ESPAÇO ABERTO
Caos nos aeroportos
Luiz Carlos Ferraz Manini
A orientação bem-humorada da ministra do Turismo, Marta Suplicy, sobre o caos nos aeroportos brasileiros nos dá a real dimensão do problema que todos nós, usuários ou não de aviões, temos que nos defrontar nesse país. A ministra afirmou que os usuários devem seguir tal proposta: Relaxa e goza, porque você esquece todos os transtornos depois. De certa forma, a ministra pode estar certa. O povo brasileiro tem mesmo uma memória curta, sempre relaxa e aproveita, apesar de todos os furores causados pelos cinematográficos escândalos de corrupção.
Mas acredito que quem realmente goza, nessa história toda, são nossos representantes: gozam da nossa cara de otário, da nossa Síndrome de Pollyana, a ilustre personagem para quem tudo sempre está bem. Ou seria o doutor Pangloss, de Voltaire, nosso mentor, o qual afirma que vivemos no melhor dos mundos possíveis? Devemos então baixar a cabeça, e afirmar, como a Rosa, do comercial do novo carro de uma marca conhecida, dizendo: Tudo bem?
Houve um tempo em que o corpo do rei era a encarnação do corpo social: o crime não era apenas uma transgressão da lei, mas uma ofensa ao próprio rei, que buscava, através da justiça, não apenas reparar o dano cometido à sociedade, mas também sua vingança pessoal, uma vez que era sua própria figura que era abalada. Em um caso como o que me deparo agora, com uma figura pública como a ministra utilizando uma expressão de desrespeito, não seria o caso da própria sociedade fazer sua justiça, buscando não apenas uma nota declaratória de desculpas (como a mesma já fez), mas a reparação de sua honra ferida?
Não, talvez não. O povo brasileiro é cada vez mais relapso, e aproveita situações como essa para reportar-se à sua condição de coitado. Não há mais mobilização em nome da nação; vemos episódios isolados de greves e manifestações em busca de direitos específicos, mas nada que possua um âmbito de promover uma luta maior pelo respeito e pela dignidade, que nossos políticos cada vez mais espezinham.
Para a senhora ministra, é fácil afirmar que os problemas são esquecidos depois, afinal os meios de transportes oficiais possuem prioridade. Nosso presidente gasta uma fábula em seu avião oficial para fazer visitas nas quais as gafes, a ignorância e a fraqueza que lhes são inerentes nos envergonham cada vez mais. Sem ainda citar que, embora o problema dos aeroportos seja gravíssimo causando inúmeros prejuízos a uma parcela grande da população, que dizer das nossas ruas e rodovias que dificultam diariamente a vida do trabalhador? Talvez seja mais fácil rezar: meu Deus, na próxima vida, fazei de mim um avestruz, para que eu possa enfiar minha cabeça na terra sem precisar olhar para nada!
LUIZ CARLOS FERRAZ MANINI é professor de História
Casal Hernandes e psicologia das massas
Daniel Polimeni Maireno
O casal Hernandes, preso sob acusação de contrabando, conspiração e falso testemunho ao tentar entrar nos Estados Unidos com US$ 56 mil não-declarados, reuniu recentemente em São Paulo, via satélite, cerca de 3 milhões de pessoas na Marcha para Jesus - evento anual que reúne fiéis da Renascer, que este ano tornou-se um ato pró-Hernandes. Isto mostra que, apesar do escândalo, a confiança dos fiéis no casal segue intacta. Como isso é possível?
Refletindo sobre esta questão, lembrei que Freud escreveu um texto sobre a psicologia das massas, no qual aponta que: 1) há uma redução do senso crítico nas pessoas que compõem a massa - caminho aberto para que a reputabilidade do líder torne-se inabalável; 2) quanto maior o número de pessoas em torno de um líder, maior a certeza do sujeito de estar envolvido em algo correto; 3) um grupo é extremamente conservador e avesso a qualquer idéia que coloque em risco sua integridade; 4) um grupo alimenta-se mais de imagens idealizadas que de verdades; 5) perdida a crença na liderança, a massa se dispersa em estado de pânico - e para que isso não ocorra, os próprios membros sustentam ao máximo a boa imagem de seus líderes.
Isso se aplica ao casal em pauta: por mais que os fatos demonstrem o contrário, a fé dos fiéis na sua inocência se mantém, e eles fazem de tudo para desconsiderarem as evidências negativas - chegou-se a dizer que o casal está passando por uma provação! - pois a imagem idealizada da liderança não pode ser posta em dúvida, tendo em vista o risco da dispersão indesejada.
Concordo com Freud: a liderança cumpre um papel importante no fenômeno de massa. O problema é a qualidade dos líderes escolhidos. Digo problema porque isso não se aplica apenas aos Hernandes, o que mostra que, em geral, as pessoas têm feito péssimas escolhas. Seria por falta de instrução? Por escassez de lideranças melhores? Pelo fato do povo estar habituado à malandragem?
Ficam as questões e a constatação de uma realidade desanimadora, onde a ausência de pensamento crítico das massas parece não ter limites, tendendo por diversas vezes a uma alienação tamanha que chega a constranger qualquer espírito mais atento.
DANIEL POLIMENI MAIRENO é psicólogo em Cambé
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