ESPAÇO ABERTO
O espírito, a Igreja e a V Conferência
Dom Orlando Brandes
O que o Espírito quer dizer às Igrejas da América Latina e do Caribe? Encontramos no Apocalipse (Cap. 2 e 3) uma fala do Espírito às Igrejas daquele tempo. Precisamos escutar o que diz o Espírito. Ele é a autoridade máxima, a alma da Igreja, o advogado, o consolador, o amor. Em suas mãos está a V Conferência. As sete Igrejas da Ásia Menor necessitam de conversão.
A Igreja de Éfeso é uma comunidade decadente. Perdeu seu primeiro amor, caiu na rotina, na mediocridade, no pecado. Precisa reavivar seu encantamento missionário, seu entusiasmo por Jesus. O único caminho para uma Igreja decadente, é voltar ao maravilhamento do primeiro amor. Eis o que lhe diz o Espírito.
A Igreja de Pérgamo caiu na idolatria. Envolve-se com dinheiro, aparência, triunfalismo, estrelismos, carreirismos. O dinheiro, o poder e o sexo são ídolos que afetam profundamente a Igreja e erigem suas catedrais: os bancos, os motéis, os shoppings. O Espírito inspira a conversão, a volta, a transformação desta Igreja. Se não mudar, perecerá.
A Igreja de Tiatira não corrige os erros. Prefere ocultá-los. É infiel, quer fazer média, quer agradar e deixa o povo sem orientação e confuso. Reina em seu meio a confusão doutrinal, a divisão e a dispersão do povo. As doutrinas falsas não são corrigidas e os erros vão para debaixo do tapete. Vive-se de aparências. O Espírito inspira e confirma a verdade pela qual morrem os mártires.
Sardes é uma Igreja acomodada. Falta-lhe dinamismo, entusiasmo e ardor. Vive na instalação, na mesmice, no tradicionalismo. Estabeleceu um pacto com a mediocridade. É uma Igreja parada, engessada, estagnada, sem vitalidade. O Espírito a corrige, mostrando-lhe a alegria da Páscoa e a coragem de Pentecostes, além do sangue dos mártires e a ousadia dos missionários.
Laodicéia não é nem fria, nem quente, é morna. Merece ser vomitada. Está precisando do colírio que é a Palavra de Deus para poder ver sua própria cegueira. O Espírito inspira-lhe sensibilidade para descobrir sua miséria, seus erros e mediocridade. Esta Igreja puxa as coisas para trás, para baixo, para o menos. Contenta-se com o mínimo. Ela deve comprar vestes brancas que é a fé batismal, a filiação divina.
A Igreja de Esmirna é perseguida, difamada, vítima de preconceitos, críticas e complôs. Há inimigos dentro dela mesma. Sofre por ser fiel ao Evangelho, à boa nova para os pobres, doentes e pecadores. O Espírito confere-lhe coragem, perseverança, glórias e a coroa da vida. Alcançará a salvação.
A Igreja de Filadélfia é um exemplo de comunidade fiel. Guarda a Palavra, proclama Jesus Cristo e seu reino, crê no amor de Deus, espera as demoras de Deus, abre suas portas a Deus e aos irmãos, confessa suas fraquezas e procura conversão. Ela vence Satanás com a força da graça e recebe uma solene proclamação de Deus que lhe diz: Eu te amo. O Senhor promete protegê-la sempre e irá coroá-la.
Qual é a realidade das Igrejas (dioceses, paróquias) que a V Conferência encontrará? Parece que estamos vivendo algumas realidades parecidas com as das Igrejas da Ásia Menor. Desejamos que a V Conferência seja um novo Pentecostes.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina
Muros escondidos
Ana Cláudia Padilha Justino
Já se passaram mais de seis anos e ainda se mantém vivo em minha memória aquele fato que testemunhei, perplexa, uma criança de apenas quatro anos de idade, vítima de uma realidade triste e desumana. Era quase meio-dia e o Conselho Tutelar foi acionado para verificar a situação de uma criança no Posto de Atendimento 24 horas. Como estava de plantão naquele dia, fui atender o chamado pensando nas medidas a serem aplicadas diante de mais um caso de violência doméstica. Já estava habituada a atender casos assim, que já não mais me incomodavam.
Porém, o contato que tive foi intenso. Questionei-me diversas vezes se aquele sentimento de impotência e desânimo que me acometeu se dava porque naquele período, meu filho mais velho tinha a mesma idade daquela criança tão frágil e machucada. Nunca vou esquecer aqueles olhos que me fitavam com um ar de medo e que parecia gritar por socorro. Pior que ver aquela criança desfigurada, foi ouvir dos profissionais especializados os resultados constatados através de exames: traumas, abusos, seqüelas que jamais serão apagados ou amenizados pelo tempo.
Questionava-me o porquê de tamanha monstruosidade. Não bastasse isso, o genitor e a madrasta tentando incriminar uma criança de 11 anos de idade, irmã da vítima por parte de pai. É uma dura realidade saber que a exploração sexual de crianças e adolescentes está disseminada em todo país. Ao contrário do que se imagina, tal crime não tem ligação com a pobreza e a exclusão social. Trata-se de um problema que está relacionado com questões culturais como o machismo e as relações de poder entre adultos e crianças, de qualquer etnia, ricos e pobres. Pessoas consideradas acima de qualquer suspeita também estão envolvidas, usando e abusando do poder adquirido ao invés de mostrar dignidade e respeito para com os seres humanos.
É preciso denunciar a exploração sexual de forma efetiva e permanente, através de políticas públicas capazes de promover a proteção integral desses meninos e meninas, impedindo que sejam explorados no mercado do sexo. E aprimorar as medidas de atendimento de vítimas, familiares e também dos agressores. Deve haver justiça e consciência da sociedade e governantes em todas as esferas. A mim, restou apenas três certezas que, num inconformismo contínuo, sempre agrego forças que me impulsionam para a luta: a certeza de que estamos sempre começando; de que temos que enfrentar seja quais forem os obstáculos e que todos nós somos responsáveis em tornar o mundo um lugar melhor, e que mesmo entre escombros ou muros escondidos podemos fazer um pouquinho para mudar a realidade, muitas vezes apresentada de forma tão cruel.
ANA CLÁUDIA PADILHA JUSTINO é pedagoga e presidente da Associação dos Conselheiros Tutelares da Regional de Campo Mourão
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