Sociedade da informação e a cultura do lixo

Cezar Bueno
  A internet representa uma ferramenta poderosa a serviço do desenvolvimento humano, da comunicação, do entretenimento, da informação, além de provocar mudanças radicais na maneira de consumir o tempo e de produzir relacionamentos. Afinal, o que milhões de jovens e adultos procuram encontrar navegando pela internet?
  O acesso à rede possibilita obter informações que enriquecem, educam, mas também embrutecem. A produção, a distribuição e o conteúdo de muitas informações processadas na rede mundial de computadores parecem estar equipados para fazer triunfar a idéia segundo a qual o passado não existe e que o futuro só interessa aos corpos e mentes derrotados no presente.
  O estágio atual da informação eletrônica, sob o impulso da modernidade capitalista globalizada, converte todos os usuários em consumidores insaciáveis induzindo-os a mergulhar de cabeça nas coisas do mundo aqui e agora. O êxito da futilidade detesta o passado e abomina o futuro.
  O que parece importar realmente é correr atrás das coisas e capturá-las em pleno vôo, ainda frescas e cheirosas. Isso é in. O resto (adiar escolhas, cultivar princípios morais, políticos e religiosos a longo prazo) é out. O princípio da quantidade substitui o da qualidade. O triunfo aparente do arsenal de informações leva jovens e adultos a idolatrarem a cultura do lixo. Os produtos culturais são calculados para produzir o máximo impacto momentâneo e, ao mesmo tempo, dissolver e remover os produtos culturais que, até ontem, encarnavam o ícone da moda. A voracidade do mercado supõe que os produtos, as pessoas e seus relacionamentos logo cairão no esquecimento. O caminho entre a novidade e a lata do lixo é cada vez mais curto. O tempo gasto diante do MSN (que não é pouco) permite a troca de informações, de gentilezas e da banalização sexual.
  A quantidade desse tempo gasto pode igualmente ser utilizada para acumular conhecimento e ampliar práticas político-educativas humanizadoras. A internet constitui um poderoso meio de comunicação que promove formas de interação virtual, informa, aproxima a troca mútua de conhecimentos e, com isso, facilitar a construção de uma sociedade justa, livre e capaz de superar as desigualdades sociais. Para isso, é preciso ressaltar que o acesso à rede mundial de computadores é feito por jovens e adultos senhores de si e não por almas indefesas ávidas por informações efêmeras e alienadas das questões político-sociais concretas desse mundo.
CEZAR BUENO é doutor em Ciências Sociais e professor de Sociologia na Unifil e na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) em Londrina


Impunidade, crime e violência

Francisca Verginio Soares
  Nunca se falou tanto em impunidade no Brasil. Primeiramente, é preciso ressaltar que estudos sociológicos de temas como criminalidade e violência no Brasil começaram a ganhar visibilidade há pouco tempo. Talvez por isso a impunidade também não seja tema de estudos e pesquisa por estarem imbricados. É freqüente encontrar, nas ciências sociais, referências à impunidade, mas tratamento específico ou analítico do tema, dificilmente.
  Segundo Myriam Mesquita, o uso indiscriminado da palavra impunidade parece estar sofrendo um desgaste em relação ao seu significado. (Mesquita, 1998: 110). Por isso, ou inclusive por isso, por mais atual e utilizado que seja o termo, não é acadêmico, e muito menos supérfluo, um tratamento, ainda que sucinto, do conceito de impunidade. Claramente falando seria: falta de punição, de castigo. Ou é o gozo da liberdade, ou de isenção de outros tipos de pena, por uma determinada pessoa, apesar de haver cometido alguma ação possível de ser penalizada.
  Do ponto de vista jurídico, impunidade é a não aplicação de determinada pena criminal a um determinado caso. A lei prevê para cada delito uma punição e quando o infrator não é alcançado por ela, seja pela fuga, pela deficiência da investigação ou, até mesmo, por algum ato posterior de ‘‘tolerância’’, o crime se mantém impune. Conforme o ditado latino, impunidade estimula delinqüência: ‘‘Impunitas peccandi illecebra’’. Do ponto de vista político, o significado é mais amplo. Fala-se em impunidade não apenas quando se verifica a incapacidade ou a falta de disposição do Estado fazer prevalecer a punição estabelecida, mas também quando a própria lei ou o magistrado que a aplica são considerados condescendentes ou tolerantes com aquele que deveria punir.
  A questão da impunidade está no centro do debate político brasileiro, seu reflexo mais imediato é o crescimento da violência de um modo sem precedente. Se ela é uma regra e não uma exceção, torna-se muito difícil inibir o crime porque não é a extensão da pena o mais importante, mas a certeza da punição. No Brasil, há leis em excesso, o que é urgente é que sejam cumpridas. A taxa de resolução dos crimes no país é baixíssima, inferior a 10%, enquanto em outros países é de 80%, 90%.
  Enfim, o que se espera é o rigor da lei, ela precisa funcionar de modo democrático. Por mais severas e rigorosas que sejam as penas, o crime nunca acabará, mas quanto menor for o rigor da lei e maior for a impunidade, maiores serão os índices dos crimes. É preciso desestimular a prática de crimes diversos, inclusive os crimes políticos, como o atual escândalo envolvendo o senador Renan Calheiros e que acena como mais um caso de impunidade. Aliado à aplicabilidade da lei, é preciso ainda, diminuir a falta de oportunidades e desigualdade social (da qual o Brasil é quase o campeão mundial) fatores que, sem dúvida, contribuem para o aumento da desregrada violência urbana onde as vítimas preferenciais têm sido as classes populares.
FRANCISCA VERGINIO SOARES é socióloga, doutora em Ciências Sociais e docente de Sociologia e Política em Londrina


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