ESPAÇO ABERTO
Ingenuidade e câmbio
Antonio Delfim Netto
A economia brasileira tem hoje condições bastante favoráveis para crescer de forma robusta, sem constrangimento externo e com razoável estabilidade interna. Podemos acreditar que está no horizonte próximo uma nova etapa de desenvolvimento num ritmo semelhante aos que tivemos ao longo de nossa história, com raras interrupções, a pior delas nas duas últimas décadas. A economia mundial e o comércio entre os países cresceram bastante nesse período abrindo possibilidades imensas de expansão que infelizmente aproveitamos quase nada. Mesmo com a diminuição do ritmo de crescimento da economia mundial as oportunidades não desaparecem. É aí que o Brasil continua deixando de aproveitá-las porque insiste numa política míope que desestrutura sua base industrial e inibe o crescimento de nossa participação no comércio mundial.
A miopia consiste em manter uma política que estimula a supervalorização do Real que se processa graças ao elevadíssimo nível dos juros brasileiros, ainda os maiores do mundo. Nossa moeda se apreciou muito mais do que a média das divisas dos demais países porque sustentamos a possibilidade de ganhos sem risco em operações de arbitragem que se valem do enorme diferencial entre as taxas de juros internas brasileiras e os juros externos. É esse diferencial verdadeiramente escandaloso entre a nossa taxa de juro real e a do resto do mundo que permite a especulação no mercado futuro sobre o dólar e mantém o real valorizado.
O resultado é uma taxa de câmbio que inibe as exportações e está destruindo uma parte sadia do setor industrial brasileiro que de um lado vê piorar ainda mais as condições de competir no mercado externo e de outro se vê esmagado pela concorrência desleal do produto estrangeiro. O Real supervalorizado favorece ainda mais as importações de países onde o câmbio está em relativo equilíbrio ou se desvaloriza em relação ao dólar, onde o nosso concorrente obtém crédito a juros de 2% real ao ano e paga 20% de impostos. É com esses produtores que o industrial brasileiro tem que competir no mercado externo, pagando juros de 20% ao ano, uma carga de 38% de impostos e ainda com o câmbio desfavorável porque nós preferimos sustentar os lucros sem risco dos especuladores dos mercados financeiros.
Estamos destruindo novamente as condições de competitividade de importantes setores da indústria brasileira, especialmente a que contrata o maior número de trabalhadores (tecidos, calçados, móveis, por exemplo), acreditando em falsos argumentos difundidos pelos agentes dos mercados financeiros de que ''o câmbio é uma coisa natural, decorrente de causas naturais'' e por isso não há nada a fazer a não ser comemorar...
É total ingenuidade nós não querermos aceitar que há alguma coisa de muito errada no fato de o Real ter se transformado na moeda mais valorizada do mundo e na ''commoditie'' mais desejada. E é manifestação de miopia não perceber que isso só continua a acontecer devido ao absoluto predomínio que o sistema financeiro passou a exercer sobre o sistema produtivo.
ANTONIO DELFIM NETTO é professor Emérito da FEA-USP e ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento
Fidelidade partidária: será que sai?
Marco Antonio Cito
Há duas semanas tivemos uma notícia que serviu como refrigério a todos aqueles que se indignam com a condição política de nosso país e suas consequências. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Marco Aurélio Mello, e demais desembargadores em decisão inédita (sem valor de lei, bom que se diga), definiram que o cargo eletivo (em todas as esferas) é do partido e não do político, o que já está servindo agora de base para ações na Justiça dos partidos que tiveram sua representação diminuída pela dança das cadeiras causada pelo troca-troca de siglas às vésperas da posse no início deste ano.
A razão da troca é, desgraçadamente, evidente: com o início dos trabalhos no Senado e na Câmara Federal os políticos dos partidos de oposição (DEM e PSDB, principalmente) são cooptados no sentido de mudarem de sigla para os partidos da situação. Dessa forma, podem, votando a favor do governo, ter ''vantagens'' que não teriam na oposição. Não estou aqui ressuscitando o mensalão, e nem se é necessário, falo ''apenas'' de cargos, indicações para diretorias de estatais, etc.
A decisão inédita do TSE é, portanto, uma esperança. O eleitor quando vota, é verdade, vota no candidato, porém o candidato faz parte de um partido, este declaradamente oposição ou situação. Quando este mesmo candidato muda de barco antes de começar a trabalhar, cai em flagrante desrespeito ao eleitor que, votando em um partido de oposição, está dizendo claramente que não concorda com a política atual e quer mudanças. E o que verá? O ''seu'' candidato, ora oposição, votando a favor das políticas que este eleitor não concorda.
Os efeitos, além do citado acima, são ainda mais desastrosos. A democracia é maculada nessa ''nociva'' atividade. O equilíbrio entre as diversas expressões de pensamento existentes no Brasil fica à margem, trocado por interesses pessoais. Dentre várias discussões acerca da reforma política, a fidelidade partidária é a mais urgente. Não podemos mais admitir que o povo demonstrando sua vontade nas urnas, não a veja sendo realizada na prática.
A dança das cadeiras se torna assim um desastre ideológico, imoral e vexatório. De corar os brasileiros decentes que gostariam ao menos, que sua vontade no voto, única arma contra tudo o que hoje se vê, fosse ouvida.
MARCO ANTONIO CITO é empresário e consultor de empresas em Londrina





