O homem que matou Deus

Nélio Roberto dos Reis
  Darwin, criador da teoria da evolução por meio da seleção natural, era inglês de Sherwsbury e de família cristã. Transferiu-se para Cambridge com o objetivo de se preparar para o sacerdócio, e como já tinha tido estudos iniciais na escola médica, foi indicado para o posto de naturalista na viagem de exploração do navio Beagle, aos 22 anos. Este personagem foi acusado na revista Superinteressante do mês de junho como o ‘‘assassino de Deus’.
  Ele deveria ser homenageado por ter aberto o caminho para a ciência moderna. Descobriu que todos os seres vivos, do mais sábio ao animal unicelular, podem ter sua linhagem ancestral traçada, ou seja, as espécies animais e vegetais não eram fixas, tendo evoluído ao logo da história geológica. O que de maneira nenhuma contrapõe a idéia de que o homem não foi criado por Deus. Assim, como todos sabemos hoje que a terra não foi feita em 7 dias. O que são sete dias para Deus?
  A briga da Igreja Católica com Darwin vem do fato de ele ter tirado o homem da linhagem dos ‘‘anjos decaídos’’. Na verdade, ele só usou a inteligência que lhe foi dada por Deus e nunca disse que o homem se originou do macaco, mostrando que a linhagem humana é fruto de pressões evolutivas. Como já dizia Heráclito ‘‘nada é permanente, exceto as mudanças’’. Além de tudo ele era poeta e, assim, ao passar pelo Brasil em 1932, escreveu: ‘‘O Brasil é uma visão das mil e uma noites com a diferença de que tudo aqui é de verdade’’. Sua influência no pensamento humano foi muito grande, e de forma científica revolucionou toda a ciência, influenciando a antropologia e a sociologia, entre tantas outras.
  Darwin não foi o único injustiçado pela Igreja. Galileu Galilei foi encarcerado e condenado a recitar por três anos salmos penitenciais, por defender a teoria de Nicolau Copérnico, de 1630, de que a Terra não era o centro do universo, mas apenas um planeta que se movia em torno do sol, embora, às escondidas dizia ‘‘eppur si mueve’’ (ela se move). Não sei dizer qual erro da Igreja, constituída por humanos, foi pior, entre tantos outros. Sem citar os abusos da Santa Inquisição.
  Darwin não fez isto sozinho; ele compartilhou suas descobertas com Wallace e é de partir o coração o fato histórico contado pelo professor Carlos Alvarenga Julio, do desespero de Wallace, correndo com um papagaio na mão de um lado a outro do navio em chamas, gritando ‘‘minhas coleções, minhas coleções’’ enlouquecido pelas suas coletas queimando (prova das suas teorias revolucionárias da evolução).
  Assassinos de Deus foram Adolf Hitler, Mussoline, Pinochet, Fidel Castro, Lênin, Mão Tse-tung. Agora Darwin, Newton, Michelangelo, Sigmund Freud, Einstein, Sheakespeare, deveriam ser considerados filhos de Deus por terem tido a audácia de usarem a inteligência que Deus lhes deu e terem tirado parte da humanidade da mediocridade. Ciência e religião não deveriam se contrapor. Como já dizia Einstein, a Igreja sem a ciência é cega e acho que o homem sem Deus não é ninguém. E viva as exposições sobre as descobertas de Darwin sendo realizadas e mostradas em todo o mundo, inclusive no Brasil. Aleluia.
NÉLIO ROBERTO DOS REIS é doutor em Ciências pelo Inpa e professor na Universidade Estadual de Londrina


Queremos acordar?

Marco Antonio Cito
  Recentemente, foi noticiado que um senhor polonês chamado Jan Grzebski, que no ano de 1988 entrou em coma em decorrência de um acidente de trem e, graças à persistência de sua mulher em montar uma UTI em sua casa, sobreviveu e despertou no mês de maio último. O interessante, além da milagrosa recuperação, foi acompanhar as reações do polonês às alterações na história que, enquanto dormia, aconteceram na então Polônia comunista. Antes do coma, ele vivia em uma cidade onde nas prateleiras dos supermercados só se encontrava vinagre e chá. Tempos em que qualquer manifestação contrária ao regime resultava em cadeia. Não havia liberdade de expressão, imprensa, ideologia e culto.
  Ao acordar, o polonês se deparou com um novo mundo: celulares, iPods, dvds e a internet. Viu que hoje se podia reclamar do governo sem ir preso e declarou: ‘‘Não tenho nenhuma saudade da Polônia que conheci’’.
  Conosco – londrinenses –, aconteceria o oposto. Se acordássemos hoje de um coma, despertaríamos com uma cidade e um país bem diferente também. Para pior, infelizmente. Acompanharíamos perplexos notícias de que não existem balas perdidas somente no Rio de Janeiro, mas que a cada dia ao abrir o jornal nos deparamos com uma manchete policial. Surpresos também estaríamos em ver que vivemos em uma cidade refém da violência, onde filhos são mortos defendendo seus pais e os pais são mortos ao parar para pegar água em uma bica. Seria difícil acreditar que uma cidade que era próspera e pujante agora amarga atraso industrial e de infra-estrutura.
  E no Brasil, será que acreditaríamos que os jovens, fatia da sociedade sempre mais destemida, responsáveis pelas grandes manifestações em prol dos direitos da nação, os nossos cara-pintadas, que antes protestavam contra a corrupção e os desmandos, agora fazem churrascos ‘‘invadindo’’ reitorias e protestando contra a sua própria segurança?
  Acordaríamos, talvez querendo voltar a dormir, vendo que um governo, considerado o mais corrupto, com mais cargos de alto escalão envolvidos em escândalos, mensalões, cuecões e dossiês, foi reeleito? Acreditaríamos que mesmo com mais e mais dúvidas e denúncias, com a economia global crescendo a 10% e o País a 3%, os empregos com qualificação aumentando, não se encontram pessoas qualificadas devido à educação decadente? Creeríamos, olhando para a infra-estrutura do País, em um pré-colapso (vide estradas e aeroportos), nos conselhos de botequim de ministros e adjacentes que à aprovação deste governo só cresce? O sr. Grzebski acordou em um sonho. Nós, estamos em um pesadelo.
MARCO ANTONIO CITO é consultor de empresas em Londrina

- Os artigos devem ter, no máximo, 30 linhas. Os artigos publicados não refletem, necessariamente, a opinião do jornal. [email protected].

mockup