ESPAÇO ABERTO
Ridículo e previsível
Antonio Delfim Netto
Se não se tratasse de uma questão que envolve o setor energético, talvez não se devesse levar muito a sério a oposição que o presidente venezuelano Hugo Chávez e o ditador cubano Fidel Castro estão fazendo ao desenvolvimento da produção de etanol no Brasil. Os dois publicaram artigos ridículos dizendo que o aumento da produção do álcool vai provocar a fome no mundo. Como em matéria de energia nada é gratuito, eles encontraram algum eco na mídia mundial. Entende-se a posição de Chávez porque seu país tem reservas imensas de petróleo e é um dos maiores exportadores, deixando à sua disposição uma riqueza que ele vai dissipando como fosse de sua propriedade pessoal. Em tais condições não interessa o sucesso da produção de uma fonte alternativa de energia, não poluente e economicamente viável. O caso do outro é compreensível porque recebe os benefícios da dissipação da riqueza venezuelana e precisa disso para continuar vivendo.
Em que pese o despropósito daquela colocação, há brasileiros que se deixam enganar, às vezes por falta de esclarecimento sobre o que efetivamente representa a produção do etanol no conjunto da economia agrícola do país. O Brasil é auto-suficiente na produção de alimentos e ainda tem disponibilidade de terras para ampliar essa produção numa escala muito importante, de forma que não existe o problema da competição entre a cultura dos canaviais e a produção de alimentos. Há um desenvolvimento muito forte tanto nas tecnologias dos alimentos quanto no setor sucro-alcooleiro, resultando em importantes aumentos de produtividade. Neste, o desenvolvimento se dá com a utilização de melhores variedades de cana, com os avanços tecnológicos na extração da energia contida na planta e também nos processos de comercialização. E ainda estão em marcha vários experimentos e pesquisas que dentro de mais algum tempo, com muita probabilidade, vão nos permitir fabricar álcool a partir da hidrólise da própria massa da cana.
Todos esses avanços na produção do álcool e do açúcar, na produção própria da energia elétrica e nos demais aproveitamentos que o processo permite, representam um acréscimo importante de renda no setor agrícola como um todo, sem prejuízo de outras áreas de produção rural. Não temos, portanto, de nos constranger por quaisquer tipos de oposição externa como a levantada pelos dois excitados timoneiros caribenhos.
Internamente sempre é bom renovar o alerta de que estamos ignorando a urgência da reconstrução de nossa matriz energética, negligenciando o aproveitamento do potencial hidrelétrico e incorrendo nos mesmos erros que resultaram no tremendo apagão energético de 2001, durante o segundo mandato de FHC. De lá para cá não cessou o processo de destruição de nossa matriz energética devido basicamente à desmontagem do setor estratégico de planejamento estatal, ao esgotamento da capacidade do investimento público e à inapetência do governo diante da necessidade de oferecer as devidas garantias ao setor privado e dividir com ele os riscos dos investimentos.
ANTONIO DELFIM NETTO é professor emérito da FEA/USP e ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento
Teatro Municipal de Londrina
Cláudio Bravim
Em artigo publicado na FOLHA na última segunda-feira sobre o concurso para a escolha do projeto arquitetônico do Teatro Municipal de Londrina, o colega Eduardo Suzuki disse: ''Aos derrotados só resta a crítica''. Não entendo que este seja o melhor espírito para participar de um concurso, principalmente porque não somos sempre perdedores. Não entro aqui no mérito do projeto vencedor - para isto o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) colocou uma notória comissão julgadora -, mas sim no questionamento que fez de todo o processo do concurso.
Tive a oportunidade de acompanhar os procedimentos adotados para se organizar um concurso nacional de arquitetura, os detalhes, a logística, a segurança, a lisura, etc., procedimentos realmente inquestionáveis. E mesmo assim, aos descontentes, o edital previu um prazo legal para contestação do resultado, e acho que se não o fez em momento oportuno, agora só resta a grandiosidade do reconhecimento, não só do projeto vencedor, mas de todo o processo administrado pelo IAB-Paraná.
Com relação ao julgador pé-vermelho, realmente concordo com o Suzuki, e informo que esta foi uma solicitação minha, o único arquiteto do IAB-Londrina, em uma mesa repleta de arquitetos do IAB-Curitiba, e o resultado é que fui voto vencido.
Parabenizo todos os profissionais locais que participaram, respeito suas considerações e indignações, mas fico mais indignado ainda com a falta de união dos arquitetos londrinenses, do trabalho conjunto gerando força e representatividade. Este exemplo do teatro é um grande incentivador para pararmos de olhar para o nosso próprio umbigo e, depois do leite derramado, sairmos atirando para qualquer lado, inclusive arquitetonicamente falando.
É este o grande objetivo do IAB-Londrina, união e integração, e você, Suzuki, como os demais arquitetos locais, já foram convidados a participar mais ativamente, não somente das questões que envolvem as normativas profissionais, como também em discussões que envolvem a verdadeira ciência de projetar Arquitetura para, enfim como profissionais habilitados, atuarmos ativamente na legislação da cidade que direciona e viabiliza qualitativamente os espaços em que vivemos.
Do IAB-Curitiba, resta-nos seguir o exemplo de união e força, pois estão aqui trabalhando, e vão continuar já que não conseguimos sequer, apesar das faculdades de Arquitetura aqui existentes, acordar para o que acontece com nossa cidade.
Isto caros arquitetos, é a indignação, o verdadeiro paradigma a ser quebrado.
CLÁUDIO BRAVIM é arquiteto e presidente do núcleo Londrina do Instituto de Arquitetos do Brasil





