo e que o rico consegue tudo e que a Justiça foi feita para defender os interesses dos poderosos. Por tudo isso, ali o hábito faz o monge, ou seja, as vestes são o simulacro (fingimento) da verdade.
SERVIO BORGES DA SILVA é advogado em Londrina
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