ESPAÇO ABERTO
Um outro olhar aos 'pobres prefeitos'
Renan Boldori Santos
De antemão, deixo claro que não fui, nem sou prefeito, muito menos servidor público nomeado. No entanto, não pude conter minha perplexidade ao ler sobre o recente posicionamento do Tribunal de Contas em ordenar prefeitos paranaenses a demitir absolutamente ''todos'' os seus chamados ''cargos de confiança''. A alegação apresentada pelo respectivo órgão, conforme apresentado por este jornal, é a de que o funcionalismo tem uma natureza essencialmente administrativa e permanente, cabendo obrigatoriamente, a realização de concursos públicos para a ocupação desses respectivos cargos.
Evidente que estabelecendo-se uma fiscalização mais intensa, torna-se possível a instrumentalização de ''rédeas'' a fim de evitar os famosos ''cabideiros'' de cargos em prefeituras. Ao mesmo tempo, a opinião pública, cujo o senso comum, permanece constantemente sedento por justiça, sente-se mais confortável, diante de uma possível moralização nas esferas municipais de poder.
No entanto, por um momento procurei me colocar na posição de prefeito, para compreender como ficaria uma administração sem nomeações? Ou seja, o caráter político de manutenção da governabilidade seria ceifado a ponto de reduzir um governante ao papel restrito de administrador? Estaria instalando-se nessa resolução uma espécie de ''demagogia moralista'' que tenta esmagar as atribuições de um chefe executivo, a legitimidade política, cujos privilégios foram legal e democraticamente garantidos pela maioria de seus cidadãos?
O próprio Rousseau, defensor ferrenho da democracia, na sua obra intitulada ''Contrato Social'', faz a seguinte declaração sobre o julgamento público: ''Ama-se sempre aquilo que é belo ou que se julga belo. É, porém, nesse julgamento que surge o engano, sendo, pois necessário regulá-lo.''.
O autor defende o bom senso nas democracias, ou seja, cabe única e exclusivamente ao povo, sanar suas insatisfações, mediante a realização de assembléias populares, participação ativa no processo eleitoral e até mesmo recursos ao Judiciário, se julgarem necessário, para conter os desmandos de seus respectivos governantes.
Portanto, se conceitos como autonomia, soberania e política não podem ser considerados atribuições legítimas ao principal cidadão de um município, então fica faltando apenas um decreto para realização de concurso público para provimento do cargo de ''prefeito'', assassinando de vez, com tiros de hipocrisia o coração da autonomia eleitoral.
RENAN BOLDORI SANTOS é geógrafo, especialista em Filosofia Política e educador da rede particular de ensino em Londrina
Bíblia e ecologia
Frei Ildo Perondi
''E Deus o colocou o homem num jardim para o cultivar e guardar!'' (Gn 2,15). A Bíblia nos ensina que quando o senhor Deus nos criou fomos colocados num jardim com a missão de cuidar, cultivar e guardar. Deus deu poder ao ser humano para que ele ''dominasse'' sobre todos os seres. O verbo ''dominar'' no sentido bíblico é ''dar nome'' e exercer o senhorio sobre a criação, isto é, praticar todo o cuidado, ser responsável e administrar a herança que recebeu.
Com o surgimento do capitalismo alguns entenderam que ''dominar'' era ser dono, ser proprietário e poder explorar todos os recursos da natureza a seu bel-prazer. Diziam que os recursos eram infinitos e renováveis e a exploração dos bens da Terra foi cruel. A natureza foi colocada a serviço do lucro e do ''progresso''. O resultado foi esta catástrofe que estamos vendo. O futuro que nos espera é incerto: aumento do calor, destruição da camada de ozônio, poluição dos rios e do ar, derretimento das geleiras, desaparecimento de espécies vivas, etc.
O ser humano não se tornou o administrador do jardim, mas sim seu destruidor. Se hoje fosse realizada uma assembléia em que todas as espécies vivas do planeta pudessem votar para expulsar a espécie que mais está prejudicando a Terra, por maioria absoluta, as criaturas iriam tirar daqui o ser humano. Infelizmente, estamos nos comportando como o pior de todos os animais!
A Bíblia não pode ser culpada por este pecado e esta destruição. Não soubemos ler a Bíblia. Ela nos ensina que o ser humano foi expulso do jardim, porque não soube se comportar, queria ser como Deus (Gn 3,23). Os habitantes de Canaã foram expulsos da terra porque não seguiam as leis de Deus (Lv 18,25). Lá Deus colocou o seu povo tirado da escravidão do Egito. Mas havia uma advertência: ''Se vós tornais a terra impura não vos vomitará ela como vomitou a nação que vocês precedeu?'' (Lv 18,28). De fato, o povo se afastou do projeto de Deus, não escutou a voz dos Profetas, em 721 a.C. parte foi para Assíria e em 586 a.C. Judá (o restante do povo) foi deportado para a Babilônia.
Há 800 anos, Francisco de Assis foi o profeta da Ecologia e do cuidado da Criação. A Igreja já promoveu várias campanhas da fraternidade sobre a vida e a natureza. Foram vozes proféticas que não foram escutadas. A natureza está nos mostrando os ''sinais dos tempos'' (cf. Mt 16,3) e não estamos escutando. Se continuarmos assim, vamos correr o mesmo risco de Adão, dos povos de Canaã, de Israel e de Judá: vamos ser expulsos daqui. A mãe Terra vai nos ''vomitar'', porque pode viver bem melhor sem nós!
É possível mudar de rota. A catástrofe ainda pode ser evitada. Não podemos destruir o jardim, pois toda a Criação pertence a Deus (cf. Sl 24 e 104). Devemos ver os sinais, ouvir os gritos e a dor da mãe Terra. Nós temos responsabilidade com as gerações que virão depois de nós. Vamos cuidar, cultivar, zelar, proteger e administrar com carinho este jardim que Deus nos deu! Ou então vamos receber o cartão vermelho de Deus! E não adianta querer reclamar que a falta era para cartão amarelo!
ILDO PERONDI é frei capuchinho e professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná em Londrina





