ESPAÇO ABERTO
Desejo de onipotência: o complexo original
Dom Orlando Brandes
Uma criança educada sem disciplina e limites torna-se onipotente. Assume a posição de centro, quer as atenções para si, escraviza os pais, bate pé, vence pela birra, faz o que quer. A onipotência aqui não é culpa da criança, mas desvio na educação, que chamamos erros de amor. Todo onipotente vira prepotente e depois delinqüente.
Adão e Eva são símbolos do complexo de onipotência. Não aceitaram sua condição de criaturas, seus limites, seu barro e quiseram ser iguais a Deus. O complexo de Adão está arraigado em cada ser humano que elege o poder como supremo afrodisíaco. Dominação, exibição, racismo, machismo, são expressões do desejo de onipotência. O mercado globalizado de hoje é onipresente e onipotente. Comporta-se como divindade, esconde seus pés de barro. O ter foi elevado à categoria de endeusamento. A vontade de poder está globalizada. Eis o complexo original.
Outro aspecto do complexo de onipotência se manifesta em atitudes onde as pessoas escondem suas fraquezas, são vítimas do perfeccionismo, vivem o drama da autocondenação por não aceitarem seus limites e não integrarem suas fraquezas. Escondem e rejeitam suas sombras, seu lado fraco, seus pecados. Para manter a aparência há muito desgaste e sofrimento. A onipotência impede a transparência.
Na idade da adolescência, também fazemos a experiência da onipotência. O adolescente se torna independente, acha-se o único, questiona tudo, assume atitudes de ousadia, arrogância e agressividade, confunde grosseria com masculinidade. Sua onipotência, infelizmente, se expressa na teimosia, individualismo, liberalismo moral, velocidade no trânsito, imprudências de todo tipo, etc.
Outra manifestação da onipotência encontramos nas pessoas que atribuem a si, qualidades divinas. Acham-se iluminadas, inspiradas, intocáveis. Dão conselhos de todo tipo, invadem o íntimo alheio como se fossem infalíveis diretores da alma humana, fazem previsões, lêem os destinos, idolatram a si mesmas, fundam religiões, filosofias, instituições que tudo querem curar, tudo querem explicar, tudo querem dominar. É o complexo de Messias, de Salvador de quem se coloca no centro, tudo sabe, tudo resolve, tudo determina.
Complexo de onipotência sofre o alcoólatra, o doente, o viciado, enfim, qualquer pessoa ferida, mas que não aceita ajuda, que não se rende à sua fragilidade, isola-se, fecha-se, resiste. Só ele está certo. Todos os demais estão errados. Pior ainda, é quem não aceita a doença, a velhice e a morte por ser vítima do complexo de onipotência. A onipotência é um desejo de poder que exclui ou compete com Deus, mas elege ídolos, divindades, endeusamentos que só desgastam, corrompem e entravam o encontro com a verdade que liberta.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina
Chega de calmaria
Antonio Delfim Netto
É hora de aproveitar a situação favorável da economia mundial e a tranqüilidade que vivemos internamente para voltar a cuidar, pelo menos, de uma das reformas que a sociedade deseja e este governo têm condições de fazer: a reforma trabalhista. O Brasil tem necessidade de outras reformas, como a tributária e a previdenciária, mas não vamos ter ilusões sobre a viabilidade de tocá-las no curto prazo e ao mesmo tempo.
Externamente, há um clima de euforia, os ativos financeiros se valorizam, os preços das commodities estão ótimos, há enorme liquidez (ninguém sabe até quando), enquanto no Brasil também vivemos momentos de otimismo, com a inflação sob controle (a carestia parece que sumiu...), consumo em alta, expectativa de queda mais acentuada dos juros e ânimo renovado na possibilidade de retomada de um crescimento econômico robusto, o que significa a perspectiva de que finalmente haverá emprego para todos. É preciso, então, aproveitar o instante e enfrentar os problemas sérios que temos no mercado de trabalho, sob pena de frustrar-se mais uma vez a esperança dos brasileiros que procuram uma colocação decente, mas encontram a barreira intransponível da rigidez nas relações trabalhistas.
O presidente Lula mostrou disposição de reabrir a agenda da reforma trabalhista no discurso de inauguração do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social há duas semanas. Quando se imaginava que ele tinha esquecido a promessa de discutir com a sociedade a revisão das relações trabalhistas ele surpreendeu a todos, mostrando que esteve apenas contornando o problema à espera de melhor momento. Escolheu o instante adequado e usou a linguagem apropriada, dizendo aos companheiros que está na hora de perder o medo das reformas. É preciso conversar sobre as condições do emprego na economia em que vivemos, pois não é possível aceitar o engessamento de relações trabalhistas contidas numa legislação que tem mais de 70 anos, ainda do período da segunda guerra mundial, nos anos 40 do século passado. O presidente foi enfático ao garantir no final de sua fala que não se pretende tirar os direitos de ninguém, mas sim começar a discutir a melhor forma de exercer esses direitos num sistema de economia em que somente existe proteção para os que já estão empregados, enquanto os desempregados vivem no mais absoluto abandono.
Lula tem hoje um patrimônio político que pode utilizar para fazer as reformas, a trabalhista em primeiro lugar. Se ele levar adiante o processo, só por esse fato terá justificado a reeleição. Enquanto não temos os benefícios das reformas, a atual conjuntura econômica benigna deveria ser aproveitada pelo Banco Central para levar a taxa básica de juros no médio prazo para um nível entre 6.5% e 7%. Esse patamar é absolutamente compatível com o resultado dos juros pagos pelos bonds do Tesouro americano mais o risco-país de 140 pontos. Se não baixar os juros agora, quando a inflação está confortável em relação à meta, o câmbio valorizado, o consumo não pressiona os índices de preços e o país é favorecido pela imensa liquidez internacional, quando isso irá ocorrer?
ANTONIO DELFIM NETTO é professor emérito da FEA/USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e ex-deputado federal por São Paulo
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