ESPAÇO ABERTO
V Conferência e as cinco chagas do povo
Dom Orlando Brandes
Estamos no Tempo Pascal. A paixão de Jesus continua na paixão do povo. Os povos da América Latina e do Caribe têm suas chagas abertas e sangrentas. O amor de Deus, comprovado na morte e ressurreição de Jesus, é o início do mundo novo. Precisa ressurgir uma nova sociedade.
1. A chaga da violência. Família desestruturada, falta de amor, fome e desemprego, ausência de Deus na vida são combustíveis da violência. A pessoa humana sem pão, sem afeto e sem Deus é perigosa. O sistema econômico globalizado, concentrado e excludente é proliferador da violência. A Igreja tem as armas da solidariedade, do perdão e do amor para criar a cultura da paz. O sangue do Cordeiro é a nossa paz.
2. A corrupção. É o reino da mentira, da fraude, do roubo, da desonestidade. Nem as religiões escapam desta epidemia mundial. É um veneno mortal, sustentado pela ganância, ambição, riqueza, lucro. A corrupção trai os princípios morais e as normas da justiça. É a anarquia institucionalizada, a pior das deformações sociais. Cria desconfiança, enfraquece as instituições, deseduca o povo, distorce a verdade. Há uma conexão estreita entre a pobreza do povo e a corrupção. Eis uma chaga purulenta que tira o sangue do povo. Na paixão, cruz e ressurreição de Jesus temos o mundo novo.
3. A depredação ecológica. Se não mudarmos, pereceremos. Estamos sugando o sangue da terra. Ferimos a criação inteira. A terra que foi criada para ser jardim virou deserto e estepe. A natureza geme e sofre por causa do pecado ecológico. Ferimos as veias da terra e a irmã água pede por socorro. A depredação da ecologia é uma praga. A defesa da Amazônia é um gesto profético. Mas todos somos convocados a colocar o lixo no lixo, armazenar a água, plantar mudas de árvores e mudar o coração de pedra em coração de carne.
4. O narcotráfico. O coração vazio de Deus, a vida vazia de valores, a mesa vazia de pão, a sociedade vazia de emprego, a família vazia de amor é preenchida pela droga que leva à alucinação, é sedativo para os usuários e lucro sangrento para alguns. A chaga do crime organizado, aliado à violência já não é mais uma chaga, mas hemorragia inestancável.
5. A concentração de renda. Os ricos ficam mais ricos e os pobres mais pobres. Uns ganham salários astronômicos, escandalosos e outros vivem de migalhas ou estão abaixo do nível da pobreza. Vivem na miséria. Não é este o sonho de Deus para seus filhos. Os bens da terra são para todos. A América Latina, Continente católico, virou caótico, tanto socialmente como religiosamente.
A V Conferência deverá tocar nestas chagas, ajudar a estancá-las e até transformá-las. Teremos assim uma ''páscoa continental''. Se nós cristãos formos discípulos e missionários de Jesus Cristo, nossos povos terão vida.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina
As antinomias do arquiteto
José Miguel Arias Neto
Seria jocosa, se não fosse trágica a afirmação do sr. João Baptista Bortolotti na FOLHA em 15/02/07, ao rebater críticas ambientalistas sobre o loteamento do Jardim Vale Verde, agora embargado pela Secretaria do Meio Ambiente (FOLHA, 11/04/07). Reproduzo para o leitor: ''A realidade era outra. Condenar o passado é muito perigoso. Nós temos hoje uma compreensão de meio ambiente diferente daquela que havia há 30 anos. Temos que ter muito cuidado ao fazer essa leitura do passado, senão daqui a pouco estaremos condenando os bandeirantes e os pioneiros de Londrina, que derrubaram a mata, mataram os bichos, expulsaram os índios''.
É um uso do passado que visa legitimar as ações no presente. De um lado, o arquiteto justifica o loteamento pela falta de uma mentalidade de preservação do meio ambiente no passado. De outro, na mesma matéria, julga-se capacitado para coordenar a recuperação do local devido à sua experiência de mais de 30 anos na área (sic).
Isto tem algumas implicações. Tratarei de duas questões. Primeiro: a consciência ambiental no passado. Claude Levi-Strauss, visitando o Norte do Paraná nos anos 30 do século XX, avaliando o processo colonizador escreveu: ''Quantos anos levaria, dez, vinte ou trinta, até que esta terra de Canaã adquirisse o aspecto de uma paisagem árida e devastada?'' (Tristes Trópicos, 1º ed 1955. Cap. Zona Pioneira).
Já nos anos 50, o sr. Oswald Nixdorf observava a mesma questão em artigo publicado no Álbum do Jubileu de Prata da Cidade (existem exemplares na Biblioteca Pública, no Museu Histórico e no Centro de Documentação e Pesquisa Histórica da Universidade Estadual de Londrina). A consideração sobre os pioneiros é por demais plana e utilitária.
Segundo: a compensação histórica. No século XIX a escravidão negra era um fato condenado pelos abolicionistas internacionalmente. Hoje, a emergência do movimento negro coloca em questão a idéia de compensação diante de tamanha injustiça. Trata-se de implementar medidas de correção em relação ao passado.
A atual crise ambiental coloca em pauta a correção do passado: ou medidas radicais serão tomadas ou a vida no planeta estará irremediavelmente comprometida. E não há mais dúvidas quanto a isto: foram os homens os causadores desta crise.
O passado exige, portanto, uma ação no presente. Se tudo se tornar um deserto haverá alguém para ouvir a velha desculpa: mas não havia uma consciência e uma legislação ambiental no passado? Faz esta cantilena algum sentido nos dias atuais?
JOSÉ MIGUEL ARIAS NETO é professor do departamento de História da Universidade Estadual de Londrina





