A humildade de Deus

Dom Orlando Brandes
  Deus é infinito, absoluto, perfeito e santo. Deus é amor, por isso, é humilde. Sua primeira humildade está no ato da criação do homem. Permite existir um outro que em sua liberdade pode contrariá-lo, ofendê-lo, e dele discordar. Deus se contrai, se autolimita para que suas criaturas possam existir. É humildade de Deus acolher em seu mistério, o outro diferente e livre. Deus aceita limitar o seu poder. Aceita ser ofendido, não-correspondido, não-amado.
  É humildade de Deus, criar as coisas imperfeitas e aceitar a colaboração do homem como co-criador, administrador e aperfeiçoador de sua obra. Deus mesmo obedece às leis da criação que são imperfeitas e incompletas, quase a depor contra Ele. Mas, prefere se autolimitar, autocontrair, sofrer as limitações das criaturas para deixá-las existir e permitir que o homem as conduza e explore. Quanto sofrimento e humildade de Deus, num terremoto, numa catástrofe natural, numa doença cuja cura ele sabe qual é, mas em sua humildade, espera a descoberta deste remédio pela inteligência humana. Deus não faz o que o homem pode e deve fazer.
  Deus é humilde com o homem livre e pecador, não destruindo o mal, mas esperando na capacidade humana de ouvir a consciência e mudar de vida. Deus não destrói nem castiga o pecador, mas permite provações que serão benéficas no contexto. Deus é humilde ao escolher representantes seus, como é o caso de padres, bispos, religiosas, cheios de limitações e imperfeições. Ele não se envergonha de nossa fraqueza, ao lidar com pessoas defeituosas, limitadas, pecadoras.
  Deus é humilde, porque podia tudo resolver à força de milagres e com um sopro de sua boca, mas prefere adaptar-se às demoras das criaturas, respeitar as leis naturais e sofrer com os que sofrem porque os ama. Deus pode tudo mas não quer nos salvar contra nossa liberdade. O Onipotente, o Infinito aceita limitar seu poder. A virtude mais profunda da divindade é a humildade. Deus se abaixa, se inclina, é servidor do homem. Em sua humildade, ele bate à nossa porta e espera a resposta. Não arromba nem invade. Deus é mendigo do homem.
  A humildade de Deus nós vemos estampada em Jesus, frágil da manjedoura. Do mais alto céu, desceu ao lugar mais baixo, mais imundo. Da glória à estrebaria. Deus é humilde em Jesus pobre e peregrino, em Jesus no lava-pés e na cruz. Grande é o mistério da humildade de Deus. Porque é humilde, Deus é compassivo, misericordioso, benevolente, clemente, paciente. Na sua humildade reside sua majestade.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina


Princípios morais do motorista I

Julieta Arsênio
  O Vaticano expressou sua preocupação com o alto número de mortos nas estradas, denunciou que o automóvel se transformou em objeto de ostentação e vaidade para provocar inveja, pediu prudência e divulgou os ‘‘Dez Mandamentos’’ do (bom ou mau) motorista. O documento afirma que muitas pessoas aguçam o instinto de domínio, prepotência e poder quando dirigem, e que o automóvel é usado como objeto de ostentação para ofuscar os demais e suscitar invejas.
  O texto também denuncia comportamentos ‘‘pouco equilibrados’’ em muitos motoristas, como a falta de cortesia, gestos ofensivos, discussões, blasfêmias, perdas do senso de responsabilidade e violação deliberada do Código de Trânsito. Diante dos dados alarmantes sobre feridos e mortos em acidentes de trânsito, o Vaticano pediu que sejam respeitadas as normas de trânsito, lembrou a ‘‘virtude da prudência’’, advertiu sobre a distração e o uso de telefones celulares durante a condução e a direção sob os efeitos do álcool e das drogas.
  O primeiro é ‘‘Não matarás’’; o segundo, ‘‘A estrada seja para ti um instrumento de comunhão entre as pessoas e não de dano mortal’’; o terceiro, ‘‘Cortesia, correção e prudência te ajudam a superar os imprevistos’’. O quarto é ‘‘Seja caridoso e ajude o próximo na necessidade, especialmente se for vítima de um acidente’’; o quinto, ‘‘Que o automóvel não seja para ti expressão de poder e domínio e ocasião de pecado’’. O sexto ‘‘mandamento’’ é ‘‘Convença com caridade os jovens e os que já não o são para que não dirijam sem condições de fazê-lo’’; o sétimo, ‘‘Preste apoio às famílias das vítimas dos acidentes’’, e o oitavo, ‘‘Reúna a vítima com um motorista agressor em um momento oportuno para que possam viver a experiência libertadora do perdão’’. O nono é ‘‘Na estrada, guie o mais fraco’’, e o décimo,‘‘Sinta-se responsável pelos demais’’.
  O documento sugere ainda que o viajante faça o sinal da cruz antes do início da viagem, ‘‘entregando-se diretamente à proteção da Santíssima Trindade’’. O texto afirma ainda que é bom orar e rezar o rosário durante a viagem.
  Sabe-se que os meios de transporte podem servir para promover as virtudes cristãs, entre elas a prudência, a paciência e a caridade. No entanto, alguém pode se perguntar qual o interesse destes mandamentos quando temos um Código de Trânsito em vigor? Sabe-se também que conduzir sob o efeito de álcool já é considerado crime em quase todos os países, a partir de uma determinada taxa de gramas de álcool por litro de sangue (que em Portugal, por exemplo, se cifra nos 1,2 grama/litro , em alguns países é 0 grama/litro e no Brasil 0,6 decigrama/litro), enquanto que o desrespeito pelos limites de velocidade conduz a contra-ordenações.
  Numa visão geral, a Igreja parece entender que qualificar estas ações como ‘‘pecado’’ irá ter um efeito de dissuadir sobre o crente/prevaricador. Se assim for, por que não?
JULIETA ARSÊNIO é psicóloga especialista em Comportamento de Trânsito em Londrina


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