ESPAÇO ABERTO
Acredite se quiser
Carlos Eduardo Bobroff da Rocha
Pode a determinação ser algo negativo? De fato, no momento em que ela se torna uma obsessão e passa a ferir interesses alheios, o mal pode advir, apesar de seus objetivos preconizados serem os mais nobres possíveis. Por outro lado, ela pode também fornecer respostas para que o ser humano possa se desenvolver por meio da busca de um bem maior que sua realidade.
Atualmente, o mundo vê suas idéias, outrora tidas como absolutas e corretas, desabarem. E dessa queda, surgiram as dúvidas e a busca por uma outra verdade. Cada grupo empenha-se nesta tarefa, sendo que alguns o fazem de modo incansável (para não dizer obsessivo). E a verdade que esses grupos buscam coincide? Não. Os homens não são iguais entre si e, logo, como se conseguiria transformar a verdade, um tema abstrato, em algo palpável para todos eles? Percebe-se uma das conseqüências a que a obsessão humana costuma levar: os conflitos, tanto os relacionados com os que impõem suas idéias (mesmo indiretamente), quanto os referentes aos que se defendem dessa influência. E no momento em que cada lado não abre mão de suas crenças, têm-se uma volta aos antigos instintos de sobrevivência (a lei da ideologia mais forte).
Embora acreditar piamente em algo tenha o aspecto exposto acima, há um ponto positivo: a necessidade de se atingir um objetivo que fora preconizado anteriormente e que, geralmente, denota algo grandioso, revolucionário, revelador. Muito se tem discutido a respeito de o mundo vivenciar exclusivamente o ideal do hoje, do descartável, do consumismo imediato, o que acaba denotando a falta de crenças sólidas. Conseqüentemente, isso leva a um estilo de vida marcado pela instabilidade (emocional, ideológica, social, etc.). Assim, o que era almejado na semana passada é substituído pelo objeto de desejo de cinco minutos atrás, e, na semana que vem, surgirá outro objetivo para preencher a vida tediosa e insatisfeita das pessoas. Observa-se que o espírito de determinação é, com isso, caracterizado pela estabilidade. Isto é, acreditando-se em algo, luta-se por isso, a pessoa se torna forte em muitos aspectos (o que contribui para seu amadurecimento), e ela não se deixa abater pelos apelos do consumismo.
Crença. Isto é o que move a obsessão e também a determinação. Para esta, a meta se torna maior, pois como não é limitada pelo imediatismo, ela tem a chance de crescer, de se tornar algo dinâmico, duradouro, e envolvendo-se com muitos outros aspectos (não somente com o hoje, mas também com o ontem e o amanhã). E para aquela, o problema principal é que a meta não possui a oportunidade de se expandir, visto que uma ideologia rígida e pragmática não deixa oportunidades para que as mudanças no estilo de viver da humanidade, bem como a convivência com outras crenças, se tornem parte dos objetivos e, com isso, os ideais continuariam inabaláveis (isso lembra aquele conceito de verdade absoluta, e sabemos o que ocorre à ela ao longo da história).
Dessa forma, o conflito deste século, marcado pelo avanço tecnológico e pela degradação dos princípios humanos (os quais seriam a família, as etnias, a religião, a infância,...) poderá ter um desfecho negativo ou positivo, dependendo da crença que o mundo adotar.
CARLOS EDUARDO BOBROFF DA ROCHA é estudante de Medicina na Universidade Estadual de Londrina
Vida privada e vergonha pública
Gaudêncio Torquato
Em seus escritos, Maquiavel relata a história de um rico romano que deu comida aos pobres durante uma epidemia de fome e, por isso, foi executado pelos concidadãos, sob o argumento de que pretendia fazer seguidores para se tornar um tirano. Há poucos dias, no Japão, o ministro da Agricultura suicidou-se, envergonhado por ter sido acusado de favorecer empreiteiras e receber propina. Um dia depois, o executivo de uma corporação subordinada ao Ministério imitou o gesto, suicidando-se ao se atirar da sacada de seu apartamento em Tóquio. O poderoso e respeitado Paul Wolfowitz é obrigado a deixar a presidência do Banco Mundial por promover e aumentar o salário da namorada, funcionária da instituição. Como se vê, os antigos romanos valorizavam ao extremo a boa conduta dos políticos. No Japão e nos EUA, a moralidade pública é um dever inalienável. Os exemplos mostram que a postura ética ocupa lugar de destaque na sala de estar do homem público.
A relação entre moral e política é útil para inserirmos os últimos acontecimentos, que apontam tênue limite entre a privacidade e o desempenho dos nossos representantes. É o caso do senador Renan Calheiros, sobre quem recaem suspeitas de relações espúrias com empreiteiras. A questão adquire grande visibilidade por se tratar do presidente do Senado e do Congresso Nacional, o terceiro cargo na linha sucessória da Presidência da República. Chamou atenção o discurso abordando o calvário, termo que Calheiros usou para o affaire amoroso com a jornalista com quem teve uma paternidade não programada, que atenuou o impacto do vendaval Gautama sobre a imagem do senador.
O caso só assumiu conotação perigosa ante a insinuação de que uma construtora teria arcado com a pensão alimentícia à filha que teve fora do casamento. Nesse ponto, o segundo pecado se encontra com a primeira suspeição (Gautama), induzindo à suspeita de favorecimento a empresas, o que - caso se confirme - poderia levar o senador a enfrentar a acusação de quebra de decoro. Tudo indica que não será crucificado, mas o episódio abre o sinal vermelho na estrada da relação entre empreiteiras e obras públicas. Renan cometeu equívocos. O primeiro foi usar a cadeira da presidência do Senado para se defender. A tribuna seria o lugar adequado. Dali falaria de igual para igual, dispensando a liturgia presidencial. Ao resgatar o tribuno Cícero, que defendeu o Senado de impropérios a ele dirigidos pela turba, cometeu outro equívoco.
Ademais, não há intenção deliberada de restaurar esses tempos no Brasil. Trata-se de dar visibilidade a fatos que contribuem para conspurcar a imagem de mandatários comprometidos com ética e moral. A atual tormenta não melhorará os padrões políticos. A permissividade, a contemporização, o corporativismo, a protelação de reformas e a sensação de mesmice continuarão a permear as nossas crises. E não se espere suicídio no Brasil em função da vergonha pública. Se assim fosse, o cemitério estaria entupido de homens públicos.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor da Universidade de São Paulo e consultor político em São Paulo
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