A morte de Yeltsin

Moises de Godoy

Há anos que a literatura e o povo russo me despertam a atenção, tendo sido este país, em seu esplendor, o tablado mais teatral da Europa não-ocidental. Na juventude, havia a questão dos blocos irreconciliáveis, polarizados pelos Estados Unidos e pela Rússia.

Narra Gilberto Amado, no livro ''Os interesses da companhia'', que a mocidade da década de 30 era empolgada por um desses dois pólos e se sabe que, em novembro de 35, houve o levante comunista e, em maio de 38, o ''putch'' integralista e, daquele, muitos moços se evadiram inclusive para a Rússia, então sob os grilhões de Stalin, e Luiz Carlos Prestes aí foi doutrinado.

A história da Rússia registra que o problema fundamental remonta ao fato, não só da herança stalinista, como pela multiplicidade de existência de estados, o que tornava dificílimo o consenso, também a partir do econômico.

Arrigo Levi (in Entre Leste e Oeste) tenta encontrar um denominador que equalize as posições, o que não foi possível na era Gorbatchev, em que se pregavam a glasnost (abertura) e a perestroika (reconstrução), mas o mesmo continuou agindo com personalismos e, ao se aliar a Yeltsin, possivelmente haja pensado que o internacionalismo deste pudesse levar a resultados melhores.

Yeltsin, quando indagado se era socialista ou capitalista, respondia que apenas era adepto de que os russos vivessem melhor, material, espiritual e culturalmente.

Esse grande estadista nasceu a 1º de fevereiro de 1931, nos Urais, de família paupérrima e humilde, todos habitando um precário barracão de madeira, apenas aquecido pela presença de uma cabra, que lhes dava o leite e, em seu batismo, quase foi afogado por um padre embriagado, que teria dito: ''Se ele conseguiu sobreviver é porque é forte...'' E deu-lhe o nome de Boris.

Exímio atleta, líder nato, levou sua liderança para a Escola de Engenharia - onde se diplomou - e para o Partido, e o núcleo de seu pensamento político se baseava no resgate da individualidade russa, perdida no espólio de Stalin e no emaranhado do grande número de repúblicas que formavam a URSS e na reorganização do Estado soviético, livre de totalitarismos e dos nefastos efeitos dos burocratas de carteirinha, entendendo que a desigualdade equitativa se plantava na desigualdade natural das pessoas, embora pudessem ser superadas.

Pugnava pela rapidez nas mudanças e pela intransigente defesa democrática - nem que fosse à bala ou no comando de um tanque - e entendia como necessário o tratamento de choque para a transposição do socialismo a um capitalismo europeizado, nos limites de um internacionalismo racional.

Faleceu cercado de prestígio e era tratado como o ''urso russo que metia os pés pelas mãos nas visitas ao estrangeiro''; porém, dotado de carisma, de pulso forte, de largo senso de oportunidade e se encarregou de levar a cabo a transformação da alma do povo, colocando-a em níveis de modernidade e dotando-a de um identificador uniforme e reconhecível, como pregava o grande poeta que foi Ivan Turgueniev.

MOISES DE GODOY é advogado em Londrina





Jesus do nascimento aos 33 anos (1)

André Eduardo Pullin Lazzarini

Maria, Santa predestinada desde seu nascimento, foi agraciada com a visita do anjo Gabriel que, em sua santa mensagem, comunicou-lhe que fora a escolhida do Senhor. Ela não titubeou um instante sequer: ''Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a Tua palavra.'' (Lc 1,38). Jesus nasceu do ventre da Virgem Maria, e, conforme já havia sido antecipado, foi reconhecido como o Cristo por onde passou, desde seu nascimento, testemunhado pelos pastores que receberam a visita dos anjos do Senhor e anunciaram o nascimento do Salvador até seus últimos dias.

Temos que, já no dia da apresentação de Jesus no templo, como era costume e seguindo a Lei de Moisés (Lc 2,22), apareceu Simeão, que já tinha recebido a visita do Espírito Santo que lhe revelou que ele não morreria sem conhecer o Cristo do Senhor. E assim, impelido pelo Espírito Santo, a ir ao templo: ''Agora, Senhor, deixai o vosso servo ir em paz, segundo a vossa palavra. Porque meus olhos viram a vossa salvação que preparastes diante de todos os povos, como luz para iluminar as nações e para a glória de vosso povo de Israel. (...) Eis que esse menino está destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações. E uma espada transpassará a tua alma.'' (Lc 2, 29-32, 34-35).

Assim Jesus, sendo esperado por muitos, foi apenas reconhecido e aceito por alguns. Viveu uma infância normal, aprendendo tudo o que lhe ensinavam à época. Aos cinco anos, Jesus começou a frequentar, como todos os meninos de Israel, a Beth ha sefer, uma instituição docente equivalente às nossas escolas primárias, que dependia da sinagoga. Assim, teve suas lições escolares, e juntamente, religiosas. Aprendeu orações e rezava-as sozinho ou na oficina, junto de seus pais. Durante o dia, ao anoitecer, em voz alta, rezando e crescendo em sua religiosidade.

Sua inteligência para os ensinamentos do Senhor era superior, como podemos ver na sua primeira demonstração, aos doze anos, quando seus pais, ao voltar das celebrações da Páscoa de Jerusalém, perderam-se Dele, mas, achando que Ele estava junto de seus companheiros de comitiva, andaram um dia em seu caminho. Ao saírem para procurá-lo, perceberam que Ele havia ficado em Jerusalém. Somente o encontraram três dias depois, no templo, falando aos doutores, todos maravilhados com seus conhecimentos, quando respondeu à ansiedade de seus pais: ''Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu pai?'' (Lc 2, 49-51).

ANDRÉ EDUARDO PULLIN LAZZARINI é católico e médico veterinário em Londrina



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