ESPAÇO ABERTO
Os garçons e as novas tecnologias
Ariovaldo Santos
Aparentemente um fato curioso, a matéria ''Seu garçon, faça o favor de me trazer depressa...'', publicada domingo por esta FOLHA, revela muito mais do que se possa supor. Na realidade, ela expressa um fenômeno que marcou o setor industrial nos anos 1990 e que, aos poucos, vai penetrando no setor de serviços, inclusive nas atividades de refeição e restaurantes. Isto é, a penetração de práticas do toyotismo como instrumento de potencialização dos lucros.
Na prática, o toyotismo, modelo organizacional pensado e estruturado por Taiichi Ohno, no Japão, razão pela qual também é chamado por Ohnismo, representava uma tentativa da indústria automobilística para dar conta das produções em larga escala em um país tão pequeno. Para tanto, se buscou operacionalizar com a redução de estoques e a produção em ''just-in-time'', ou seja, em tempo preciso.
Aparentemente restrita à indústria, esta prática acabou se estendendo, em variáveis diversas, a outros ramos de atividade, para ser integrada, inclusive, no serviço de atendimento dos garçons.
Exemplos das formas organizacionais da indústria transportados para o setor da alimentação rápida têm crescido em Londrina. Assim, pode-se encontrar na cidade desde o modelo fordista em uma lancheria até o princípio do kan-ban, em uma churrascaria.
Agora, chega a vez dos garçons, com o que, diga-se de passagem, vai se extinguir, provavelmente, aquela cena já clássica, folclórica e, em certo sentido, previsível, de acenar torcendo para que alguém veja que a cerveja ou pizza acabou.
São as tecnologias invadindo os mais diversos ramos de atividade, acelerando o ritmo de trabalho. No caso em questão, elas penetram em uma atividade em geral precarizada e de alta rotatividade, denominadas pela Sociologia do trabalho sob a expressão ''empregos MacDonalds''.
Efetivarão, com certeza, a alegria dos clientes, mas, para além disto, trarão com implicações no que concerne ao aumento do ritmo de trabalho, uma vez que, entre uma mesa e outra, há aqueles breves momentos de pausa para repor as energias do ato repetitivo de andar sem parar de um lado para outro.
Assim, se antes a preocupação era em olhar para as mãos, doravante é a luz que se acende, de tal modo que, a médio prazo, será necessário investigar com maior cuidado quais os desdobramentos desta ''feliz'' inovação, que nada mais é do que a face diferenciada do ''gerenciamento por stress''.
ARIOVALDO SANTOS é doutor em Sociologia e professor do departamento de Ciências Sociais na Universidade Estadual de Londrina
Dia do Trabalho: comemorar e refletir
Roland Hasson
O que têm os trabalhadores para comemorar hoje? Século XXI, pós-modernidade, tecnologia de ponta: biotecnologia, raio laser, nanotecnologia, computador, celular, fax, fibra ótica, satélite, avião a jato, ônibus espacial... o mundo interligado instantaneamente. Nas fábricas, o que demorava muitos dias para ser feito, hoje é feito em horas. Que progresso...
O mundo unificou-se; não existem mais dois blocos políticos e econômicos; o capitalismo venceu. Lembro-me de um livro chamado A Revolução Mediata. Nele, o autor dizia que o país mais socialista do mundo era os Estados Unidos, na medida em que era o lugar onde o well fare state (Estado do bem-estar social) mais se fazia sentir. Os direitos trabalhistas lá, acordados com os sindicatos, fortes, nivelam o sistema; na ausência de negociação sindical, vale o negociado entre as partes. É arraigado no povo o sentimento de dignidade, como se um se colocasse no lugar do outro. Ser processado por descumprimento de contrato trabalhista, nem pensar. Vive-se bem nos Estados Unidos. Todos os trabalhadores ganham o suficiente para viver, com dignidade.
No Brasil, é só o que se quer. Mas a mentalidade é diferente; aqui, vale a lei de Gerson - todos querem levar vantagem, inclusive uns sobre os outros e todos sobre o Estado. Desrespeito à lei, corrupção, trapaça, também em relação aos empregados. Não se anota a carteira, há salário por fora, não se pagam horas extras, não se recolhe o FGTS e não se paga a Previdência Social. Temos, anualmente, dois milhões de processos na Justiça do Trabalho. O sistema - só não vê quem não quer - está falido. Deve ser mudado.
A proposta de alteração em voga é a da Emenda 3. Por ela, nenhum fiscal pode autuar uma empresa ao entendimento de que o cidadão que ali está trabalhando é empregado (diz a lei, art. 3º da CLT: considera-se empregado toda a pessoa física, que presta serviço de natureza não eventual a empregador, sob a dependência deste, mediante salário). Quer se cobrir o sol com a peneira, ou, mais explicitamente, quer se garantir a fraude. Inexistirão empregados, mas sim e somente, pessoas jurídicas.
Proponho que haja uma garantia de emprego aos empregados. Vale dizer que eles passem a integrar o patrimônio da empresa, não podendo ser desligados senão de acordo com o estabelecido na Convenção 158, da Organização Internacional do Trabalho, convenção acolhida por mais de 100 países do mundo, ou seja, motivadamente, seja porque razão for, mas sempre com base em critérios (primeiro o mais novo na empresa, solteiro, depois o casado sem filhos, depois o com um filho, etc).
O trabalhador tem que se sentir parte da empresa. A partir daí, é fácil negociar qualquer coisa, com seriedade. A lei poderá assim determinar, o que será tido como favorável ao empregado e também favorável à empresa. A transparência e o caminhar juntos do empregado e do empregador fará diminuir o intuito de se levar vantagem, tanto do empregado, quanto do empregador. Com a garantia de emprego, a lei poderá prever a possibilidade de reduzir salário, aumentar a carga horária, diminuir o período de férias, extinguir o pagamento da gratificação de Natal, enfim, poderá possibilitar a manutenção do emprego e da empresa, sempre que o imperativo assim determinar; sem fraude, mas em parceria.
ROLAND HASSON é advogado trabalhista em Curitiba e procurador do Estado do Paraná





