ESPAÇO ABERTO
Guadalupe, Aparecida e a V Conferência
Dom Orlando Brandes
Nossa Senhora de Guadalupe é a padroeira da América Latina. Veio em socorro dos índios, dos pequenos e, ao mesmo tempo, deseja a formação da comunidade através da construção do templo. Chama o índio Diego de Dieguito, isto é, mostra seu carinho de mãe.
A mensagem de Guadalupe é: mostrar o amor, a compaixão, o auxílio e proteção de Maria para com o povo. Ela está grávida do sol, indicando assim a fé na divindade de Jesus, Filho de Deus, sol nascente que nos veio visitar (Lc 1,78). A Mãe diz ao índio: Não se perturbe teu coração; nem te inquietes com coisa alguma; não te aflijas. São palavras de consolação e encorajamento. Eis a Mãe da solidariedade e da consolação. Diego é elevado, por Maria, à categoria de embaixador digno de confiança, embora seja também o menor dos meus filhos. Maria acolhe o que o mundo despreza. Maria tem o rosto mestiço, deixa sua imagem gravada no manto (tilma) do índio. Ela pede ao índio que vá dialogar com o bispo. É a Mãe que reúne os filhos, promove a comunhão. Maria, com sua ternura e carinho, vem aliviar a opressão, a humilhação e a dor do povo. É a Mãe da solidariedade, mãe das dores, que permanece de pé ao pé da cruz dos seus filhos.
Na América Latina, Nossa Senhora aparece sempre em favor dos pobres (México, Colômbia, Venezuela, Equador, Peru, Bolívia, Chile, Argentina, Paraguai, Brasil). Por outro lado, o povo latino-americano e caribenho é profundamente mariano. Maria, a discípula do Evangelho na América Latina e no Caribe, vem em defesa dos oprimidos, da mulher e reúne a todos pela fé em Jesus, na Igreja, nossa mãe. A mensagem guadalupana é clara: estar do lado dos pequenos, dos sofredores, conduzi-los a Jesus e à participação na comunidade eclesial.
A mensagem de Aparecida é semelhante. Maria vem trazer a libertação contra a escravidão e a fome. Diante de sua imagem, rompem-se as correntes que prendiam o escravo. Os pescadores e os pobres têm em Maria aquela que reza: Os famintos serão saciados. A Mãe de Deus, como qualquer mãe verdadeira é contra a fome, a escravidão e discriminação racial. Aparecida também reúne o povo na comunidade eclesial, pois é missão da mãe Igreja estar do lado da vida e da dignidade humana e, ao mesmo tempo, ser a casa e a escola de comunhão. Maria, Mãe de Deus, na América Latina e no Caribe é mulher profética, que une a fé e o Evangelho com a realidade social e política e, ao mesmo tempo, é Mãe consoladora, doce, clemente e piedosa. Os índios, os negros, as mulheres, os pobres têm em Maria uma defensora e libertadora. Os santuários marianos acolhem o povo peregrino e pecador, mas têm a missão de evangelizar e promover a pastoral dos migrantes, do acolhimento e do combate à fome. São lugares de catequese do povo peregrino.
Por terem uma marca mariana, as nações sul-americanas e caribenhas, devem assumir o compromisso de unir fé e vida, oração e libertação, mística e política. Não podemos esquecer que faz parte integrante da missão da Igreja, a promoção humana e a defesa dos direitos humanos. Na verdade, nossa fé se comprova nos gestos e atitudes de amor fraterno. Esperamos que a V Conferência, a exemplo de Nossa Senhora de Guadalupe e de Nossa Senhora Aparecida, saiba promover a dignidade da pessoa humana, criar novas comunidades e colaborar na transformação da sociedade.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina
Frei Galvão, arquiteto
Christian Steagall-Condé
Arquiteto, mestre-de-obras e taipeiro. Quem diria, frei Antonio de SantAnna Galvão, primeiro santo brasileiro, foi exímio profissional da prancheta e do canteiro. Pelo reconhecimento de seus méritos, bem antes do Vaticano, recebeu o laico e importante título de sócio honorário do renomado Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB). É o que revela a pesquisa do emérito professor titular do departamento de História da Arquitetura e Estética do Projeto da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), Benedito Lima de Toledo.
Seu início nas lides da construção não foi nada tacanho. Uma primitiva ermida erigida nos Campos do Guaré, instituição dedicada a beatas e reclusas da Divina Providência, encontrava-se em total ruína. Frei Galvão, chamado a assumir a direção espiritual do lugar, invocou a si próprio as responsabilidades materiais. Foram cerca de 48 anos dedicados ao novo recolhimento, do projeto às obras às quais se encarregava pessoalmente. Na tapera de chão sem forro, de fachada tosca e dormitório acanhado, o arquiteto autodidata empenhou-se em bem-sucedida reforma e ampliação, original para a época, contando com acomodações mais saudáveis, corredores amplos com vistas para os pátios internos e horta para o trabalho das reclusas.
Tempos depois, novos desafios do mestre podem ser vistos e admirados até os dias de hoje em duas de suas principais contribuições ao amplo universo da arquitetura, destacando-se na cinza e anônima paisagem de São Paulo: a riquíssima Igreja do Mosteiro da Luz e a delicada capela da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, no largo homônimo. Ambos os projetos possuem a peculiar planta octogonal e, propositalmente, ambas as construções sofreram rotações em planta, em relação às suas orientações com o plano das ruas, um assombro à época e que raras vezes é exercitado pelos membros da classe e do ofício.
A pesquisa vai resultar no livro Frei Galvão, arquiteto, com ampla iconografia, um belo e necessário passeio pela história da arquitetura paulista e brasileira, na qual Frei Galvão, sem dúvidas, deixou importante assinatura. Só espero que o finado colega de ofício, às portas da consagração terreno-celestial, literalmente numa re-ligação (religgiare ) não seja invocado pelos arquitetos no combate às mazelas que consomem este imenso e viável país, impedindo-nos de avançar com dignidade, em todas as frentes. Das coisas aqui da terra, podem contar com os profissionais do ramo e seu imenso cabedal de conhecimento prático, teórico e estético. Afinal, até o santo já sabia disso: mãos à obra!
CHRISTIAN STEAGALL-CONDÉ é arquiteto e designer e vice-presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil em Londrina
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