Deus não é...

Dom Orlando Brandes
  1. Deus não é: energia cósmica, universo infinito, arquiteto do mundo, força da natureza. Não podemos confundir Criador e criatura, endeusando a criação e coisificando o Criador. Esta é uma heresia criada pela mente humana que faz da criatura um ídolo, fabrica deuses a seu gosto e o homem torna-se o ‘‘criador de Deus’’, passa a ser ‘‘oleiro de Deus’’. Deus é Pai, é Alguém, é uma Pessoa Divina, Deus é Amor.
  2. Deus não é: consciência universal, enigma indecifrável, sombrio abismo. Deus não é a soma das consciências humanas, uma espécie de superconsciência. Deus é Alguém. Deus é um Tu, Deus é Uno e Trino e tem rosto e nome: Pai, Filho e Espírito Santo. A Trindade é a melhor comunidade e os adoradores da Trindade Santa haverão de construir comunidades, grupos e convivência entre as nações e povos.
  3. Deus não é: velho barbudo, papai-noel, velhinho lá de cima, uma espécie de provedor ‘‘bonachão’’ encarregado de suprir nossas carências. Deus é amor (1Jo 4,16) e na sua Providência governa o mundo como ‘‘Senhor da História’’, libertou seu povo do Egito, sendo defensor dos excluídos cujo nome é ‘‘Goel’’, isto é, Aquele que faz justiça e opta pelos mais fracos: a viúva, o órfão, o estrangeiro.
  4. Deus não é: a idéia que Dele fazemos, não é aquilo que desejam nossas descrições, nem o que projeta nosso subconsciente. Deus é sempre maior. O mais Além e o mais Aquém. Deus é o Máximo e o Mínimo. Deus é mistério, Aquele que chamamos de ‘‘Totalmente Outro’’. Divino e humano, transcendência e imanência, sim Deus é ‘‘Tudo em todos’’ (1Cor. 15.28).
  5. Deus não é: policial justiceiro, monarca tirano, rival do homem, vingador dos pecados. Deus é Pai, rico em Misericórdia. Deus é Bondade, Paciência, Clemência e Compaixão. O rosto do Pai está estampado no rosto de Jesus. Em seu Filho, ajoelha-se para lavar os pés da humanidade peregrina. Ele veio para servir.
  6. Deus não é: patriarca, exigente patrão autoritário, padrasto distante, nem paternalista bonzinho a serviço dos caprichos humanos. Deus é Vida, Criador e Senhor da Vida. ‘‘Amante da Vida’’. Deus é Inefável ‘‘tremendo e fascinante’’, caminha conosco e está acima de nós. É o ‘‘Deus das maravilhas’’, da criação e da redenção.
7. Deus não é: impassível, insensível, indiferente como se vivesse folgado nas alturas, longe da história. Deus é Santo e, por isso mesmo, Ele é ‘‘mundano’’. ‘‘Deus amou tanto o mundo, que enviou seu Filho, como Salvador do mundo’’ (Jo 3,16-17). Deus sofre quando nós sofremos porque nos ama, Deus tem coração, Deus é ‘‘humano’’, é Emanuel: Deus Conosco, Deus em nós e acima de nós. Faz sua morada no coração humano (Jo 14,23). É preciso um regresso ao primeiro mandamento: Amar a Deus sobre todas as coisas e de todo coração.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina


Quanta descompostura!

Gaudêncio Torquato
  Sob a cúpula côncava do Senado, o senador Renan Calheiros se arma com pilhas de documentos, enredos e um pequeno exército chefiado pelo comandante da frente ética, de nome Sibá Machado, para levar a cabo a operação com o objetivo de salvaguardar o império da presidência da Casa e, de quebra, o próprio mandato, por suposta quebra de decoro parlamentar. Quanto mais o presidente do Senado procura comprovar rendimentos compatíveis com a pensão paga à ex-namorada, com quem teve uma filha, mais evidências de irregularidades aparecem. A blindagem em seu entorno, feita por aliados orientados para desmontar o acervo de provas, se apresentava como sórdida operação no meio da crise que afasta a sociedade da instituição política. O parecer dado pelo licenciado senador Epitácio Cafeteira, antes de ver provas documentais, é uma peça vergonhosa. Ainda bem que recuaram da idéia de inocentá-lo ‘‘a todo custo’’.
  Por que razão um seleto grupo, que ocupa o espaço mais ambicionado da política, fecha os olhos para as graves denúncias que encurralam o senador das Alagoas e mancham a história da Casa? Porque não mais representa o escopo de excelência inerente à sua tradição, bastando anotar que, no século 19, ali se decidiram questões vitais como as relações internacionais do País; o Rio da Prata, eixo central no capítulo da segurança; a imigração; a abolição da escravatura; o comércio exterior e a industrialização, entre outras. Hoje, é pálida sombra do passado pela escassa bagagem intelectual e política de parcela de seus 81 membros. Mais de um terço dos senadores não obteve nenhum voto, ganhando o cargo por serem suplentes, que passam ao largo das urnas. Senador sem voto é um Jaguar sem gasolina, só impressiona pela aparência. Mas o Senado custa aos cofres da União R$ 2,7 bilhões por ano, ou seja, cada senador custa R$ 33,4 milhões. Como o senador defende os interesses do Estado, e não do povo (representado pelo deputado), ele não se sente obrigado a falar diretamente com a dona de casa, o trabalhador, o homem das ruas. Tem mandato de oito anos, podendo, no meio, candidatar-se duas vezes a prefeito e uma a governador, sem perder a vaga em caso de derrota.
  Assume o Ministério do Futuro a pessoa que afirmou ser o primeiro governo Lula o mais corrupto da História. Na época, o professor Mangabeira Unger devia ter motivos para fazer a denúncia. Ter-se-ia dado conta dos escândalos do Brasil nos últimos 40 anos? Vejam: 9 no governo Geisel, 10 no governo Figueiredo, 6 no governo Sarney, 19 no curto ciclo Collor, 31 durante a administração de Itamar, 44 no período FHC e 104 desde 2003, quando Lula assumiu o governo.
  A descompostura se alastra como peste. Assim se explica a criação de mais 626 novos cargos de confiança no Poder Executivo, ao custo de R$ 23,3 milhões. Eles se juntarão aos 21.563 convidados antigos, que, por sua vez, comemoram um aumento salarial de até 139,7%, proposto pelo próprio governo. Ora, a grana é abundante. A Receita Federal arrecadou R$ 31,58 bilhões, valor 10,83% maior que o de outros meses de junho. E assim la nave và... sobre as águas da mesmice. E da impunidade, eis que, em 40 anos, nenhum político ou governante nos 137 processos que deram entrada no Supremo Tribunal Federal foi punido. E ainda dizem que nossa democracia é de primeira.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da Universidade de São Paulo e consultor político em São Paulo

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