ESPAÇO ABERTO
Responsabilidade social começa em casa
Angelo Luiz Orcelli
A organização familiar contemporânea tem exigido dos cônjuges responsabilidade de provento de maneira equivalente. Cada vez menos se encontra o modelo de família onde cabia ao homem a responsabilidade de prover e para a mulher a responsabilidade de preparar os filhos, física, espiritual, intelectual e moralmente, além da administração da casa.
A família é produto do sistema social e refletirá o estado de cultura desse sistema. Hoje não existe mais tempo: ''Agora estamos com pressa, depois falamos. O compromisso profissional não pode esperar. Você vai à escola para que? Pergunte para o seu professor''. Este é um dos diálogos mais comuns em nossos dias. Por que será que tantos jovens se drogam? A moda é jovem com depressão, Síndrome do Pânico e outras tantas inseguranças e medos.
Vivemos uma febre de terceirização. O poder público e as empresas privadas terceirizam serviços, e percebo um novo modelo de terceirização: a terceirização dos filhos. Agora, a responsabilidade de educar não é mais dos pais e sim da escola, da ação social, do conselho tutelar. A culpa é sempre do outro, cada vez mais recebo pais que me falam ''Nós damos tudo que ele precisa, por que será que ele está assim?'' Tudo o que? Limites, por exemplo? Carinho? Diálogo? Quanto tempo faz que você não diz para seus filhos ''Eu te amo''?
A sociedade reclama da violência. Ouço constantemente apelos para que os governantes façam o combate punitivo à violência. Não sou hipócrita em afirmar que neste momento isso não se faz necessário, acredito sim que seria muito mais adequado aliar o punitivo ao preventivo. Para isso, basta que cada pai e mãe assuma a responsabilidade sobre os filhos e não terceirize a criação deles. Quem não cuida do que tem fica sem e cria marginal.
Fazer filhos é fácil. Educá-los, e colocar limites, dá trabalho. E requer amor. Sempre será uma questão de escolha. Esta tarefa não é fácil. Requer uma dedicação séria durante muitos anos, mas o resultado com certeza será muito mais prazeroso. Uma árvore bem plantada, bem cuidada, dará bons frutos.
A responsabilidade social começa dentro das nossas casas, filhos que não respeitam os próprios pais, com certeza, não respeitarão ninguém. Respeito é diferente de medo. Autoridade não significa poder, disciplina não é castigo e educar é um ato de amor.
ANGELO LUIZ ORCELLI é trainer comportamental, graduado em Administração de Empresas pela Universidade Estadual de Londrina, coach, Máster Practitioner em PNL
Os jecas da metrópole
André Galvão de França
Parece mentira, mas no Paraná temos uma realidade que destoa do comum. A ''inteligentsia'' da metrópole é mais atrasada que a do interior. Um caso ilustra bem esse raciocínio - o corte total de recursos para os Festivais de Teatro e Música de Londrina em 2007, anunciado pelo Governador Requião.
Será que nossos governantes ainda não compreenderam a importância que possui a cultura para a civilização de Londrina? Será que não compreenderam que os recursos são investidos em múltiplos processos que dinamizam a cidade, movimentam a economia local e fortalecem a identidade da Londrina cultural? Será que não há no governo do Paraná alguém com capacidade de enxergar o que a maioria da população de Londrina vê? Parece que não.
Podemos considerar como elite do estado os membros do governo? Não. Pois se nos países desenvolvidos a cultura recebe tratamento prioritário, é reconhecida como área estratégica para o desenvolvimento de cidades e nações, no Paraná vivemos com o descaso há mais de uma década. Digo isso por ter acompanhado e participado de vários debates e atos pró-cultura nestes anos, e percebo que não há mudança.
No governo Jaime Lerner, que se outorgava cosmopolita, o investimento era feito sob pressão. A Secretária Mônica Rieschibitter quando veio a Londrina, na falta de propostas, ficou acuada na parede e voltou para o hotel. A Lei Estadual de Incentivo à Cultura foi um engodo que terminou recentemente com o reconhecimento do Supremo Tribunal Federal de sua inconstitucionalidade. E o Governo Lerner foi cúmplice deste teatro que inviabilizou a Lei.
Um dos atos daquele governo foi um episódio lamentável de discussão da regulamentação da Lei de Incentivo, em que a representante da Secretaria Estadual de Cultura apresentou garranchos escritos em um guardanapo de bar, como proposta do governo. Agora o governador Requião corta o investimento em cultura na cidade de Londrina. Deixa um festival reconhecido no mundo inteiro - Filo - a pão e água e avisa ao decano Festival de Música - guardem os instrumentos.
O Jeca, personagem do Monteiro Lobato, era apenas um caipira ingênuo e autêntico, mas a ''elite'' da metrópole, essa não, é rançosa, mesquinha e atrasada, não percebe o mal que faz a população tomando atitudes miúdas, que com certeza prejudicarão o desenvolvimento humano e econômico do Paraná. Nunca houve um projeto de política pública para à cultura no Paraná e vivemos sob o balcão negociando farelo de pão. Se somos vanguarda em Londrina e temos um processo cultural muito mais avançado, por quais motivos temos que ser governados pelos mais atrasados?
ANDRÉ GALVÃO DE FRANÇA é advogado em Londrina e coordenador do Fórum Permanente de Cultura do Paraná





