ESPAÇO ABERTO
Conservação dos nossos rios
Sirlei Bennemann
Existem muitas ações benéficas que podemos realizar para cuidar dos nossos rios. Inicio com a mais importante delas: manter o rio sem nossas interferências, deixá-lo em seu estado natural. Esta ação (não fazer nada), no entanto, é a mais difícil, pois sabemos que não existe mais nenhum grande rio, como também nenhum de seus principais tributários, em condições de integridade natural. Isso porque extraímos os seus peixes, suas matas ribeirinhas, suas águas, a areia de seu canal, diamantes e tudo o mais que nos interessa.
Extrair tudo o que um rio nos proporciona não é o pior dano que causamos, mas sim o que introduzimos em suas águas. Esse sim é o maior malefício que causamos, como por exemplo: jogar esgotos, lixo de todos os tipos, venenos e substâncias nocivas aos organismos vivos e, mais do que tudo, introduzir espécies de peixes e de outros animais. Daí vem uma questão para pensarmos: de onde as pessoas e a comunidade, em geral, têm informações e conhecimentos para concluir que a melhor ação para conservação e cuidados com os rios é introduzir peixes em suas águas? Eu imagino que o critério para isso vem do exemplo - por sinal, péssimo - das ações políticas. Os políticos colocam peixes nos rios, porque sabem que a população os admira por esse gesto e, para tanto sempre fazem uma grande divulgação dessas ''belas ações'' que realizam. O que, de fato, cada um pode fazer para melhorar a qualidade da água são as pequenas atitudes praticadas no cotidiano, mas estas não são divulgadas e nem mostradas nos jornais, na televisão, tampouco nas emissoras de rádio.
Por último, esclarecendo, quero dizer: colocar peixes no rio é a pior ação a ser realizada; é ruim para o rio, para as espécies que já estão lá e para os peixes introduzidos, pois dificilmente sobreviverão. Além de tudo, considerando as leis das águas, esta ação trata-se de um crime ambiental. Se o rio estiver em boas condições, as espécies de peixes estarão se renovando e reproduzindo naturalmente, não sendo necessário desperdiçar tanto dinheiro com investimentos na criação de peixes para dar maus exemplos à população e danificar ainda mais os rios, ao invés de praticar atitudes corretas para a conservação.
O ponto de partida para ações adequadas na referida questão é, antes de tudo, conhecer o ambiente e as espécies que lá existem no seu estado natural.
SIRLEI BENNEMANN é professora da Universidade Estadual de Londrina e pesquisadora de peixes
Plano diretor e documentação histórica
José Miguel Arias Neto
Recente polêmica sobre a transferência da documentação histórica do Museu Pe. Carlos Weiss para o Centro de Documentação e Pesquisa Histórica (CDPH) no Campus é um alerta para os elaboradores do Plano Diretor da Universidade Estadual de Londrina.
A questão não é tão simples como aparenta, pois trata-se da fusão de dois acervos documentais, ou melhor dizendo, da absorção do acervo do Museu pelo CDPH. Assim sendo, o acervo do Museu perderia sua organicidade uma vez que os documentos seriam incorporados ao acervo do CDPH de acordo com sua própria organicidade. A SAM (Sociedade Amigos do Museu) tem razão em reivindicar que a documentação do Museu lá permaneça. Isto por que, a própria constituição dos acervos arquivísticos possuem uma história que deve ser preservada e estas transferências, rearranjos, reorganizações, etc., representam ao cabo uma ameaça à identidade do próprio conjunto documental e à memória social do grupo que a constituiu (HALBWACHS, Maurice La mémoire collective. Paris: PUF, 1950). Assim, documentos históricos não são um ''amontoado de papel'' a ser deslocado de um lado para outro sem maiores consequências.
Para os historiadores, arquivistas e, principalmente, para os grupos que produziram a documentação e a instituição que a abriga, os documentos constituem a identidade social de um grupo que deve ser preservada. O que deve fazer o planejador da UEL não é unificar os acervos do Museu e do CDPH, mas sim se preocupar - juntamente com a direção e com os conselhos dos dois órgãos, com a SAM e com a comunidade - em estabelecer uma política documental unificada para que os mesmos falem a mesma linguagem arquivística, se desenvolva uma política de preservação conjunta e se evite a duplicidade de projetos sobre o mesmo ''objeto'' ou conjunto documental que Museu e CDPH podem compartilhar através das modernas técnicas informacionais e arquivísticas.
Mas a integridade de ambos os acervos não pode ser ameaçada. Os documentos representam a memória e a identidade de grupos e setores sociais, das quais a universidade é apenas guardiã e com os quais deve ter um compromisso inequívoco, uma postura democrática reconhecendo a legitimidade das várias identidades sociais, políticas e culturais representadas na documentação histórica de uma cidade e de uma região.
JOSÉ MIGUEL ARIAS NETO é professor do departamento de História e coordenador do Centro de Documentação e Pesquisa Histórica da Universidade Estadual de Londrina





