ESPAÇO ABERTO
Os cientistas e a oração
Dom Orlando Brandes
O homem é um ''animal orante'', pois não encontramos nenhum povo completamente ateu ou indiferente à dimensão religiosa da vida. Não existe cultura ateia, povo ateu. Aliás, construir o mundo sem Deus, é construí-lo contra o homem. Rezar é respeitar a dimensão espiritual do ser humano, é um ato de justiça para com nossa própria estrutura de criatura. O psicólogo K. Jung declara que a maioria de seus clientes adoeceu por terem abandonado a religião e que nenhum deles recuperou a saúde sem voltar à experiência religiosa.
Outro cientista, dr. Alexis Carrel, prêmio Nobel de medicina em 1922, ateu convertido, afirma: ''A oração, quando verdadeira e habitual, tem influência sobre o corpo e pode ser comparada à de uma glândula de secreção interna. A calma proveniente da oração é uma poderosa ajuda para a terapia''.
Ghandi, personalidade de renome mundial, escreve sobre o poder político da oração: ''O que fui na vida política eu o devo à minha vida espiritual. Creio que sou um homem de oração. Ela salvou minha vida. Pela prece nos tornamos puros e infundimos esta pureza em toda a sociedade''.
Um dos famosos historiadores, Arnold Toynbee escreve: ''Estou plenamente convicto que o homem é um ser espiritual. Não creio que algum ser humano tenha vivido ou possa viver sem religião. A meu ver, a ciência e a técnica não servem como substitutos da religião''.
Os testemunhos continuam. Eric Fromm, psicólogo judeu, escreve: ''Os impulsos religiosos contribuem para motivar homens e mulheres na realização de uma mudança radical da sociedade''.
Também o médico e psicólogo padre João Mohana assinala que ''a neurose é divisão da pessoa, a oração recupera a unidade perdida, plenifica a pessoa e dá sentido à vida''. A oração tem a função de escola, hospital e restaurante, pois ela educa, cura e fortalece a pessoa.
Tomás Merton, ex-comunista convertido que se tornou monge trapista, afirma que muitos intelectuais ficam fora da Igreja morrendo de fome às portas da sala do banquete, enquanto pessoas mais pobres e simples entram e se saciam nas imensas mesas de oração e da fé.
Dom Helder Câmara renomado bispo brasileiro, conhecido internacionalmente como ''bispo dos pobres'' atesta: ''Descobrir que cometemos enorme injustiça à nossa alma se lhe negamos a oportunidade de se refazer, dando-lhe o repouso que é a oração. De mãos postas poderemos fazer mais do que com mãos agitadas''.
Termino com Santo Afonso Maria de Liguori: ''Quem reza se salva, quem não reza se condena''.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina
Apagão, mais um?
Antonio Delfim Netto
A economia começa a crescer um pouquinho mais e só com grande atraso os governos (federal, estaduais e municipais) percebem o ''apagão logístico'' que nos ameaça e promete repetir, no setor de transportes, o apagão energético de 2001. Esse assunto foi discutido no programa Gente, da Band, segunda-feira com Salomão Esper, José Paulo de Andrade e Joelmir Betting (sem dúvida os mais competentes e bem informados jornalistas de São Paulo), à luz de uma pesquisa do Fórum Econômico Mundial que classifica o Brasil na septuagésima nona posição dentre 125 países em matéria de ''qualidade da infra estrutura'' necessária para sustentar o desenvolvimento.
Uma das conclusões é que se existisse um ranking de oportunidades perdidas para o desenvolvimento dos países no último quarto de século, o Brasil seria campeão. A malha rodoviária que até os anos 80 crescia a taxas superiores a 10% ao ano, atendendo à expansão da produção industrial e à ampliação da fronteira agrícola, desde então vem sendo consumida: de 1980 a 2005 a taxa de crescimento da quilometragem de estradas pavimentadas no Brasil caiu para pouco mais de 3% ao ano. A má conservação encareceu o transporte rodoviário, ampliando as distâncias entre as atividades econômicas e travando a integração nacional. É isso que nos coloca naquela péssima posição nas estatísticas mundiais de qualidade de serviços essenciais.
Hoje temos a demonstração empírica que a qualidade da infra-estrutura é trunfo decisivo para o desenvolvimento. O Brasil cresceu vigorosamente entre os anos 1950 e 1980 com poderosos investimentos (públicos e privados) em rodovias, energia elétrica e comunicações, principalmente. Foi quando o ''arquipélago Brasil'' foi interligado, as atividades econômicas aproximadas e teve início a extraordinária expansão da fronteira agrícola. De quadragésima oitava economia, subimos os degraus e nos tornamos a nona economia mundial na década de 70.
Tínhamos construído a melhor e mais limpa matriz energética dentre todos os países em desenvolvimento. O exemplo mais trágico de desperdício de oportunidades (os 12 anos recentes são ''hors concours'' na matéria!) é o abandono dos investimentos na hidroeletricidade, simultâneo ao ''desmonte'' das equipes técnicas de planejamento governamental na área da energia. Resultou no ''apagão'' de 2001, a maior demonstração de incompetência que um governo ofereceu às gerações de brasileiros de todos os tempos. Estamos jogando fora uma das mais preciosas vantagens comparativas que utilizamos para o desenvolvimento. Quando passamos a tratar de forma leniente e até mesmo irresponsável a questão da oferta de energia, quando tentamos convencer os brasileiros que a energia suja das termoelétricas (seja a óleo, gás, nuclear ou carvão) vai resolver o problema satisfatoriamente, estamos apenas pavimentando o caminho para um novo ''apagão'' energético no final da década.
A ameaça de um novo apagão energético é crescente para 2010/2011, devido ao atraso na construção das hidrelétricas. A oferta terá que ser atendida, precariamente, com o fornecimento das termelétricas, o que significa tremendo aumento da poluição ambiental e custos crescentes para a produção de bens.
ANTONIO DELFIM NETTO é professor emérito da FEA/USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e ex-deputado federal por São Paulo





