ESPAÇO ABERTO
Calçada para todos
Julieta Arsênio
Para aqueles que não ouviram falar, ''Calçada para todos'' é mais um dos projetos do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina (IPPUL). A Norma Brasileira de Acessibilidade recomenda a utilização de faixas de piso com textura e cor diferenciadas nas calçadas, para a identificação do percurso pelas pessoas portadoras de deficiência sensorial visual. Para que cor, se os deficientes visuais não enxergam e as pessoas consideradas ''normais'' não sabem de sua finalidade ? Logo, basta a faixa de piso com textura. Aliás, de difícil trânsito sobre eles.
Existe um dispositivo no Código Brasileiro de Trânsito, recomendando que qualquer alteração a ser colocada nas vias públicas só deverá entrar em vigor após uma orientação ostensiva a todos usuários de trânsito. No entanto, o referido projeto, estabeleceu uma área da cidade com padrão diferenciado de calçada, que inclui a faixa de piso tátil.
O deficiente, ao transitar sobre esse piso, estaria sendo orientado em seu trajeto. Convido-os a vendarem seus olhos e com o bastão que auxilia o deficiente a transitar pelas nossas ruas caminhando, principalmente, nas calçadas que têm o piso com textura. Com certeza, o risco de ser atropelado e se perder é bem maior.
Onde está a fiscalização que não cobra a implantação desse projeto de forma correta? E você que não é cego, mas está brincando de ''cobra cega'', com certeza, se sentirá inseguro, enquanto caminha sobre o piso com textura. Sabe por quê? Porque essa faixa de piso com textura normalmente está em desalinho, quando não, não tem continuidade no sentido do trajeto. Em alguns trechos, essa faixa está tão próxima do alinhamento predial que se o deficiente for obeso, seu braço direito se atritará com a parede, cerca viva, grades ou qualquer outro obstáculo que ele não vê. Talvez, seja o único a manter sua mão de direção, ou seja a mão direita, ao transitar pelas vias públicas.
Pasmem, visando melhorar as condições de circulação dos cidadãos e garantir maior segurança no caminhar, esse projeto foi lançado em 2004 no sentido de conscientizar a população sobre a importância de construir, recuperar e conservar uma boa calçada, além de apresentar padrões, regras e aspectos técnicos de como executá-las.
O sucesso dessa iniciativa depende da colaboração de todos: administração municipal, comerciantes, instituições, proprietários e locatários de imóveis, enfim, toda a sociedade. Afinal, onde se encontram que não os vejo? Retirem suas vendas e se assegurem, por vocês e pelo nosso deficiente sensorial visual, de que ''garantir com igualdade o direito de ir e vir a toda comunidade é um ato de cidadania''. Apenas, não sabemos como praticá-lo.
JULIETA ARSÊNIO é psicóloga especialista em comportamento de trânsito em Londrina
O Pacote Ecológico de Crescimento
Mário Luís Orsi
O tão famigerado Programa de Acelaração do Crescimento (PAC) já está gerando discussões por podermos prever fortes impactos negativos sobre o meio ambiente, por não compatibilizar ações de desenvolvimento com conservação de ecossistemas e por não aproveitar algumas oportunidades para o Brasil, relacionadas ao mercado de carbono. Só isso já justifica a proposição de um plano alternativo: o Pacote Ecológico de Crescimento (proposto por Rogério G.T. da Cunha), que demonstre que é possível alcançar os objetivos do PAC, mas com menos agressões ambientais.
No PAC está previsto um investimento de R$ 78,4 bilhões no setor de energia elétrica, entre geração e transmissão. Planeja-se incorporar 12.300 megawatts até 2010. Entre os investimentos estão as criticadas megausinas hidrelétricas na região amazônica, duas no rio Madeira e outra no rio Xingu, além de uma grande quantidade de hidrelétricas de grande porte, entre elas a absurda usina no rio Tibagi. Cerca de R$ 179 bilhões serão ainda destinados apenas ao setor de petróleo e gás natural, na contramão do clamor mundial em relação ao efeito estufa.
Se analisarmos as fontes renováveis de energia, outras que não as contempladas hidrelétricas, vislumbramos resultados significativos com investimentos similares. Vejam a energia eólica, por exemplo: cálculos feitos pelo centro de Referência para Energia Solar e Eólica (Cresesb) indicam um potencial total para o Brasil de 143,5 gigawatts (bilhões de watts), ou seja, mais de 10 vezes o que se quer incorporar até 2010 com hidrelétricas. Mesmo supondo-se que somente parte desse potencial seja viável, com o aproveitamento de apenas 10% desse total já se teriam os 14.350 MW pretendidos no PAC. E os custos? Segundo estudos do Centro Brasileiro de Energia Eólica da Universidade Federal de Pernambuco, a eólica é competitiva se houver investimento, sobretudo ao considerarmos o alto custo econômico e ambiental das usinas na Amazônia. Nesse caso, gerar energia eólica pode custar de R$ 145 a 170 por MWh e a produção pode ser descentralizada, reduzindo muito os custos de transmissão.
De acordo com outros estudos de empresas privadas do setor, o custo de implantação de geradores eólicos gira em torno de R$ 2 mil por quilowatt (Kw), enquanto o das hidrelétricas na Amazônia e outras localidades seria o dobro. Ou seja, custaria R$ 24,6 bilhões para implantar uma rede de geradores eólicos e produzir os desejados 12.300 MW, um investimento compatível com o previsto.
Quais seriam os motivos da insistência no modelo hidrelétrico e nos derivados de pretróleo, com todos seus problemas ambientais e sociais? Creio em três repostas possíveis e que não se excluem. Os tomadores de decisões simplesmente não estão informados sobre esse potencial e sua viabilidade (seria uma questão de ignorância). Esses mesmos atores preferem a facilidade de soluções já consagradas em vez de se debruçarem (e investirem) sobre estudos de alternativas, o que demandaria criatividade e esforço (seria uma questão de preguiça). E a construção de hidrelétricas envolve enormes interesses econômicos de empresas, que sempre tiveram fortes ligações com o poder. Então seria um problema muito mais sério: não querer ou não poder confrontar interesses. E nos parece que algo parecido já acontece no Paraná.
MÁRIO LUÍS ORSI é biólogo e professor universitário em Londrina





