ESPAÇO ABERTO
Energia suja x energia limpa
Antonio Delfim Netto
No artigo Quem polui o ambiente fiz uma observação que mereceu a reação de leitores céticos quanto às motivações dos que se apresentam como defensores do meio ambiente. Eu lhes dava o benefício da dúvida quando dizia que a paixão verde às vezes não deixa os mais ingênuos perceberem que na medida em que as hidrelétricas não são construídas abre-se o caminho para a utilização das máquinas mais poluidoras do planeta, as termelétricas. Nove entre dez leitores simplesmente se recusam a aceitar a hipótese que haja ingenuidade no trato desse problema crucial para o desenvolvimento brasileiro. As pessoas despertaram para a necessidade de se introduzir um pouco mais de racionalidade na discussão sobre a matriz energética, que hoje se trava em torno de uma premissa falsa: que a natureza sofrerá danos irreparáveis com a construção de barragens e instalação de usinas em nossos rios.
O desenvolvimento brasileiro nos últimos 50 anos foi turbinado pelas hidrelétricas que, além de não poluir o ambiente ofertam energia mais barata, o que tornou possível erguer todo um parque fabril e desenvolver o setor da agroindústria em condições de oferecer produtos capazes de competir vantajosamente com os demais países internamente e nos mercados mundiais. O Brasil passou a correr o risco de ingressar no clube da sujeira ambiental a partir do abandono da matriz energética estruturada com enorme competência e sacrifícios durante pelo menos duas gerações. Menosprezamos a importância desta energia limpa só na última década do século 20, infelizmente com a ajuda de ecologistas, ingênuos (ou não), forasteiros ou nativos com paixão pelo verde (que nem sempre é a mata) e de políticos interessados no voto dos verdes...
Há dois marcos realmente terríveis assinalando essa mudança. O primeiro foi a decisão de trazer gás boliviano para abastecer a indústria paulista. Em 25 de julho de 1997, em Corumbá (MT), na comemoração do contrato de construção do gasoduto Brasil-Bolívia o então presidente da República discursou anunciando a mudança da matriz energética: Estamos mudando toda a matriz energética brasileira, aumentando a proporção relativa do gás e, portanto, diminuindo a proporção relativa de outras fontes energéticas... Energia que não vai depender da inundação de áreas, ferindo, muitas vezes, o meio ambiente. Quantos defensores da natureza, ingênuos ou não, aplaudiram com entusiasmo o discurso do estadista FHC?
O segundo momento foi a confissão do presidente, em 2001, quando compareceu à TV para dizer que o governo tinha sido surpreendido com o apagão energético, coisa que até as esquinas de Brasília anteviram quatro anos antes. O desmonte da matriz e a dispersão das equipes de planejamento do Ministério de Minas e Energia prenunciavam a crise que custou a bagatela de 2% de crescimento do PIB naquele ano. A solução de emergência foi a importação de termelétricas a petróleo, o equipamento mais poluente do mundo. A demora em conceder as licenças ambientais para a construção de hidrelétricas, a pretexto de proteger o meio ambiente, tem um custo elevadíssimo para a economia e, ao contrário do que imaginam muitos ecologistas, inocentes ou apenas úteis, oferece a oportunidade para a substituição da energia limpa pela sujeira das termelétricas e mais adiante pela energia nuclear.
ANTONIO DELFIM NETTO é professor emérito da FEA/USP e ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento
Crianças são o futuro do país?
Sônia Maria da Silva Liasch
Não se pode duvidar que as crianças são o futuro do país, mas perante as condições encontradas em quase todo o Brasil, essa pergunta se torna crítica. Drogas, bebidas, cigarros, abandonos, dor e sofrimento. Esse é o caminho seguido por muitas crianças. Será que é mais fácil? É culpa delas? Ninguém nasce de um espirro, todo mundo tem um pai e uma mãe, nem que seja até nascer. Aí é que vem o maior problema. Condições precárias, tanto financeiras como psicológicas e físicas, nem todo mundo sabe ou quer educar uma criança.
O que resta a essas crianças são as ruas, cheias de oportunidades e perigos, que passam a ser o lar de tantos pequenos futuros do país. Podemos fazer algo para mudar essas condições? Claro que podemos fazer alguma coisa. E podemos fazer muito. Só que não fazemos. Temos que cobrar dos governantes que nós escolhemos. Temos que fazer cumprir as leis. Cada cidadão, individualmente, deve fazer sua parte, dar a sua contribuição.
O direito da criança e do adolescente não deve ficar só no papel. As crianças têm direito à educação, ao respeito, à dignidade e a um lar. Isso sim, toda criança precisa e merece, mas o que se vê? Violência, exploração, crueldade e abandono, um ambiente aterrorizante e constrangedor. A cada esquina que se passa, em pequenas e grandes cidades, encontram-se crianças vendendo doces, drogas e até o próprio corpo colocando em risco sua própria vida para tentar sobreviver, na maioria das vezes obedecendo ordens dos próprios pais.
Para onde vai o dinheiro dos impostos que a sociedade paga? Foram gastos em campanhas políticas milionárias? Ou talvez num avião exclusivo para o pobre presidente, que precisa de mais conforto e privacidade? A folclórica frase, o brasileiro não desiste nunca, já deixou de ser frase de efeito, pois o povo não desiste mesmo, mas parece que não consegue nada também.
Está na hora de cobrarmos nossos direitos de cidadão digno de respeito, que só paga impostos. E como ficam as crianças? Nessa situação, perde-se a infância, a adolescência e muitas até a vida! E a responsabilidade não é só dos governantes, é de cada um de nós também. É isso que será o futuro do país?
SÔNIA MARIA DA SILVA LIASCH é professora de Arte do Ensino Fundamental e Médio em Londrina
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