Violência se aprende na escola?
Fábio Luís Martins


Esta indagação merece algumas atenções. Há ações violentas fora da escola, mas que nestes ''templos da verdade'', muitas vezes inquestionáveis, ocorrem as mais diversas formas de violência também. Muito se tem falado dos ''maus'' alunos, daqueles que não se enquadram nos padrões comportamentais da sociedade e da escola, mas pouco se tem falado dos ''maus'' professores.
A ação violenta é resultado da combinação de vários fatores já demasiadamente discutida pela sociedade, e várias ''supostas'' resoluções para este problema foram arquitetadas. Dentre elas, melhor distribuição de renda, melhor acesso e qualidade nas ações públicas de saúde, lazer, etc.. Mas o destaque é o forte papel da educação. Fala-se em tirar as crianças das ruas e colocá-las em centros culturais e educacionais, institucionalizaram o ensino integral. Mas aí está um outro problema. Será que a educação escolar é capaz de minimizar a violência urbana? Ou será que ela reforça e até mesmo aumenta tal violência?
Falarei do ensino público, por ser o meu local de ação, e o responsável direto pela verdadeira mudança da sociedade (isto é o que a sociedade espera e até mesmo os papéis oficiais trazem). Sem precisarmos entrar no espaço escolar já observamos um aspecto desta violência, uma violência exercida através do desrespeito de pessoas que administram direta e indiretamente a instituição escolar. Aliás, desrespeito às leis é o que se vê com frequência nas escolas.
Professores e funcionários em geral sem seus direitos trabalhistas resguardados, salas com um número de alunos superior ao estipulado, professores e funcionários em quantidade insuficiente para que uma educação de qualidade possa ser almejada, sem falar da infra-estrutura que em muitos casos fica muito a desejar.
Nas salas de aula vimos uma outra face desta violência, conteúdos escolares sem sentido à vida das crianças e adolescentes - aulas chatas. Há um desprezo e preconceito perante a identidade do aluno, onde o que é tido como certo está na escola, os alunos estão errados, e tudo o que lhes pertence têm de ficar lá fora ou são retirados à força quando entram os portões da escola. Esta imposição de conhecimentos e valores, tidos como certos para um grupo, são feitos na maioria das vezes por agressões verbais e corporais/comportamentais.
Os alunos não têm voz e nem vez nas escolas. E quando ações violentas partem do aluno, esta violência tem como resposta mais violência, por parte dos alunos e o pior, por parte dos professores da escola. Assim a família e a sociedade-comunidade são responsabilizadas, sem que se pare um segundo para pensar que a escola faz parte das relações sociais vividas por este aluno, que esta lá para aprender.
FÁBIO LUÍS MARTINS é professor da rede municipal de ensino em Londrina

Modernidade e ética
José Mario Angeli


A modernidade, como forma social de vida capitalista, traz no seu seio a crítica social, forma de se contrapor, ao modelo de vida desta sociedade. A ''pós-modernidade'' elegeu a ética como funcionamento do agir do indivíduo. A ética é uma doutrina das virtudes e da conduta moralmente correta que fornece ao homem um padrão de comportamento, porém ela não discute criticamente os fundamentos últimos da sociedade capitalista e, por isso, é incapaz de construir esse novo modelo de vida.
Na Grécia e na Idade Média havia uma forma social de vida petrificada. O nexo das noções normativas e as formas socioeconômicas permanecem às escuras. Petrificadas no ''pater famílias'' proprietários de terras. A reflexão filosófica se dava ao lado de uma ''ética metafísica'', desenvolvida pelos proprietários, e, nada mais era que a doutrina do ''bem viver'' e da ''felicidade''. A ética ocupava-se com diversas formas de prazer, de abstinência e de uma ''vida bem-sucedida''. O objetivo da filosofia grega era estetizar a existência humana cujo nexo socioeconômico permanece tão obscuro como na ''ética'', pois o caráter social da ética era fazer da vida do indivíduo uma ''arte'': a arte de si mesmo.
Na modernidade surge uma consciência de formações socioeconômicas, de crise e de transformações da sociedade. Isto, não quer dizer, que fizesse a sociedade alcançar uma consciência crítica. Pelo contrário, com o surgimento do dinheiro, o homem passou atê-lo como elemento centralizador e delimitador da sociedade. Isto não quer dizer que antes não havia dinheiro - Sófocles na Antígona observou o dinheiro como ''uma instituição fatal que atormenta os espíritos virtuosos dos homens'' - havia mas de forma marginal. Na modernidade a vida social foi submetida ao movimento da valorização do dinheiro como um fim em si mesmo. O dinheiro passou a ser o grande objetivo da vida dos homens. Marx, disse que ele é ''a grande prostituta''.
O pensamento filosófico na modernidade irá permanecer ainda metafísico. Liberto da religião, a metafísica celeste substituirá a metafísica terrestre do dinheiro. A valorização e a insaciável reprodução do dinheiro pelos homens colocaram o processo revolucionário em crise. Isto, irá cindir a velha ordem reproduzindo em formas novas a modernidade e consequentemente possibilitando um desenvolvimento linear, sem rupturas das transformações sociais e com um agravamente: o indivíduo irá buscar cada vez mais a sua auto-realização no dinheiro.
O retorno da ética se dá neste contexto de pós-modernidade. Ele colocou em crise a crítica social. A crítica deveria ser feita pelas forças sociais contrárias à forma social capitalista: desagregadora, injusta e individualista. Estas forças deixaram de compreender as contradições e as estruturas da sociedade capitalista para compreender a subjetividade do indivíduo. Uma sociedade marcada, pelo dinheiro e pela consciência desarmada, tornou-se presa fácil da ''ética'', agora fundada no pós-moderno, passou a ser o modelo de ''uma vida bem realizada'' .
Nesta sociedade o que importa é o auto-esteticismo do indivíduo. Isto é, a arte de bem viver e a arte de si mesmo, conta mais que o conjunto da sociedade. Ela perdeu a capacidade de reflexão: condição da existência humana. Ela precisa funcionar. Mas, uma sociedade que funcione, deixa de ser mais humana, pois perdeu o sentido e os objetivos transcendentais da vida, com isso, o pensamento normativo da ética caiu no vazio.
JOSÉ MARIO ANGELI é professor no departamento de Filosofia na Universidade Estadual de Londrina

mockup