Medo e violência: o que fazer?

Rosângela Aparecida Saraiva Ferreira
  O aumento da criminalidade tem sido uma das maiores preocupações da sociedade. Os jornais publicam diariamente notícias de mortos e feridos, induzindo um sentimento de indignação e medo. Eu tenho me deparado com o medo diariamente. No final do ano passado tive meu carro arrombado, em frente à minha casa, ao meio-dia. Uma semana depois roubaram o carro do meu vizinho. Mais uma semana e arrombaram o carro do meu genro, também em frente à minha casa. Depois, levaram o carro do amigo da minha filha e mataram o rapaz; nem preciso dizer que minha filha ficou arrasada. Outros dois vizinhos também tiveram os carros roubados.
  Dias atrás, assaltaram a vizinha que mora ao lado da minha casa, e levaram sua moto, além da bolsa e os documentos, quando ela chegava da aula. Há uns dois meses um amigo da minha filha foi vítima de um seqüestro-relâmpago: abandonaram o garoto na saída da cidade e ele teve que andar alguns quilômetros para encontrar ajuda. Agora, o irmão dele foi morto no sábado, dentro de casa, quando tentava socorrer o pai que estava sendo assaltado enquanto lavava o carro.
  Tenho a sensação de estar em meio a uma guerra e uma das conseqüências dessa situação é a reação das pessoas, que exigem providências enérgicas no sentido de resolver o problema da criminalidade, preferencialmente, eliminando o criminoso.
  A própria Bíblia traz menções à pena de morte, em vários livros do Velho Testamento. Mas o que acontece nos casos de condenação de inocentes? Quem somos nós para decidirmos se uma pessoa deve viver ou ser eliminada? Quem poderá garantir que o pior assassino não possa regenerar-se? E aqueles crimes cometidos por aqueles que desviaram dinheiro público, destinados à construção de hospitais, escolas e compra de remédios? Não estariam os autores de tais crimes contribuindo com a morte de muitos brasileiros? Não se pode perder de vista que é importante respeitar a dignidade humana, mesmo a do pior assassino.
  É notório que estamos passando por uma crise ocasionada por uma conjuntura social, oriunda do acúmulo de pobreza, pela concentração de renda, pela exploração do mais fraco, que vem se acumulando nos poros da história. É importante entendermos que essa violência desenfreada não surgiu hoje, ela é o resultado de anos de desrespeito a problemas tais como o desemprego, a decadência das instituições responsáveis pela educação, saúde e moradia, a corrupção generalizada, o descrédito nas ideologias, o desrespeito ao meio ambiente e o crime organizado. É necessário termos sempre em mente que o mal está na raiz, e a raiz está na miséria social.
  Li certa vez um texto de Bertold Brecht que uso para guiar-me nos momentos de descrédito e desesperança. ‘‘Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta..., de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar.’’
ROSÂNGELA APARECIDA SARAIVA FERREIRA é bacharel em Direito e assistente social em Londrina


Solidários com os outros e conosco

Walmor Macarini
  Que não se perca de vista a solidariedade. Ela pode se manifestar por um gesto, uma palavra, uma ação. Com um pouco de humildade podemos atravessar o salão e ir cumprimentar alguém com quem tivemos alguma diferença; com um pouco de paciência podemos ceder passagem no trânsito, dar lugar a alguém mais velho, abrir a porta do carro para a mulher, a namorada, a amiga.
  Com um pouco de amor ao próximo - já que nos detemos para falar com tanta gente - podemos ouvir o suplicante que quer nos dizer alguma coisa, mesmo que seja para pedir. Porque é sempre melhor a condição de poder dar que a de mendigar. Muitas vezes as pessoas precisam de simples palavras de atenção. Ao final do dia, no balanço dos sim e dos não, nos sentiremos melhor pelos sim que temos pronunciado, em forma de palavras e de atendimento; pelo maior número das vezes que estendemos a mão, pelas atenções e sorrisos que temos dado - pequenas coisas que custam tão barato e que são preciosas para quem as recebe.
  Ninguém é tão rude que não se comova diante de um gesto solidário. Uma simples atitude pode mudar para melhor o humor de uma pessoa, fazê-la mais feliz naquele dia. Só isto já terá valido a pena. Muitas vezes temos deixado a solidariedade mofar, por pouco uso, e não somos solidários por vergonha. É verdade que são muitos os que sentem mais facilidade em manifestar grosseria do que delicadeza. A grosseria afasta, a delicadeza aproxima. E o excessivo zelo pela privacidade é uma atitude egoísta.
  Temos de ser solidários inclusive conosco, evitando o excesso de trabalho, de alimentação, de bebida, se possível despoluindo os pulmões e o ambiente pelo abandono do cigarro. E drogas, nem pensar! Nosso corpo é um santuário e temos de reverenciá-lo. Agradar nosso corpo não é egoísmo e nem culto à materialidade, mas autovalorização e um ato de responsabilidade. Depredar nosso corpo é tão nocivo quanto depredar a natureza e quanto violentar outra pessoa. Vamos vesti-lo bem, com roupas que nos agradem, naturalmente que dentro do possível.
  Devemos fazer coisas que nos façam bem. Isto é um dever de solidariedade que temos para conosco. E nos aprovar sempre, porque somos simplesmente o máximo. Não temos que dar ouvidos àqueles que pretendem fazer que nos sintamos pequenos. A sadia humildade não é fazer-se pequeno. Devemos nos cuidar bem, para assim cuidar melhor daqueles que eventualmente estejam sob nossa guarda. E sobretudo amar. Porque amar é também um ato solidário.
WALMOR MACARINI é jornalista na FOLHA DE LONDRINA


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