ESPAÇO ABERTO
Aborto, uma questão de saúde
Elaine Ferreira Galvão
Durante discurso no seu primeiro dia de visita ao Brasil o Papa Bento XVI teria dito que a Igreja quer apenas indicar os valores morais de cada situação, e formar os cidadãos para que possam decidir consciente e livremente (Bondenews, 09/05). Entendo que a decisão livre e consciente implica na negação de qualquer forma de imposição de restrição e de coação, bem como depende de uma apropriação de recursos intelectuais e materiais que instrumentalize a pessoa para decidir e agir de forma autônoma.
Garantir meios de informação e de orientação das mulheres visando promover sua autonomia para que possam tomar decisões livres, conscientes e responsáveis sobre a maternidade é uma das principais bandeiras pelas quais as feministas, muitas também mães e católicas, vêm lutando. A defesa da descriminalização do aborto se insere numa bandeira de luta mais ampla pelos direitos sexuais e reprodutivos que contempla reivindicações por uma assistência à saúde de qualidade, humanizada e acessível a todas as mulheres.
Atividades de educação em saúde, disponibilização de métodos contraceptivos e preventivos de DST/HIV/AIDS, assistência ao pré-natal, ao parto e ao puerpério (pós-parto), são ações que poderiam diminuir o número de gravidezes indesejadas e, conseqüentemente, de abortamento inseguro, reduzir as altas taxas de mortalidade materna, bem como conter a crescente incidência de Aids entre as mulheres, que nos últimos anos tem atingido principalmente as casadas. Enfim, ações que poderiam evitar o adoecimento e a morte de inúmeras mulheres, por causas muitas vezes evitáveis. Mas o silêncio a respeito das condições de saúde das mulheres brasileiras contribui para que nada mude.
O que o Estado e a Igreja têm a dizer sobre tantas mulheres que sofrem, adoecem e morrem na invisibilidade, vítimas da violência doméstica e da violência institucional? Mulheres que acreditaram estarem seguras no interior da sagrada família, e acabaram vítimas da violência e da dominação por parte de seus maridos. Mulheres que morrem em conseqüência da pobreza e da discriminação de uma sociedade que não lhes garante os meios para uma vida saudável, segura e digna e pela omissão do Estado perante as violações de seus direitos. Até quando o estigma da culpa e do pecado pesará sobre as mulheres, colocando-as como únicas responsáveis pela concepção e criminalizando-as por um ato cujas conseqüências físicas e emocionais já lhes causam tanto sofrimento?
A criminalização já se mostrou ineficiente na prevenção do aborto. Estima-se que no Brasil sejam realizados de 800 mil a um milhão de abortos anualmente. Além de ineficiente, a criminalização acaba por se constituir em mais um mecanismo de injustiça social na medida em que atinge, na maioria das vezes, as mulheres pobres, que por falta de recursos, recorrem ao mercado clandestino do aborto se submetendo a práticas inseguras. Diante disto, defendemos que o tema do aborto seja retirado da esfera penal devendo ser tratado como problema de saúde pública e questão de justiça social.
ELAINE FERREIRA GALVÃO socióloga especialista em Saúde Coletiva em Londrina
Consumo consciente: equilíbrio para a vida
Maria Eduvirge Marandola
O avanço do capitalismo intensificou as relações de consumo. Atualmente a maioria dos indivíduos não produz os itens que necessita, mas adquire no mercado. Para tornar possível essa aquisição trabalham para obter renda. Essa é uma situação resolvida da qual não se pode fugir. Porém, compreender a dinâmica que sustenta esse processo e ter autonomia plena das decisões e implicações é fundamental para uma vida saudável e equilibrada.
Primeiro cabe entender que as mercadorias ocupam o centro das atenções nas economias capitalistas, pois serão elas as responsáveis pela geração dos lucros. Portanto, é preciso vender muito para sustentar todo esse processo. Mas como manter o interesse do consumidor? Criando as mais diferentes necessidades! Graças ao mercado, só para citar um exemplo, temos cores da moda que irão predominar para cada estação! Muda-se também o formato do bico dos sapatos, os saltos, enfim uma infinidade de itens vive em constante mutação. Isso tudo porque para acompanhar as mudanças os consumidores necessitam descartar o velho e comprar o novo e é dessa forma que alimentam um ciclo cujo interesse maior repousa nos fabricantes sedentos de lucros.
Nos equipamentos eletrônicos também não é diferente. As funções são cada vez mais amplas. Por outro lado, é muito comum não se usar mais que 10% das possibilidades de um equipamento. Não condeno tantas opções, muito pelo contrário, a inovação tecnológica é um fator fantástico e trouxe inúmeros benefícios à humanidade. O que condeno é o exagero, os absurdos em termos de endividamento que algumas pessoas cometem para obter determinados produtos, muitas vezes somente por ostentação, que não serão utilizados na totalidade de suas funções sendo que, às vezes, poderiam viver sem eles. A busca desenfreada por mercadorias tem ofuscado a mente de muitas pessoas que se lançam em direção a aumentos de renda através de atividades que comprometem cada vez mais seus horários, levando uma vida estressada. De nada adianta ter um televisor em cada cômodo da casa se não houver tempo para vê-lo.
É preciso que cada pessoa saiba equacionar suas necessidades, independente dos fatores externos. Refletir sobre o que realmente necessita para o seu bem-estar e que está ao seu alcance, de acordo com o seu orçamento. O gerenciamento correto do orçamento evitará aborrecimentos futuros em relação a endividamento desnecessário. O planejamento adequado para cada aquisição de um bem possibilita melhores condições de compra e pode propiciar poupança, e certamente possibilitará investimentos presentes e condições financeiras mais favoráveis no futuro. É inegável que o consumo traz prazer, mas cabe o uso do bom senso para evitar que o prazer momentâneo se transforme em arrependimento e endividamento. O consumo consciente é um item fundamental dentro da educação financeira. Pais e escolas precisam ensinar às crianças desde pequenas sobre suas escolhas de compra e as implicações desse processo.
MARIA EDUVIRGE MARANDOLA é economista e professora no Centro Universitário Filadélfia (Unifil) em Londrina
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