Bíblia, missão, solidariedade e V Conferência

Dom Orlando Brandes

O Papa Bento XVI fará a abertura da V Conferência de Aparecida (13 a 31 de maio). O lema da Conferência é: ''Discípulos e Missionários de Jesus, para que Nele nossos povos tenham vida''. Este lema contém um endereço, um rumo e uma opção pastoral para a Bíblia, a Missão e a Solidariedade.

Por que discípulos? Porque temos muita gente batizada e até consagrada que vive longe do Evangelho. Discípulo é quem segue Jesus, vive a vida de Jesus, dá primado ao Evangelho. Quantos de nós somos cristãos, católicos, batizados, mas não somos discípulos, vivemos como pagãos. A Igreja quer nos apontar a Bíblia, a Palavra de Deus, como prioridade pastoral, como alma da Igreja, como opção de vida. Temos catecismo, códigos de leis, livros, mas grande parte dos católicos são analfabetos bíblicos. Que podemos esperar de uma religião ou uma Igreja fraca em Bíblia e sem a Palavra de Deus? Nosso futuro é mergulhar na Bíblia e com a leitura orante, os círculos bíblicos, os cursos de formação bíblica, chegaremos ao ''catolicismo bíblico'', verdadeira primavera da Igreja.

Sem o discipulado vivemos apenas um verniz cristão, quando precisamos é da raiz do Evangelho. Avançaremos para águas mais profundas. Em 2008 o Sínodo dos bispos em Roma terá como tema central a Palavra de Deus. Tudo indica que a Bíblia vai ser a grande fonte inspiradora do futuro da Igreja. Que assim seja.

Por que missionários? Se a Igreja não for missionária, ela é inútil. A missão é para que os pais ensinem religião aos filhos, a Igreja visite as escolas e universidades, padres e leigos, formem Grupos de Reflexão nas ruas com visitação das casas, catequistas façam dos catequizandos novos missionários. A missão deve atingir os centros urbanos, as matas amazônicas e ir além fronteiras lá onde não há fé, nem Igreja, nem dignidade humana. Todas as pastorais devem ter opção missionária e assim toda a ação da Igreja.

Espera-se da V Conferência a motivação para uma ''Grande Missão Continental''. Missão que será permanente, constante, diária. Passou o tempo da missão temporária para a missão do dia-a-dia. Para isso, precisamos nos impregnar do ''espírito missionário''. As grandes missões continuarão existindo para fomentar a missão permanente. Toda hora é hora de missão, todo ambiente é lugar de missão, toda pastoral e todo movimento eclesial é força de missão.

Para que nossos povos tenham vida. A V Conferência assinala a necessidade da Igreja confirmar a luta pela vida, pela saúde, pela dignidade humana, pela justiça. É a dimensão social da fé. Sustentar o mutirão de combate à fome, denunciar a corrupção, preparar bons políticos, enfim, globalizar a solidariedade e a inclusão. A Igreja deve ser povo da vida porque Deus é o Deus da Vida. A autêntica Teologia da Libertação está viva e o profetismo que vem da Bíblia e da inspiração do Espírito haverá de ser reforçado, para que todos tenham vida plena. A solidariedade será o sistema social do futuro da vida.

DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina





O Estado e o crime organizado

Luiz Fernando Delazari

Assistimos estarrecidos a prisão de desembargadores, juízes e outros integrantes dos poderes da República, em uma operação da Polícia Federal contra a máfia da jogatina. Ao lado deles estavam notórios contraventores, figuras que os brasileiros se acostumaram a ver nos telejornais. Os que são pagos pelos cidadãos para aplicar a mão pesada do Estado foram flagrados lado a lado com aqueles a quem deveriam combater.

Isto revela o risco que estamos expostos quando as estruturas do Estado são contaminadas por organizações criminosas. Não é o caso de prejulgar ninguém, mas não se pode ficar indiferente quando o último esteio da garantia dos direitos do cidadão, o Poder Judiciário, se vê envolvido com grupos criminosos. Afinal, os flagrantes envolvem membros da cúpula do Tribuanl Regional Federal (2 região) e podem chegar a uma corte superior, o Superior Tribunal Justiça. É a comprovação que precisamos colocar o dedo na ferida.

O combate ao crime é dever do Estado. Nesta missão não cabe tolerância. A autoridade tem que assumir o ônus de atitudes antipáticas para preservar o Estado. No Paraná fomos incompreendidos por combatermos a indústria da jogatina. Houve quem visse nas ações da Polícia apenas o fechamento de postos de trabalho numa sociedade carente de empregos. Mas, não tínhamos dúvidas de que essas atividades serviriam de fachada para operações ilícitas.

É preciso lembrar que antes do Governo Requião, o Paraná era exposto na mídia nacional por conta de escândalos financeiros, como o espetacular esquema de lavagem de dinheiro com as contas CC-5 do Banestado, a CPI do Narcotráfico, os desmanches de veículos, as fraudes com precatórios, o caixa dois de campanhas políticas. Vimos nomes da cúpula dos poderes envolvidos até a medula com o crime organizado, como o próprio ex-secretário da Fazenda, beneficiário de uma operação fraudulenta contra os cofres da Copel. Era o Estado posto a serviço de quadrilhas.

Foi um combate incansável desde o primeiro mandato do governador Roberto Requião. Esta é uma tarefa que obriga as autoridades, mas não prescinde da participação do cidadão. O respeito à lei é a única garantia que nós temos de que nossos direitos serão respeitados, desde o ''guarda da esquina'' à última instância do Poder Judiciário. Nos anos 70, um delinquente ficou famoso no Brasil mais por uma frase que proferiu, do que pelos crimes que cometeu. Chamava-se Lúcio Flávio Vilar Lírio e bradava: ''Polícia é polícia, bandido é bandido''. Essa sentença soava como um alerta à sociedade, parte dela condescendente com as arbitrariedades praticadas em nome de uma suposta segurança nacional. O resultado, todos conhecemos, e a sociedade apreendeu, ainda que lamentavelmente da boca de um criminoso. Mas a verdade prevalece: ''Polícia é Polícia, bandido é bandido''. E é assim que tem que ser.

LUIZ FERNANDO DELAZARI é secretário da Segurança do Paraná

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