ESPAÇO ABERTO
Brasil mais bento?
Manuel Joaquim R. dos santos
Quando o avião do Papa Bento XVI desapareceu na noite do último domingo no céu escuro de Cumbica, começava a digestão e a assimilação da maratona de discursos por ele proferidos nos mais variados ambientes. A V Conferência que decorre em Aparecida até ao final do mês foi o principal escopo da visita papal. A canonização do primeiro santo brasileiro o segundo motivo. O que veio, além disso, foi uma graça para o mundo católico e, se quisermos, para o Brasil.
O que é a realidade, pano de fundo da missão, perguntava o Papa aos conferencistas. Ela só tem consistência em Deus e nada mais! Se quisermos contemplá-la ou usá-la nas análises necessárias, o façamos na ótica da fé. Qualquer outra abordagem é mitigada e geradora de ilusões e sofrimentos. E por que os católicos ficam seduzidos por outras religiões?, partilhava Bento XVI com os bispos brasileiros. Porque a evangelização é deficiente! Mas como, perguntava-se o Sumo Pontífice. A evasão se dá pela falta de formação e pela lacuna cristológica, ou seja, Jesus Vivo e Verdadeiro - Caminho, Verdade e Vida - ainda não é apresentado com a centralidade e a importância que lhe pertencem. É preciso investir numa correta catequese centralizada na pessoa e mensagem de Jesus Cristo. Um discípulo com uma formação consistente não abandonará sua comunidade.
O marxismo, o capitalismo e as correntes autoritárias mereceram duras críticas. O primeiro se mostrou desastroso no leste europeu e em outras regiões e o capitalismo gerou fossos enormes entre ricos e pobres no Ocidente. Tentativas como as da Venezuela e outros países latino-americanos, de restaurarem o autoritarismo, levaram um puxão de orelhas do Santo Padre. Ele se mostrou confiante no progresso que a nossa jovem democracia está demonstrando. Poderia o recado do Papa ser diferente em relação ao aborto e a outros assuntos da moral sexual? É evidente que não! Intrinsecamente a Igreja é defensora da vida segundo o conceito que aceita: ela existe a partir da concepção. A vida não pertence ao ser humano! Ela o transcende. O Papa contempla o sofrimento de muitas irmãs que encaram situações constrangedoras de aborto? Claro que sim! Mas a mulher, diz ele, não tem o direito de se defender atacando um novo ser. A Igreja já chegou a canonizar uma médica italiana que morreu para não matar.
E o Estado? Deve ser laico? O Papa não abordou a questão. Mas a posição contrária da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil à instituição do feriado do frei Galvão já demonstra um posicionamento correto da parte da Igreja. O Brasil é um país com uma história invejável de tolerância religiosa e de sã convivência entre as inúmeras religiões. Em que pese o proselitismo de algumas. A democracia pressupõe de fato um Estado laico. Mas enquanto a secularização é benéfica, o secularismo é terrível. A Igreja quer que o Estado brasileiro aja com reciprocidade com a sua parceira, no que tange a tantos programas sociais e sanitários. Só isso!
MANUEL JOAQUIM RODRIGUES DOS SANTOS é padre na arquidiocese de Londrina
Boa entrevista de Lula
Antonio Delfim Netto
Na entrevista coletiva que concedeu esta semana o presidente Lula foi claro nas respostas que deu para três questões da maior importância. Defendeu a prioridade aos investimentos na hidroeletricidade e explicou didaticamente por que o atraso nos licenciamentos das usinas do rio Madeira vai custar muito caro ao País. Reconheceu os prejuízos que a supervalorização cambial está impondo a setores dinâmicos de nossa economia mas fez duas ressalvas muito sensatas, garantindo que o câmbio vai continuar flutuante e que por maior que seja a tentação não vai interferir na autonomia do Banco Central. E usou de absoluta transparência ao condenar o grevismo, advertindo os servidores públicos que vai mandar cortar o ponto dos ausentes: Nenhum brasileiro pode aceitar alguém fazer 90 dias de greve e receber os dias parados porque aí deixa de ser greve e passa a ser férias.
Em mais um momento da entrevista Lula foi feliz ao dizer que considera uma provocação à democracia brasileira qualquer proposta de um terceiro mandato e ainda defendeu enfaticamente uma reforma política para acabar com o instituto da reeleição à cada quatro anos, propondo sua substituição por um mandato de cinco anos. Do meu ponto de vista o sistema de reeleição sem desincompatibilização foi a pior mazela criada pela ambição tucana de poder, pois contaminou as instituições democráticas em todos os níveis e em todo o País com o vírus do continuísmo, multiplicando as antigas bactérias do nepotismo, do empreguismo e da corrupção eleitoral.
É também uma questão de justiça registrar a boa organização da entrevista e a liberdade que os jornalistas tiveram para complementar o questionamento sem maiores problemas, sugerindo que este é um encontro a ser repetido a intervalos menores que os dois meses prometidos. O resultado foi muito bom e não apenas para aqueles que torcem pelo sucesso do governo e do seu programa de desenvolvimento, mas substancialmente porque ajuda a oxigenar as engrenagens do sistema democrático. Mais ainda, a transmissão direta pelo rádio e pela TV favorece o entendimento da opinião popular sobre o desempenho de uma parte de nossa mídia que mal consegue esconder o preconceito que nutre em relação ao ex-retirante nordestino que se formou torneiro mecânico e se tornou presidente da República. Faço o registro dessa pobre realidade porque na manhã da última terça-feira, antes portanto da coletiva, tive a oportunidade de ouvir comentários desprimorosos na mídia sobre o que o presidente iria dizer na entrevista, do tipo as perguntas foram combinadas e não haverá nenhuma novidade nas respostas. Quer dizer: não ouçam, não vejam e não leiam porque não vão perder nada.
Não há o que estranhar: as instituições democráticas estão aí para garantir a defesa do contraditório, dos interesses políticos ou econômicos contrariados. A pobreza e a velhacaria estão no uso do direito democrático de fazer oposição para disseminar o preconceito, atitude tipicamente anti-republicana, lastreada no mais ultrapassado viés aristocrático.
ANTONIO DELFIM NETTO é professor emérito da FEA/USP, ex-deputado federal e ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento
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