Desagradável mudança

Antonio Delfim Netto
  O relatório anual do Banco Internacional de Compensações (BIS) contém uma advertência a respeito da inflação que deve ser acompanhada com bastante atenção, porque traz uma sutil mudança na posição adotada até hoje. Ele observa que está começando a se desenvolver uma pressão inflacionária no mundo, não muito importante, ainda morna, mas que indica uma alteração na situação anterior.
  Alguma coisa diferente aconteceu na economia mundial quando nem mesmo o extraordinário aumento nos preços do petróleo transmitiu pressão para os preços. Os economistas andaram produzindo muitas explicações para o fenômeno, comparando as fracas tensões inflacionárias atuais com o que aconteceu nos dois choques do petróleo, de 1973 e 1982, mas sem concluir nada muito mais convincente que o fato que o atual foi um choque de demanda enquanto os outros dois foram choques de oferta. Os aumentos anteriores dos preços do petróleo produziram uma enorme inflação, os juros foram elevados à estratosfera e o resultado foi a recessão mundial.
  Agora, não: os fortes aumentos nos preços do petróleo e das demais matérias-primas (commodities) estimulados pelas compras chinesas e pelo próprio crescimento mundial não se transformaram em pressões inflacionárias. As tensões continuaram modestas, não pressionaram as taxas de juros e isso possibilitou o enorme aumento de liquidez mundial que financiou o crescimento do comércio.
  O Brasil foi particularmente beneficiado porque o aumento nos preços das commodities que exportamos e o crescimento das compras mundiais de nossos produtos foram fatores decisivos para a eliminação da vulnerabilidade externa no governo Lula. Fomos bastante ajudados pelo mundo e poderíamos ter avançado muito mais se não tivéssemos nos amarrado a uma política de juros que permite a supervalorização cambial, travando o crescimento e a diversificação do setor exportador brasileiro nos melhores momentos de expansão do comércio mundial.
  Há dúvidas se este ‘‘vento de cauda’’ continua e se há tempo para reanimar os setores da indústria brasileira que foram expelidos da competição mundial por força do equívoco cambial. Os sinais de alerta do BIS sobre um pequeno aumento da tensão inflacionária devem nos preocupar porque significam a probabilidade de menor de crescimento da economia mundial nos próximos anos. Todos os países hoje estão no regime de metas de inflação. Os bancos centrais têm seus mecanismos bem azeitados e coordenados de modo que podem ser induzidos a uma alta nas taxas de juro de longo prazo, esfriando a economia global e obviamente afetando as perspectivas de crescimento brasileiro.
ANTONIO DELFIM NETTO é professor emérito da FEA/USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e ex-deputado federal por São Paulo


Por que o mundo não muda?

Jonathan Menezes
  A mudança é uma qualidade (ou defeito, depende de sua natureza) inerente ao ser humano. É um ato de substituir ou transformar. Diz-se que o ser e o mundo estão em constante mudança - não se sabe se para melhor ou pior. Às vezes isso soa até como um processo invisível, que passa despercebido a olhos nus, estáticos, como uma espécie de evolução natural. Mas a impressão que fica é que esse tipo de concepção da mudança, de um modo genérico, sempre é incompleto, que não é assim que deve funcionar. Mudança, então, é um acontecimento: histórico, factível, concreto. Esperamos que as coisas mudem - especialmente aquelas que nos afetam diretamente - quando são cabíveis, já que o anseio por mudanças é precedido por certa necessidade. ‘‘Vivemos esperando, dias melhores’’, diz a canção da banda Jota Quest, ‘‘dias de paz, dias a mais, dias que não deixaremos para trás’’.
  Vivemos esperando... e isso é parte do problema. Será essa uma chave para responder à tão inquietante aporia (por que o mundo não muda)? Esperança e paciência são dons raros hoje em dia, num mundo de efemeridades e urgências. Mas esperança sem ação não transforma nada (nem pode ser esperança); pelo contrário, converte-se em medo, resignação, alienação e cinismo. Percebemos, desta feita, que a mudança, em certa medida, é algo radical, custoso, paradoxal. Espera-se tanto, mas se luta tão pouco por aquilo que se espera.
  Esperança é espera, mas também é luta, protesto, movimento. Quando, porém, nos damos conta da realidade complexa a nossa volta, percebemos sua crueza e crueldade. Preferimos ignorá-la, em nome da segurança e do conforto. Eliminamos a esperança, frustramos a mudança. Por que o mundo não muda? Porque passamos muito tempo, ocupados em nossas agendas particulares, e a esperar, esperar que tudo mude, através de outros, ou do nada, uma hora, de algum jeito, quem sabe. Pedimos aos céus, e parece não haver resposta; estamos surdos demais para ouvir o que ‘‘ele’’ tem a dizer, ou para ver seus ‘‘sinais’’. Só se dá importância ao céu quando a vida na terra transpassa os limites de ser uma alternativa plausível e suportável, não é mesmo?
  O mundo não muda porque não mudamos. Não enxergamos que ‘‘mundo’’ não é só o planeta Terra, mas as pessoas e os sistemas engendrados por elas. Precisamos, nesse aspecto, aprender a conjugar o mundo como um verbo (‘‘somos’’), e assumi-lo como dimensão formativa de ser-no-mundo. O escritor inglês G. K. Chesterton parece, em tese, ter entendido isso. Quando ele e outros importantes escritores de seu país foram convidados por uma revista a escrever artigos opinando sobre a questão: ‘‘O que há de errado com o mundo?’’, sua carta foi a mais curta, honesta e contundente de todas. Ele escreveu apenas isso: ‘‘Senhoras e senhores, eu, G. K. Chesterton’’. O mundo não muda, e pra melhor, em muitos aspectos; poderia elencar aqui vários. Basta parar e olhar um pouco ao redor. E se ele não muda, em algum sentido, é porque o mundo também sou eu.
JONATHAN MENEZES é professor da Faculdade Teológica Sul-Americana em Londrina


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