Dez pensamentos do papa Bento XVI

Dom Orlando Brandes
  Estará entre nós o papa Bento XVI. É um privilégio e uma bênção sermos confirmados na fé e no amor a Jesus e a seu reino de amor, verdade, justiça, alegria e paz. Vejamos dez palavras do papa:
  1. Estabelecer profunda amizade com Jesus e comunicá-la aos outros. O que de mais belo pode acontecer em nossas vidas é sermos alcançados por Jesus e abrir as portas do coração ao seu amor misericordioso.
  2. A Igreja vive do Evangelho porque Cristo vive nas Escrituras. A leitura orante da Bíblia levará a Igreja a uma primavera espiritual. A Igreja deve ser eco da Palavra e depois fazê-la ressoar até os confins da terra.
  3. Nada antepor a Cristo Jesus. Em primeiro lugar vem a adoração depois a reflexão e a ação. Cristo torna a vida livre, bela e grande. Cristo seja tudo em todos. Pensemos com os pensamentos de Cristo, para termos os seus sentimentos. Jesus é a medida do verdadeiro humanismo.
  4. Transformemos os desertos em jardins. Há desertos internos e externos como a pobreza, a solidão, o amor destruído, o afastamento de Deus pelo pecado. Transformemos este vale de lágrimas em jardins.
  5. Vive-se hoje a ‘‘ditadura do relativismo’’. Caem as instituições e aumenta o individualismo que destrói valores, desobedece a verdade e endeusa a individualidade. Precisamos da obediência da fé que nos torna livres.
  6. É preciso reconstruir a unidade plena e visível de todos os seguidores de Jesus. O ecumenismo é como a subida de uma montanha, mas é preciso prosseguir a escalada. A oração, o diálogo e a amizade ajudam mudar as mentes e os corações em favor da unidade.
  7. O mundo não muda se o mal não for vencido pela força do perdão. A misericórdia põe limites ao mal. O perdão destrói o mal. O mundo foi salvo pelo crucificado e não pelos crucificadores.
  8. Cada pessoa é fruto de um pensamento amoroso de Deus. Cada um de nós é querido, amado e, portanto, necessário. Deus não é indiferente ao drama da sua criatura. O amor vence tudo. Rendamo-nos ao amor que se expressa no êxodo e no êxtase, ou seja, no sair de si e estar no outro.
  9. Todo trabalho pastoral, todo ministério eclesial é um ‘‘oficio de amor’’. Apascentar é amar. Evangelizar é amar. Toda ação pastoral brota do amor e leva à santidade. É preciso estar com Cristo para estar em missão. Estar com Ele é estar em movimento.
  10. Eu sou um ‘‘frágil servidor de Deus’’. O exército dos santos me protege, sustenta e conduz. Preciso de vossa oração, vossa indulgência, vossa fé e vosso amor. Necessito também de conversão e purificação. A missa é o centro do meu dia e da minha vida. Meu programa não é fazer minha vontade, mas pôr-me à escuta da vontade de Deus.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina


Amarga vitória contra a criminalidade

Carlos Eduardo Bobroff da Rocha
  A redução da maioridade penal de 18 para 16 anos representa uma doce e amarga vitória contra a criminalidade. Tanto é verdade que esta possível lei, caso seja aprovada de fato, já nasceu ultrapassada. Não é preciso ressaltar o sofrimento de pais que perderam seus filhos devido à ação de outras crianças. Isso já é visível. Assim como a maioria da população compreende que a violência urbana atingiu índices semelhantes à de países em guerra civil. O medo da sociedade perante à insegurança e à incerteza é inegável. E medidas como a redução da maioridade penal podem ser vistas como a salvação para todo este caos.
  Realmente, criminosos devem ser punidos, principalmente quando se constata que tais autores planejaram seus atos ilícitos. Além disso, nos últimos anos, a população cansou de conviver com a impunidade, o que traduziu-se como o abandono aos cidadãos por parte do Estado. Finalmente uma doce vitória. Embora temporária.
  Determinar somente a redução da maioridade é um ato incompleto. Daí o gosto amargo da vitória. Imagine o seguinte: muitos jovens serão presos, as cadeias já superlotadas não terão condições de abrigarem este novo contingente, enquanto questões como a integração nacional dos serviços de combate ao crime, o reaparelhamento e a melhoria das condições de trabalho da polícia e dos agentes penitenciários, o combate ao tráfico de armas, e a aplicação de penas a homens influentes (políticos, empresários, juízes), dificilmente serão o foco das atenções. Mais uma vez as políticas públicas se baseiam no medo e na raiva dos cidadãos para eleger bodes expiatórios (os menores envolvidos com o crime) e, com isso, manter no anonimato alguns de seus atos envolvidos com a violência urbana.
  Interessante também é que tal lei pune em especial os jovens criminosos, e não os chefes das organizações. Assim, sem coibir os adultos responsáveis por aliciar os menores na vida criminal estimula-se outras crianças a ingressarem no submundo do crime. E mais crianças que não estão envolvidas com os atos ilícitos tendem a ser também as futuras vítimas. O Brasil pretende continuar colocando na cadeia os ‘‘ladrões de galinha’’? E as crianças, independentemente de sua classe social, merecem este futuro? A ironia disso é que em propagandas políticas, é famoso o jargão: ‘‘No sorriso de uma criança está o futuro de um país...’’.
  Esta lei é uma representação de um Estado debilitado em sua autoridade e em sua credibilidade. Ao mesmo tempo que insiste em negar sua parcela de culpa para a questão da violência urbana, o Estado adota medidas vagas e dotadas, ora de caráter eleitoreiro, ora como fachada para seus crimes, ou até mesmo como demonstração de perda de controle da situação. Enquanto isso, aguarda-se o dia em que a questão da violência passe a ser tratada, de fato, como um assunto que envolva todos, desde inocentes até culpados. E, criando, por fim, condições para o futuro do país. Que este dia, o dia das crianças, possa chegar.
CARLOS EDUARDO BOBROFF DA ROCHA é estudante de Medicina na Universidade Estadual de Londrina


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