Os holofotes sobre o império

Servio Borges da Silva
  No Império Romano a suntuosidade dos estádios era inigualável. Ali o povo se divertia vendo os cristãos massacrados, os escravos e os gladiadores se matarem ou serem assassinados com os instrumentos mais nefastos da barbárie medieval, valendo o pão e o circo para distração de muitos. Conta-se, inclusive, que Alexandre ‘‘o Grande’’, para entrar em Roma, exigiu a crucificação de três mil ‘‘condenados’’ na famosa avenida que dava acesso à capital daquele império.
  Saindo da Roma antiga, e voltando o olhar para o império brasileiro, constatamos que a suntuosidade de alguns estádios de futebol afronta a extraordinária miséria de parcela considerável da população, que vive momentos de incerteza, tragédia e dor. Que os infindáveis desfiles de moda, as alegorias das escolas de samba no Carnaval, o exibicionismo de supostas celebridades da televisão e o imenso desperdício de alguns poucos privilegiados, clamam aos céus diante de tanta leviandade.
  Quem são os responsáveis por tanta diferença na distribuição da renda nacional? Quem são os responsáveis pela enorme diferença dos salários de alguns apaniguados e de outros esquecidos ou excluídos sem direito a reclamar de coisa alguma? O imenso contraste vivido pelos excluídos de toda sorte e os bem-nascidos é visível a olho nu. Analisando com cuidado a situação dos brasileiros excluídos dos bens essenciais para sobreviver, se pode constatar o quanto o desinteresse, a descrença e o desprezo pelo ser humano praticados pelos donos do poder levou a sociedade ao verdadeiro caos social que vivemos hoje.
  Não se pode negar o caos, diante de tantos crimes horrendos, de tanta barbárie, de tantas balas perdidas, do desemprego e da imensa corrupção em boa parte dos poderes. Vivemos um momento de extrema indiferença, quando a vida humana, que é o bem mais precioso de que dispomos, não tem valor. A imprensa tem mostrado as prisões de algumas figuras notórias do país, levando ao conhecimento da população o que fazem alguns poderosos para auferir sempre mais e para lucrar com a desventura de muitos. Porém, é preciso que todos conheçam, bem de perto, a roubalheira praticada em nome do povo e o saque praticado até pelos supostos defensores da lei e da ordem pública.
  A sociedade tem a obrigação de exigir a limpeza ética, social e, principalmente, política do Estado brasileiro, sob pena de ser engolida pela sujeira da corrupção e do roubo. Nenhum país transformou a sua sociedade em civilização sem adotar os princípios básicos de cidadania, moral e dignidade do cidadão. Não basta o equilíbrio das contas do Estado, é preciso o equilíbrio dos direitos e deveres de todos os cidadãos perante a ordem jurídica estabelecida. Esse equilíbrio somente será obtido com justiça social.
SERVIO BORGES DA SILVA é advogado em Londrina


A Igreja cristã primitiva e a atual

Walmor Macarini
  As pessoas podem contestar o que desejarem, porque isto é do livre entender, mas nenhum fiel cristão que se dedique um pouco à leitura da história pode negar que a Igreja cristã primitiva (dos primeiros dois séculos d.C) se estribava no conhecimento dos mistérios. Em outras palavras, nos ensinamentos de Jesus. Essa Igreja, no entanto, não foi fundada pelo Mestre, porque ele não fundou corporação religiosa nenhuma. Sua Igreja era o seu ministério. Quando ele falou a Pedro da pedra sobre a qual edificaria a sua Igreja, referia-se à pedra angular de sua pregação.
  Essa Igreja original foi se extinguindo, porque a revelação dos conhecimentos da arte divina era de domínio de poucos. O imperador Constantino, no ano 306 da era cristã, adotou o cristianismo como estratégia política, porque queria a unidade em seus domínios e então popularizou-a. Ele dava pouca importância a detalhes teológicos e só desejava a unificação popular e a estabilidade social, por via da religião. A Igreja dos iniciados ia se diluindo, enquanto crescia a igreja da ‘‘gente do povo’’. Foi na crista dessa aproximação império/igreja que o Concílio de Nicéia estabeceu um código, e quem o contrariasse seria considerado hereje.
  O Papa Damaso ordenou ao teólogo Jerônimo (no ano de 384) que fizesse uma tradução latina dos Testamentos e elaborasse um novo texto, que viria a resultar na Vulgata Latina, a bíblia atual. Contra a vontade de Jerônimo, partes foram eliminadas e alteradas. Novas alterações da bíblia ocorreriam com o Concílio de Trento (em 1586) e nos papados de Xisto V (em 1590) e de Clemente VII. Portanto, a denominada ‘‘palavra de Deus’’ tem muito da revisão ordenada por esses papas. Damaso era violento e mandava executar os contrários. Contudo, ele não foi suficientemente hábil para eliminar tudo o que não lhe convinha, e a bíblia, bastante retalhada, ainda conserva em seus simbolismos o sentido do vínculo entre as coisas do Céu e da Terra.
  Retomando o fio da meada, não há como ocultar que as igrejas denominadas bíblicas são avessas às demais, falam muito em pecado, em punição divina e em ira de Deus, e citam muito o nome de satanás. Também não há como negar que estão omitidos nas escrituras os anos não conhecidos da vida de Jesus – dos seus 13 aos 30 anos. Inimaginável ignorar 17 de 33 anos de um mestre como ele. Começa-se agora a descobrir indícios de que ele fora estudar com os essênios (o papa Ratzinger admitiu essa possibilidade), com os sábios do Egito (berço dos iniciados, na época), com os budistas na Índia, com os monges do Nepal, com os magos da Pérsia, todos conhecedores da ciência espiritual, sublimadora da divindade do homem. Todo o ensinamento dessas doutrinas – que são anteriores à era crist㠖 tem similaridade com as palavras de Jesus. A Igreja cristã primitiva – Igreja no sentido missionário e não o corporativo – se estribava nesses conhecimentos, que emanavam de Jesus.
WALMOR MACARINI é jornalista na FOLHA DE LONDRINA

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