Cartão-ponto do HU

João Bento de Moura Neto
  Com muito orgulho, formei-me em Medicina pela nossa querida Universidade Estadual de Londrina (UEL) em 1978 e tenho mais dez irmãos, todos formados pela UEL (e também com muito orgulho). Desde 1982, trabalho no Pronto-Socorro Obstétrico do Hospital Universitário Regional do Norte do Paraná (HURNP). É impossível assistir a tudo que vem sendo veiculado pelos meios de comunicação em relação ao cartão-ponto no HU e não me manifestar e dar um posicionamento a respeito do assunto.
  Por que expor na mídia tais irregularidades (praticadas por uma minoria) e talvez denegrir, na imaginação dos leigos e da população, a imagem de um hospital que tanto contribui, dentro do seu possível, para o cuidado à saúde dos carentes e doentes? Não seria menos espalhafatoso simplesmente investigar, chamar, analisar e punir os faltosos e implicados se necessário?
  A profissão médica é, sim, diferente das outras em suas peculiaridades, e não pode ser submetida inflexivelmente às mesmas regras trabalhistas no que se refere a horários como as outras também nobres profissões. Um médico não pode fazer um ‘‘logoff’’ de uma cesareana em sua metade ou fazer uma pausa de uma hemorragia traumática de uma fratura exposta para bater um cartão. Não seria muito mais justo e quase perfeito avaliar seu trabalho pela produção e resultados do que pelos frios números de um horário em cartão-ponto?
  Convido a todos os senhores que muniram-se de pedras e argumentos para denegrir a imagem do nosso querido HU e seus plantonistas que passem algumas horas no Pronto-Socorro e vejam se não seria muito mais humano e social lutar por mais vagas em UTI, melhores instalações, mais espaço físico para os pacientes e mais leitos do que se preocupar em mostrar aos outros os erros de poucos, que não refletem o grande contingente dos que levam seu trabalho a sério, mesmo às custas de falta de leitos, gente morrendo por não ter vaga em UTI, pacientes aguardando horas devido à falta de espaço físico, superlotação, macas nos corredores, Samu despejando pacientes que às vezes nem sabemos onde colocar, etc.?
  Apesar de tudo isso, se um dia eu passar mal na rua, for atendido e ainda puder falar, vou pedir: me levem para o HU! Por favor, deixem-nos trabalhar em paz em nosso querido HU, como sempre fizemos e sempre deu certo.
JOÃO BENTO DE MOURA NETO é médico em Londrina


Jovens e a política

Etienne Duim Nardini
  ‘‘É fácil nos identificarmos com aquele que sempre se mostrou ‘do povo’. Veio do nada e conquistou seu lugar ao sol, e isto não é tudo, ele partilha deste paraíso conosco, pois nunca esquece dos brasileiros.’’ Infelizmente frases deste gênero nos pegam despercebidos todos os dias, em qualquer lugar, mas o que fazer? Às vezes penso que é melhor ouvir do que ser surdo.
  O que me deixa furiosa é o fato de aqueles que realmente poderiam fazer algo, perderem-se em meio a ipods, cervejadas, festas e com um modo um tanto infantil de se olhar para frente: como se o amanhã pudesse esperar. Assim como deixamos para depois a preocupação com o meio ambiente, com a poluição, o desmatamento. Prorrogamos nossa falsa paciência adequando-nos à síndrome do avestruz, onde fingimos não ver, mas estamos sujeitos a sentir todas as interferências externas. As pessoas simplesmente esquecem de que quem não gosta de política está sujeito a ser governado por aquele que gosta muito. Apenas quem domina o conhecimento de algo pode reclamar seus direitos.
  Vivemos em uma ditadura mascarada onde cada vez mais o governo procura centralizar poder. Nosso mais novo exemplo é o PAC, outra sigla que pega no gosto popular, daqueles que nem sabem o que é, mas admiram a pessoalidade que nosso presidente coloca em suas frases explicatórias e gafes indigestas, dirigidas, é claro, ao povão.
  A cada dia perdemos o vínculo com nossos impostos, ficando difícil verificar ou cobrar as benfeitorias que deveriam corresponder ao país que paga a maior carga tributária do mundo, mas em contrapartida tem a pior prestação de serviços. Enquanto isso, a máquina pública cria cada vez mais mecanismos para engordar os bolsos daqueles que não podem ter nem a dignidade de falar que trabalham.
  Dignidade é uma palavra que não existe para os governantes, já que o Congresso Nacional é sinônimo de passeio pelo código penal. Políticos têm foro privilegiado, e quando tudo parece estar perdido... as panelinhas sempre resistem, e salvam a pele dos falsos amigos (afinal, o último que caiu - quis levar todo mundo junto). Ganham salários estratosféricos, têm férias bem remuneradas.
  Nosso país está de cabeça pra baixo. O Executivo adora legislar, o Legislativo gosta de executar e o Judiciário possui uma venda enorme nos olhos. As investigações existem, entretanto, a confusão que se forma em torno das informações é tão grande que acaba beneficiando aqueles que preferem a pizza à moda da casa: com uma boa dose de esquecimento para mascarar o recheio de podridão.
  Enquanto isso a inocência, há muito perdida, faz-se necessária quando o assunto não agrada aos jovens. Querem morar sozinhos por que já são crescidos, mas quem lava a roupa é mamãe; querem ser doutores e engenheiros, mas as provas de faculdade são muito puxadas e os professores ‘‘um saco’’; querem entrar em boate com 16, mas se matam por dirigirem alcoolizados. Assim é o jovem brasileiro, não desiste nunca: sempre em busca da balada perfeita. Espero que quando a ressaca passar não seja tarde demais.
ETIENNE DUIM NARDINI é estudante de Fisioterapia em Londrina

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