Escola pública de qualidade

Neide Spanguemberg Mello
  Considero equivocada a opinião de um educador de que a escola do Brasil ‘‘ensina muito pouco’’. Então como explicar o fato de que universidades e faculdades espalhadas por este país formam todos os anos um número tão expressivo de graduados, mestres e doutores nas mais diversas áreas do saber? Por quais escolas e salas de aula passaram? Quem foram os seus professores? De onde veio a formação básica e intermediária de todo esse contingente?
  Como educadora de escola pública posso afirmar que a escola de hoje se preocupa – e muito – com a formação intelectual do educando. Ela vai além do simples ensinar a ler e escrever. Desenvolve nele o pensamento analítico e crítico, permitindo que possa elaborar e reelaborar a leitura pontual do mundo contemporâneo no qual está inserido.
  A escola pública cumpre com acerto o seu dever. Com responsabilidade dá tudo de si para cooptar o aluno no aprendizado. O empenho é visível. No entanto, não podemos deixar de reconhecer que circunstâncias alheias podem, e como, influenciar a vida escolar do aluno. Neste contexto é possível relacionar com absoluta convicção a desestruturação familiar e a violência como realidades tão comuns que interferem no resultado final do processo educacional.
  É preciso lembrar ainda que a passagem do aluno pela escola é de curta duração, em relação com o restante do tempo do seu dia. As influências externas no seu círculo de relacionamento são acentuadas. Se boas, ótimas, agregam valores no aprendizado. Caso contrário, põe a perder muito do que foi repassado nos bancos escolares.
  Quanto à violência, outro sério fator que compromete a educação, não é a escola a sua geradora. Pelo contrário, ela recebe toda essa carga que transpassa os seus muros e chega até à sala de aula. Entre as razões, a ausência de instituições como a família, sociedade e, principalmente, o Estado. Elas transferem para a escola o que seria de suas responsabilidades. A família por não fazer a sua parte como núcleo primário de formação dos valores; a sociedade pela falta de engajamento na discussão do problema; e o Estado por negligenciar nas políticas públicas de enfrentamento.
  Portanto, se desejamos uma escola que possa oferecer uma qualidade de ensino melhor ainda, e isso é possível, precisamos antes corrigir estas distorções caminhando todos numa mesma direção.
NEIDE SPANGUEMBERG MELLO é pós-graduada em Meio Ambiente e Organização do Espaço e professora de Geografia na rede estadual de ensino em Rolândia


200 reais não trazem inteligência de volta

Paulo André Chenso
  Gostaria de asseverar ao nosso excelentíssimo presidente da República e as excelsas ‘‘autoridades’’ ligadas à Educação, que nem 200 reais, nem um milhão de reais, trarão de volta a inteligência dessas crianças, roubada pela fome e abandono a que os sucessivos governos de nossa pseudo-república as vêm submetendo. Se não for oferecida às crianças uma nutrição proteica adequada até os primeiros sete anos de vida (exatamente o momento em que serão solicitadas na escola), elas não terão mais condições de ‘‘alcançar’’, vamos dizer assim, as crianças adequadamente nutridas. E este dano é irreversível!
  Milhões de crianças nesta terra encontram-se nos níveis II e III de desnutrição calórico-proteica. Nosso governo confunde criança estufada de comer amido com criança nutrida. A esta tragédia da saúde infantil brasileira, soma-se uma escola abandonada pelos governantes, sem carteiras, sem materiais, com crianças sentadas pelo chão e até sem a merenda graças à incompetência e irresponsabilidade de alguns alcaides sem escrúpulos.
  Professores ganhando salários de fome que não lhes permitem a mínima possibilidade de aprimoramento, pois precisam dar um número de aulas muito acima do normal para conseguir uma renda mínima decente (professores também têm família, filhos, despesas...). Já vi escolas (no Nordeste), em que a professora vê-se obrigada a comprar o próprio giz!
  Essa associação quase secular de criança desnutrida e condições precárias de ensino não será corrigida com esta ridícula oferta de 200 reais para a criança que passar de ano - ser aprovada é uma obrigação da criança, e não um motivo para ela ser corrompida.
  Acredito que o governo, tão habituado ao absurdo nível de corrupção que grassa em seu próprio seio, acha que corromper crianças - e pais, por que não? - é o melhor caminho para resolver a questão da educação.
  Já imaginaram quantas crianças serão pressionadas e ameaçadas, senão espancadas por pais ávidos pelos 200 reais? Como diria o jornalista Boris Casoy: ‘‘Isto é uma vergonha’’!
PAULO ANDRÉ CHENSO é médico e professor em
Londrina


- Os artigos devem ter, no máximo, 30 linhas. Os artigos publicados não refletem, necessariamente, a opinião do jornal. [email protected].

mockup