ESPAÇO ABERTO
Por quem dobram os sinos?
Francisca Vergínio Soares
O assassinato do pastor Erinaldo Lopes da Silva, 42 anos, da igreja Poço de Água Viva, na Vila Casoni, ocorrido na noite do dia 19 de maio em Londrina, infelizmente, vem testificar a que ponto chegamos em termos do quão banal se tornou a vida humana.
Por quem dobram os sinos? Penso que os sinos dobram pelo pastor, mas também pelo autor do crime, seus familiares, pelos filhos e esposa do pastor e por todos nós que habitamos esse planeta que estamos desconstruindo para nossos filhos. A violência acompanha a história da humanidade. Ela é, portanto, constitutiva do homem. O que constatamos, na contemporaneidade, é a formação de uma cultura que tem um duplo papel: alimenta-se, e, ao mesmo tempo coisifica as relações sociais numa sociedade marcada por profundas desigualdades, por tradições políticas autoritárias, pelo incentivo ao consumo, o qual intensifica o individualismo e a indiferença aos valores humanos. Vivemos uma cultura da violência que talvez seja o principal produto da sociedade de consumo que deixou de ser apenas a aquisição de coisas materiais.
O que vemos? O abandono dos valores da tradição humanista, em seu lugar, surge um novo paradigma: o da banalização da vida e da morte em todas as classes, grupos étnicos, idades, sexo e raça. A cada voz que se cala como vítima da violência, a voz dos que ficam deveria gritar em tom de indignação para cessar esse jogo da barbárie e do extermínio. Quantos outros cidadãos precisamos ver morrer tragicamente? É preciso que a sociedade londrinense, reunindo poder público, setor privado, entidades sociais, universidades, artistas, donas de casa, intelectuais, estudantes, etc., unam-se para cessar o redemoinho da violência, por meio de uma campanha humanizadora, onde se possa somar esforços capazes de buscar caminhos viáveis para minimizar um dos principais problemas de nossa era. Caminhos que não seja apenas a sofisticação de políticas de segurança pública com o uso das forças repressivas do Estado.
No rastro da exacerbação da violência há unanimidade: é preciso fazer alguma coisa para freá-la. Mas fazer o quê? A solução é coletiva, considerando que segurança pública é um problema político e não técnico. Portanto, não há uma solução pronta, testada. Enfim, se cada segmento, cada cidadão fizer o que estiver ao seu alcance, não estaremos mais diante da violência, vista como uma entidade onipotente e onipresente, mas diante de uma prática que se pode inibir, desestimular e, sobretudo, apresentar uma alternativa que a substitua.
Sem dúvida, esse é o caminho para vencer a apatia motivada pelo medo social. Façamos como o presidente do Conselho de Pastores de Londrina, Joed Lamônica Crespo, questionado se a morte do pastor Erinaldo Lopes não irá inibir os religiosos a participar das vigílias, ele respondeu com fé: Não podemos nos intimidar, se estamos no caminho certo.
FRANCISCA VERGÍNIO SOARES é socióloga, doutora em Ciências Sociais e docente de Sociologia e Política em Londrina
Triangulação perigosa
Gaudêncio Torquato
Nada mais surpreende em matéria de corrupção no Brasil. A razão para a desesperança repousa na nova composição do poder dentro do Estado contemporâneo. A administração pública, a política e empresas privadas são os pólos da tríade que efetivamente tem o comando dos empreendimentos necessários ao País, alguns deles desvirtuados para ingressarem no balcão de negócios. Por sua abrangência e pela imbricação de seus eixos, a triangulação perigosa passa a ser o foco de investigações da Polícia Federal, deixando à mostra um paradoxo: o Produto Nacional Bruto da Corrupção vem crescendo. O salto do patrimônio de alguns políticos entre uma campanha e outra foi demonstrado por pesquisa. No ciclo FHC, o patrimônio de 32 congressistas, denunciados como mensaleiros e sanguessugas, cresceu 15%. No governo Lula, esse mesmo grupo aumentou em 31,7% seu patrimônio. Mais: os mesmos parlamentares, em 2002, gastaram em campanhas eleitorais R$ 6,3 milhões, montante que, em 2006, chegou aos R$ 47,9 milhões (aumento de 661%). Não se pretende aduzir que esse grupo tenha feito tramóias ou ganho dinheiro de forma desonesta. Muitos têm negócios fora da política e são empreendedores. Mas fica uma suspeita no ar.
A corrupção se expande sob a lupa de instrumentos de controle, entre os quais a Controladoria-Geral da União, a Polícia Federal e o Ministério Público. O número de denunciados em escândalos cresce. Sob os holofotes da mídia e o selo da eficiência, as operações policiais se sucedem. De 2006 até hoje, 221 ações foram realizadas. As CPIs também fazem o espetáculo. Mas os feitos acabam gerando uma reversão de expectativas. Os mensaleiros de ontem se safaram, alguns por obra e graça do corporativismo, outros renunciando aos cargos para voltarem ao Parlamento com as bênçãos dos eleitores. Nenhum dos 72 parlamentares acusados de ligação com a máfia das ambulâncias foi condenado. A lentidão da Justiça corrobora a sensação de impunidade. Veja-se a Operação Hurricane, que só ocorreu por conta da lerdeza judiciária. Os bingos vinham funcionando sob a proteção de liminares, até que se deu o flagrante da compra de sentenças para seu funcionamento. Como se pode exigir solidez institucional num país que eterniza situações sub judice?
A Operação Navalha envolve membros de nove partidos, enquanto na máfia dos sanguessugas foram acusados 72 deputados e senadores de nove siglas. Pela porta do mensalão, entraram 22 parlamentares de oito legendas. A polêmica abriga ainda o foro privilegiado que dá guarida ao mandato de representantes eleitos e à autoridade de juízes, promotores e ministros de Estado. Há cerca de 700 autoridades dos três Poderes nessa condição. A discussão de cunho ético-moral-jurídico embute a questão: a nomeação do magistrado pode ter sido aprovada pelos potenciais indiciados. Este é o arcabouço dentro do qual se fecham as combinações entre os eixos do novo triângulo do poder. E aqui se chega ao orçamento impositivo como meio para tirar parlamentares, governadores e prefeitos do jugo do governo federal. Sua aplicação fechará uma grande torneira da corrupção, porque tornará obrigatória a execução do Orçamento Geral da União, evitando que o Executivo mantenha a condição de liberar verbas.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor da Universidade de São Paulo e consultor político em São Paulo
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